Cinco anos após a conclusão da guerra que acabou com o mundo, os sobreviventes descobriram que nada realmente terminara; no rastro das máquinas, dos terremotos e das ondas devastadoras, a primavera ainda chegava. Soldados retornavam de frentes apocalípticas distantes com seus uniformes esfarrapados para implorar por arroz e pão. Mercadores negociavam suas mercadorias e despachavam seus navios para costas distantes, exigindo ouro por bens, erguendo mansões e tabulando as dívidas de seus clientes. Guardas patrulhavam as ruas e fronteiras dos distritos altos, mãos em suas espadas e olhos arregalados com o mesmo medo de sempre. Os campos ainda precisavam de semeadura e colheita; trabalhadores magros ainda se arrastavam para colher grãos sob os olhos severos dos supervisores. O preço do pão e do leite subia gradualmente, o gado e a caça tornavam-se escassos, o salário que se levava para casa pelo trabalho nos campos não rendia tanto, e à noite o horizonte ao sudeste nunca escurecia de verdade. A vida continuava em Terisiare, embora as estações da primavera e do verão parecessem durar menos, os meses quentes comprimindo-se em semanas quentes e, no inverno, a neve agora caía em Penregon.
Todos os que testemunharam o cataclismo — ou seja, todos em Terisiare — sabiam que o mundo havia acabado naquele dia. Então, acordaram na manhã seguinte e descobriram que a vida continuava, mas nunca parecia realmente mudar para melhor. O melhor que as pessoas podiam esperar era que as coisas não continuassem a piorar.
Arte de: Lucas Staniec
Cinco anos após a explosão, Kayla bin-Kroog sentava-se sozinha nas câmaras do conselho da sede do governo de Penregon, ouvindo o estalar quente da lareira que se apagava no aposento. Com a agenda do dia completa, exceto por uma última reunião privada, seus conselheiros e membros do comitê haviam saído para caminhar com dificuldade pela neve de volta às suas casas. Eles a deixaram sozinha com os últimos livros contábeis, dados censitários e relatórios de expedição de Penregon — uma súcia de pesadelos rabiscados em tinta aguada em papel gasto. Jarsyl fora cuidado, enviado para o estudo noturno com seus tutores.
Sozinha finalmente. Kayla segurava um relatório de grãos, com números sombrios, e olhava por cima dele para um mapa recém-desenhado do Mar Visceral a leste, estendido na mesa à sua frente.
Vazio.
A outrora verdejante ilha de Argoth, a sudeste, havia desaparecido, reduzida a espirais monolíticas de pedra basáltica açoitadas pelas ondas. A guilda dos mercadores exigira esta expedição mais recente, esperando reviver as antigas rotas comerciais entre Penregon e os reinos distantes do outro lado do oceano, mas as pequenas ilhas que antes usavam para reabastecer água e comida haviam sumido; ou as estrelas estavam erradas agora, ou aquelas ilhas haviam sido engolidas pelo mar.
Kayla jogou o relatório de grãos para o lado. Ela já sabia o que ele diria — as colheitas haviam terminado e estavam menores do que as do ano passado, assim como os relatórios do ano passado foram menores do que os do ano anterior, e assim por diante, retrocedendo até quando o mundo que conheciam havia acabado. Os papéis flutuaram para o chão a certa distância dali, perto de uma janela entreaberta com vista para a cidade, onde se misturaram aos flocos de neve derretidos que entravam.
Neve. Kayla lembrava-se de caminhadas raras em seus anos de juventude no sopé das montanhas ao redor da torre dele. As montanhas, as florestas alpinas, o vento — o inverno tinha uma beleza severa que ela tentara relacionar com a postura austera de Urza, mas não conseguira. A verdade era que Kayla odiava o inverno.
Embora os aquecedores a vapor bombeassem calor suficiente para que toda a câmara fosse confortável, Kayla ainda sentia um frio que penetrava os ossos. Seu conselho a deixara de mau humor.
"— Quão distantes vocês estão agora, deuses — resmungou Kayla. Quando os deuses se sentiram próximos dela pela última vez? Kroog, antes de ser saqueada. Suas espirais arejadas e mercados lotados. Um lar, arrancado dela. Kayla fechou a janela. A nostalgia a apertava o coração hoje. Uma pitada de desgosto na memória, não pelo que recordava, mas pela dor da recordação; havia um motivo para seu devaneio, que estava prestes a se intrometer em instantes."
Uma batida educada nas portas da câmara chamou sua atenção. O amargo fluxo de adrenalina que se seguiu foi inesperado, atípico e indesejado, apesar dos preparativos da noite anterior.
"— Sim? — disse Kayla, respondendo à batida."
Um jovem pajem entrou nos aposentos e limpou a garganta.
"— Senhora, sua última reunião chegou."
"— Mande-o entrar — disse Kayla. Ela gesticulou para que ele saísse. — E traga-nos refrescos, tenho certeza de que nosso convidado está com fome."
O pajem fez uma reverência e deixou a câmara, fechando a porta suavemente atrás de si.
A porta se abriu novamente e seu convidado entrou arrastando os pés. Kayla olhou para ele e viu um homem morto. Maltrapilho e castigado pelo vento, com o nariz e as orelhas enegrecidos por manchas de queimadura de frio, as saliências das bochechas descascando onde o gelo o havia corroído. O homem vigoroso e firme que ela conhecera décadas atrás definhara até se tornar um esqueleto torto com cabelos brancos e crespos. Seus olhos permaneciam brilhantes, no entanto, e sua voz era inconfundível.
"— Olá, Kayla. Você parece bem."
Kayla esboçou um sorriso educado e vazio. "— Tawnos — disse ela. — Achei que estivesse morto."
O antigo assistente de Urza fez uma reverência. "— De certa forma, eu estava — disse ele. Tawnos falava com uma rigidez nova para Kayla. Em sua juventude, ele sempre parecera um contraste caloroso a Urza, um homem afável mimado por seu amor e devoção ao marido dela. Agora Tawnos era quase um espelho de Urza, até mesmo nos cabelos brancos."
Kayla gesticulou para um assento na mesa do conselho, para o qual ele mancou e sentou-se.
"— O mundo mudou desde a última vez que fiz parte dele — disse Tawnos, ajeitando o manto ao redor de si. — Nunca soube de neve tão perto do mar."
"— O mundo foi mudado — corrigiu-o Kayla."
"— Sim, suponho que você esteja certa — Tawnos fez uma careta. — Mas isso é passado; tenho tanto a lhe contar e muito a mostrar. — Seu sorriso era o de um crânio despojado de sua carne. Kayla vira sorrisos demais como aquele desde o fim da guerra, estampados nos rostos dos soldados que retornavam e dos mortos empilhados em carroças de necrotério."
"— Nada é passado — disse Kayla. — Como evidenciado por você se arrastando para dentro de Penregon."
A porta da câmara do conselho se abriu, poupando Tawnos de ter que responder. Dois pajens entraram empurrando um carrinho com chá de hortelã e pequenos salgados fumegantes. O jantar, por enquanto.
"— Eu estava com ele pouco antes do fim — disse Tawnos, pegando um salgado do carrinho."
"— Você sempre foi próximo do meu marido."
"— Ele impediu que um demônio tomasse este mundo — disse Tawnos, baixo mas firme, com os olhos baixos. — O irmão dele fora... — Tawnos buscou a palavra e a encontrou na memória amarga. — ...transformado por aquela criatura. Fundido com uma máquina. — Tawnos olhou para cima, com os olhos marejados. — O mesmo teria acontecido com o resto de nós se Urza não tivesse agido. Ele nos salvou."
Kayla serviu-se de chá. "— Você me disse que ele manteria meu filho seguro — disse ela. Sem desviar os olhos de sua xícara, ela ofereceu o bule a Tawnos. — Nunca mais o vi."
"— Ele... — Tawnos limpou a garganta. — Harbin foi um exemplo para seus homens; um oficial corajoso e um bom piloto."
"— A morte dele foi boa? — disse Kayla. Sua voz era regular e calma, mas mais fria do que o vento que havia cortado as orelhas de Tawnos e queimado seu nariz. — Se meu filho foi um exemplo , eu esperaria que ele tivesse sido um bom exemplo e poupado outras mães da dor de perder seu primogênito para a guerra."
"— Como piloto, ele..."
"— Tudo o que Harbin sempre quis foi deixar o pai orgulhoso — disse Kayla, interrompendo Tawnos. — Ele sempre se preocupou, por ser apenas um piloto e não um artífice como você, que seu pai pensasse menos dele. Antes — quando era jovem — Harbin me contava sobre seus sonhos. Ele sonhava que podia voar e que, sempre que voltasse para casa, seu pai ficaria orgulhoso de seu menino voador. Ele alguma vez fez meu marido sorrir, Tawnos? Antes de morrer, ele deixou o pai orgulhoso dele?"
"— Urza nunca quis colocar Harbin em perigo..."
"— Então por que ele começou uma guerra para meu filho morrer nela? — disparou Kayla. A raiva ardeu através dela, como um incêndio florestal. Ela atirou sua xícara contra a parede, onde se estilhaçou, ecoando por toda a câmara. Tawnos não disse nada enquanto ela se acalmava."
"— Tawnos. — Kayla falou, compondo cada palavra, moldando cada sílaba do som primordial ao significado. — Para que sejamos claros: nunca perdoarei você por me convencer a permitir que meu filho partisse e morresse na guerra do meu marido. Seu caminho de volta à minha graça é dez vezes mais longo e frio do que a trilha amarga que você seguiu até aqui."
"— Sim, senhora — disse Tawnos."
"— Agora me diga o que você veio me contar."
Tawnos enfiou a mão nas dobras de seu manto e puxou um rolo de tecido encerado. Ele o desenrolou sobre a mesa, revelando um pequeno maço de papéis velhos, grossos e amarelados pelo tempo. Alguns danos causados pela água enrugavam as bordas, mas não o suficiente para estragar o conteúdo. Kayla os reconheceu imediatamente.
"— Projetos — disse Kayla. — Trabalho do meu marido?"
"— E alguns meus — disse Tawnos. — Eu os mantive comigo enquanto estive fora. Vingadores, estátuas de argila... você se lembra deles? Ornitópteros também, de todos os tipos. — Tawnos cuidadosamente retirou as páginas de seu rolo de tecido encerado e as exibiu sobre a mesa. — Motores a vapor, torres de comunicação... navios, máquinas e dispositivos que ele havia projetado. A maioria para a guerra, com certeza, mas alguns para uma paz na qual ele esperava viver um dia."
"— E todos inúteis sem pedras de poder — disse Kayla. — A menos que queiramos criar uma... indústria de ratos mecânicos de brinquedo em Penregon. — Ela acenou para Tawnos com uma página que continha os esboços de um roedor de brinquedo."
Tawnos riu e então percebeu que Kayla não estava brincando. Ele tossiu. "— De fato, sim, claro, e sobre esse ponto, tenho boas notícias. Consegui recuperar um punhado de pedras de poder e sei onde podemos encontrar mais."
Kayla fixou o olhar em Tawnos. Ela uniu as pontas dos dedos, pressionando-os sob o queixo. Fechou os olhos. Suspirou. "— Não importa quanto grão colhamos ou quantos peixes pesquemos, homens como você estarão sempre famintos. Diga-me."
"— Antes do colapso, Argive tinha o maior estoque de pedras de poder em Terisiare — disse Tawnos. — Seus depósitos foram enterrados, mas nos documentos de Urza, encontrei um mapa. Com as pedras de poder que tenho em minha posse e estes projetos, eu poderia construir novas máquinas para ir e cavá-las. — Tawnos estava entusiasmado, tão animado quanto Kayla se lembrava dele em sua juventude. Sua cabeleira rebelde e olhos arregalados, combinados com o nariz queimado pelo frio, faziam-no parecer alguma criatura de um conto de fadas — selvagem, se não quase grotesca."
"— Nada de armas, apenas ferramentas — disse Tawnos. — Podemos usar as pedras para alimentar autômatos que nos ajudarão na mineração e na colheita. Podemos usá-las para iluminar a cidade à noite ou alimentar aquecedores para manter o frio afastado. — Tawnos inclinou-se para frente, estendendo a mão para Kayla. — Poderíamos reconstruir Penregon. Seus guardas me disseram quando cheguei que qualquer um que visse a luz de Penregon era bem-vindo nesta cidade. — Tawnos apontou para o outro lado da sala, em direção às muralhas de Penregon. Kayla sabia que ele falava do farol com vista para o porto. — Eu ofereceria meu conhecimento e estes planos para espalhar essa luz por Terisiare."
Kayla não respondeu, nem segurou as mãos de Tawnos.
O primeiro ano após o cataclismo foi um ano de tumulto. Em Penregon, a explosão causou terremotos terríveis que nivelaram a maioria dos edifícios de pedra e tijolo da cidade, desmoronando-os sobre seus ocupantes. O rei e sua corte, abrigados no Salão do Leão — a poderosa cidadela empoleirada nos penhascos vertiginosos com vista para o Porto de Penregon — desabaram no mar. Ondas gigantescas seguiram-se, golpeando os distritos costeiros, varrendo as ruas da cidade, limpando-as de escombros e sobreviventes.
Quando os tremores pararam e a água recuou, Kayla bin-Kroog era uma das poucas nobres que restaram vivas. Como esposa do líder da aliança e ela própria uma princesa, o governo da cidade recaiu sobre ela. Seis longos anos depois, ela ainda era a pastora de Penregon, a cidade dos remanescentes.
"— Você fala como o meu marido — Kayla finalmente disse. — Tudo o que ele queria era tornar o mundo um lugar melhor."
"— Se me permite — disse Tawnos. — Ele me pediu para lhe transmitir uma mensagem."
Kayla arqueou uma sobrancelha.
"— Ele me pediu para lhe dizer para, ah... — Tawnos tomou um gole de seu próprio chá — ...'lembrar-se dele não como ele era, mas como ele tentou ser'."
Kayla riu, um som agudo e cristalino que continha o quebrar de sua voz. Por um momento, Tawnos pensou que fosse um riso genuíno, mas naquele momento desapareceu assim que Kayla falou.
"— Ele acha que ainda sou a princesinha que ele conquistou? — disse Kayla. — Tudo o que ele sempre tentou ser — tudo o que ele e o irmão dele sempre tentaram ser — foram príncipes do mundo. — Kayla apontou para Tawnos. — Você sabia disso naquela época tão bem quanto eu sei agora; durante todo o nosso casamento, você passou mais tempo ao lado dele do que eu."
Tawnos permaneceu em silêncio.
"— Meu marido e o irmão dele forçaram escolhas cruéis ao seu povo — disse Kayla. — Eles queimaram o mundo porque nenhum dos dois conseguia conversar com o outro. — Ela estendeu a mão sobre a mesa e pegou um dos projetos de Tawnos. Um autômato vertical, uma das formas de guerra que ela lembrava Urza projetando após o saque e a ruína de Kroog. Kayla olhou para a caligrafia precisa de seu marido. Suas linhas perfeitamente desenhadas. A máquina, renderizada em tinta velha em papel fino, parecia que poderia saltar da página se alguém proferisse seu comando de ativação."
"— Agora devemos reconstruir a partir das cinzas daqueles irmãos — disse ela, pousando a página. — Olhe para mim, Tawnos."
Tawnos fez o que lhe foi ordenado. Lágrimas escorriam por suas bochechas castigadas.
"— Pare de chorar — disse Kayla. — Você, eu e todos os outros vivemos à sombra do meu marido e do irmão dele. Terisiare foi despojada de tudo pela guerra deles. Perdi meu pai, meu filho e meu reino. Cada coisa boa e gentil que compunha minha vida eu perdi por causa dele. — Ela gesticulou ao redor da sala — o papel de parede descascando, os canos de vapor borbulhando. A neve que ainda caía lá fora. — Não me regozijo com a morte do meu marido. Já houve morte suficiente. Mas estou feliz que ele se foi, e não o perdoo pelo que fez. Não me lembrarei dele como ele queria ser lembrado. Lembrar-me-ei dele como ele era. — A voz de Kayla era firme como ferro. Ela viu algo no curvamento dos ombros de Tawnos — uma hesitação, distinta do abatimento de seu espírito. — Tawnos? — ela perguntou. — O que você não está me contando?"
Tawnos mordeu o lábio inferior castigado pelo vento. As lágrimas brotaram novamente, mas ele as espantou. "— Urza não está morto, senhora."
A pulsação nas têmporas de Kayla acelerou, e o cerrar de sua mandíbula poderia ter rachado pedra. Para Tawnos, que sempre conhecera Kayla como a brilhante e adorável princesa de Kroog, o ferro na mulher que se sentava à sua frente era aterrorizante. Urza arruinara o mundo, mas quem ele mais feriu foi Kayla bin-Kroog.
"— O quê? — A raiva na voz de Kayla estava afiada com a precisão de uma agulha."
"— Ele não está morto — disse Tawnos. — Ele se tornou... algo mais."
"— Esse 'algo mais' é um homem melhor?"
"— Eu... não tenho certeza do que ele se tornou — admitiu Tawnos, baixando o olhar. Lentamente, ele se levantou e começou a juntar seus papéis soltos, guardando-os de volta no rolo."
"— O que você está fazendo?"
Tawnos parou. "— Indo embora, senhora."
Kayla balançou a cabeça. "— Não, Tawnos. Sente-se. Por favor."
Tawnos sentou-se.
"— Recuperamos o que pudemos das fábricas do meu marido após a explosão — disse Kayla. — Máquinas, chassis, pedras... as coisas que ele usava para construir seus autômatos em grande número. Ninguém aqui sabe como usá-los, mas com a sua chegada, parece que isso mudou. — Kayla recolheu seus pequenos pertences e acompanhou Tawnos até a porta. — Amanhã, pedirei a Myrel, minha capitã de patrulha, que o leve aos armazéns para que você possa começar."
"— Obrigado, Kayla — disse Tawnos, parando à porta."
Os lábios de Kayla se estreitaram, sem oferecer nem mesmo o fantasma de um sorriso. "— Um longo caminho, Tawnos — disse ela. — Vá. Está frio."
Tawnos saiu, seguindo o pajem que esperava na escuridão iluminada por velas, deixando Kayla sozinha mais uma vez.
A primavera chegou meses depois, e Penregon tornou-se uma cidade viva mais uma vez. Os cumes denteados das Cordilheiras de Kher podiam ser vistos perfurando o manto de névoa onipresente da cordilheira, seus picos brancos com a neve do inverno. Encosta abaixo, novos brotos surgiam entre os tocos de raízes que outrora foram florestas antigas, colhidas durante a guerra para combustível e carvão. Riachos, inchados pelo degelo, despencavam pelas montanhas, derramando-se nos campos fora de Penregon, onde enchiam as antigas trincheiras defensivas, criando novos e finos lagos regimentados. Aquelas velhas linhas de batalha, outrora um panorama infernal de pedra, metal e terra despojada pelo fogo, eram agora oceanos de grama sobre os quais desabrochavam borrifos de delicadas flores silvestres. Sob as flores, os mortos inumeráveis jaziam desconhecidos, mas nunca esquecidos. Pássaros se reuniam, aninhando-se nas velhas e decadentes torres de comunicação que Urza erguera, todos aqueles anos atrás.
Perto da base de Kher e nos pântanos ao sul de Penregon, feridas estéreis marcavam a terra onde as piores máquinas da guerra haviam morrido. Grandes carcaças corroídas jaziam em poças de água escura, viscosas com liquens horrivelmente mutantes que gotejavam e nunca congelavam. Nenhum pássaro canoro fazia seu lar de inverno dentro desses cadáveres mecânicos. Nenhuma fera bebia da água coberta de óleo. Um fedor pairava no ar ao redor deles, e os patrulheiros de Penregon tinham o cuidado de marcar um perímetro ao redor de quaisquer remanescentes que encontrassem em suas andanças.
Kayla caminhava ao longo do topo da nova muralha interior de Penregon com Tawnos ao seu lado, olhando por cima do parapeito para o trabalho que estava sendo feito nesta parte das fortificações da cidade. Centenas de trabalhadores trabalhavam para preencher as lacunas na antiga muralha de pedra, cujas seções inteiras haviam deslizado para o antigo fosso de Penregon quando a terra tremeu durante o cataclismo. A muralha, outrora um poderoso testemunho da habilidade dos engenheiros de Penregon, desabara em minutos. Sua reconstrução teve baixa prioridade até que o inverno começou a minguar. Esta primavera traria mais do que clima quente e flores: outro perigo ameaçava Penregon.
Um destacamento de patrulheiros de longo alcance retornara à cidade nas primeiras horas da manhã. Kayla, esperando sua chegada, encontrou-os na muralha para ouvir seu relatório. Tawnos estivera encerrando o turno da noite em sua fábrica e correra para atender ao chamado dela. O pequeno grupo sobre as obras de terraplanagem era uma coleção heterogênea: Kayla de calças e um casaco acolchoado contra o frio, Tawnos em seu avental de fundição e a Capitã de Patrulha Myrel em seu uniforme enlameado sob um poncho escuro. Myrel retornara do campo naquela manhã e ainda usava uma couraça envolta em tecido e uma espada.
Arte de: Nicholas Elias
"— Quantos? — perguntou Kayla à sua capitã."
"— Minha melhor estimativa é dez mil — disse Myrel. — A frente da marcha havia chegado ao sopé das montanhas antes que a cauda tivesse levantado acampamento, mas a coluna era estreita, com não mais que cinco de frente."
"— E quantos guerreiros?"
"— Não parecia haver distinção, senhora — disse Myrel. — A maioria deles carregava algo: um porrete, uma lança, velhos quebra-armaduras e piques antiméca da guerra. Cerca de duzentos ou trezentos cavaleiros montados. — Myrel deu de ombros. — Não é um exército profissional, mas havia muitos vestidos com armaduras. Vi velhas armaduras Fallaji, couraças Korlisianas, placas Argivianas e até alguns em malha Yotiana. É como a senhora pensou: eles estão organizados, mas não regimentados."
Kayla observava a construção abaixo. Trabalhadores e engenheiros trabalhavam ao lado de alguns dos primeiros modelos de autômatos civis de Tawnos, arrastando blocos de pedra maciços caídos, mas recuperáveis, do fosso inundado por meio de polias. Outras equipes transportavam blocos previamente recuperados, madeira fresca e cestos de cascalho e terra para as brechas na muralha, preenchendo as lacunas. Esse trabalho se estendia por toda a muralha interior de Penregon, conforme as ordens de Kayla. Um trabalho lento durante o último ano, embora, com a adição dos novos autômatos de Tawnos, os reparos tivessem ganhado velocidade.
"— Minhas equipes devem terminar a muralha até o fim do mês — disse Tawnos, como se ouvisse os pensamentos de Kayla."
"— A cidade depende deste trabalho — disse Kayla. — Informe ao conselho o que você precisa para concluir isso. Capitã Myrel — disse Kayla, voltando-se para sua capitã de patrulha. — A marcha mostrou algum estandarte?"
"— Eles hastearam bandeiras de ambos os lados — disse Myrel. — Embora a mais comum fosse um estandarte preto liso. Eles também içaram restos de máquinas."
"— Restos? — perguntou Tawnos."
"— Partes de autômatos — disse Myrel. Eles fizeram uma careta. — Bem como as criações da Mulher Vermelha, carregadas em gaiolas ou amarradas com arame."
"— Transmogristas — disse Tawnos. — O trabalho hediondo de Ashnod."
Kayla conhecia o nome, embora apenas de passagem. Alguma artífice que trabalhara para Mishra durante a guerra — sua torturadora, quando ele fora capturado. Sua amante também, se os rumores fossem verdadeiros.
"— Tawnos — Kayla chamou a atenção do velho artífice. — Os autômatos... seus civis. Eles podem ser convertidos para a defesa de Penregon?"
Tawnos franziu a testa. "— Você quer dizer, eles podem lutar?"
"— Sim."
"— Eles podem. Com algum tempo, eu poderia adaptar os civis para empunhar armas. — Ele hesitou. — Devo fazer isso?"
"— Ainda não — disse Kayla. — Mas esteja pronto."
"— Porei meus artífices na tarefa."
"— Capitã? — disse Kayla para Myrel. — Certifique-se de que você e seus patrulheiros descansem. Amanhã, quero olhos atentos sobre esta coluna e relatórios diários sobre seu movimento. Precisamos saber se eles estão indo para Penregon ou para outro lugar. — Kayla olhou para as montanhas ao sul. Atrás daqueles cumes invernais, a marcha se reunia. Dentro de um mês, as passagens degelariam e certamente a marcha esfarrapada chegaria às muralhas de Penregon logo depois."
Pela primeira vez em anos, Kayla sentiu mais do que a dor surda do pesado fardo da reconstrução. O que sentia era mais agudo, mais amargo. O sentimento a despertara da cama naquela manhã bem antes do amanhecer, embora tivesse dormido apenas uma hora no máximo: medo.
Dois meses depois, a marcha caótica avançava pelos campos lamacentos fora de Penregon, o som de sua passagem um estrondo baixo de botas, cavalos e longos trens de carroças. Em vez de poeira da estrada, gritos distantes subiam acima da coluna, o conflito de muitas canções e cânticos rítmicos, todos competindo para ser a voz da marcha. O vozerio e o zurro de humanos e feras, vozes erguidas em oração ou angústia, fome ou protesto, alegria ou — aos ouvidos de Kayla — proferimentos sem sentido. Era o som do delírio, do pandemônio, da guerra, do medo e da libertação. Trouxe à mente de Kayla a memória da manhã em que as forças de Mishra atacaram Kroog, como a cidade de seu nascimento soara enquanto morria e se tornava outra coisa: uma ruína, uma sepultura, um símbolo.
Dez mil almas fora uma estimativa sóbria, Kayla percebeu; se ela tivesse patrulhado a marcha, teria adivinhado cem mil. A passagem de pessoas parecia interminável e avassaladora, uma coluna vestida de escuro subindo do sul para atravessar as pastagens ribeirinhas entre Penregon e as Kher. A marcha a lembrava de formigas migratórias, de como formavam um fio ininterrupto de operárias e guerreiras ao viajar de uma colmeia antiga para uma nova, com a rainha escondida entre os plebeus. Seria o mesmo com esta marcha? Quem era sua rainha e onde estavam seus guerreiros?
Kayla compreendia a incerteza da capitã de patrulha em chamar aquela grande assembleia de exército ou migração. Com a ajuda da luneta de Myrel, Kayla viu idosos e crianças, massas de pessoas vestidas com armaduras recuperadas ou improvisadas, algumas usando apenas trapos — todos marchando juntos em uma massa ondulante, girando, organizada pelo ímpeto. Como as colunas de refugiados de sua juventude, esse rio fervilhante de humanidade era uma criatura, um ser cujo único impulso era permanecer unido e em movimento. Depois de algum tempo, Kayla notou alguns padrões em sua observação da marcha: Cavaleiros apressavam-se ao lado da vasta multidão, transportando mensagens, distribuindo água e cobertores extras, levando aqueles exaustos demais ou incapazes de continuar por conta própria de volta ao longo trem de carroças rolantes que seguia a marcha. Esses cavaleiros mantinham o curso da grande coluna como cães pastores guiariam o gado.
"— Senhora — Myrel chamou a atenção de Kayla. Eles apontaram para um pequeno grupo de cavaleiros vestidos de preto que se separara e começara a cavalgar em direção aos portões de Penregon. Eram apenas cinco, todos armados e protegidos por armaduras. Um carregava uma lança alta — um antigo modelo antiméca da guerra — com um estandarte preto tremulando em sua ponta de aço afilada, com um raio branco amarrado abaixo."
"— Emissários — disse Kayla. — Capitã, traga um esquadrão de seus patrulheiros. Vamos ao encontro desses marchantes."
Descendo das muralhas remendadas para as ruas lotadas de Penregon na primavera, Kayla e sua escolta de patrulheiros abriram caminho através da multidão ao meio-dia, todos ansiosos e apressados para chegar às muralhas e observar a procissão distante. Pessoas gritavam enquanto Kayla e seus guardas passavam, berrando perguntas e incentivos. Ser visto e reconhecido pela Senhora de Penregon era suficiente para a maioria; os ansiosos estendiam as mãos, encorajados pelo toque de Kayla. Ela tinha uma ideia do que se tornara para as pessoas que liderava — uma mártir viva, a esposa esquecida do assassino do mundo que, na sombra de sua partida, liderava os sobreviventes na criação de um santuário. Not uma lugar gentil, mas um lugar seguro. Secretamente, Kayla odiava como as pessoas pensavam nela: ela era mais do que uma esposa esquecida e enlutada. Mesmo assim, cada pessoa que torcia, cada rosto esperançoso ou temeroso por quem passava em seu caminho para os portões, enterrava um prego de ferro de determinação mais profundamente nela: ela veria Penregon segura através de qualquer adversidade que surgisse.
Libertar os portões exigiu alguns gritos e empurrões, mas os patrulheiros conseguiram conduzi-la até a frente, onde o pequeno portão de Penregon — uma porta recortada na grade muito maior de pedra e ferro — estava aberto. She ducked through and walked out onto the cobblestone road where a line of city guards waited. A Capitã Myrel correu para o lado de Kayla e latiu comandos para que seus patrulheiros fizessem o mesmo. Assim organizada, a comitiva de Kayla se abriu para permitir sua passagem. Os emissários vestidos de preto da marcha esperavam para encontrá-la diante de um trecho de terra estéril de poucos metros de largura.
Kayla franziu o nariz com o fedor deles, recompondo-se após o reflexo passar. Os emissários não pareceram se importar. Eles se curvaram sobre os arções de suas selas, olharam maliciosamente para a cidade atrás dela e esperaram.
"— Bem-vindos a Penregon — disse Kayla, elevando a voz para cruzar o espaço entre eles. O som da marcha trovejando atrás dos emissários era um substrato indesejado, um novo fundo que fazia os pequenos pelos da nuca de Kayla se arrepiarem."
"— Todos são aceitos dentro de nossas muralhas sob três condições. Entreguem suas armas, sustentem-se e contribuam para o bem-estar de Penregon — disse Kayla. Ela procurou quem entre os emissários seria seu líder, mas não encontrou alívio em marcas de posto ou ornamento, pois os homens usavam uma mistura eclética de siglas, cores e armaduras. O antigo conhecimento de Kayla sobre protocolos, estandartes, brasões de casas — todos aqueles identificadores do mundo há muito desaparecido — serviu apenas para aumentar sua confusão. Ela se fixou no homem com o conjunto remendado de armadura de soldado de infantaria, assumindo que ele seria o líder por seu porte físico, equipamento e postura."
"— Somos penitentes. — Um homem em um casaco blindado de ferro falou primeiro. Ele era mais velho e castigado por uma vida dura. Tinha cabelos grisalhos e finos, com uma barba escura crescendo entre uma teia de aranha de cicatrizes superficiais de queimadura. Kayla já vira essas feridas antes em alguns veteranos da guerra: aqueles que estiveram lá no fim, quando as máquinas se açoitaram com terríveis armas de energia."
"— Somos peregrinos justos — continuou o homem, falando além de Kayla para se dirigir às pessoas e guardas dispostos ao longo das muralhas de Penregon. — Somos os vivos de Terisiare, que buscam limpar esta terra da imundície das máquinas. — Ele olhou para as ameias, percorrendo a pedra escura, encarando cada pessoa ali por sua vez. — Libertamos Korlis e marchamos em uma peregrinação de ferro. Aproximamo-nos de vocês como parentes, com paz e um pedido: que todos os que guardam um ódio justo e medo da máquina se juntem a nós em nossa cruzada. — A voz do homem era clara e robusta, a voz de um líder, com um fio como o de uma navalha. Ele não falava com ela, mas com o povo de Penregon; Kayla podia ouvir sua crueldade. Ela esperava que seu povo também pudesse. — Somos como vocês — sobreviventes dos demônios mecânicos e da perdição que seus criadores trouxeram sobre nós. Muitos de nós lutamos em lados opostos durante a guerra, mas no rastro do fim, agora reconhecemos nossa humanidade compartilhada. Não nos temam — juntem-se a nós."
Um dos marchantes na comitiva do líder, um homem carregando um estandarte preto, esporeou seu cavalo para frente. Os patrulheiros de Kayla recuaram, levando as mãos às lâminas, preparando-se para sacar. O porta-bandeira girou seu cavalo em um círculo apertado, hasteando alto a bandeira preta, uma saudação a Penregon. Os outros cavaleiros vibraram, três gritos à glória de sua ordem.
Nenhum grito de alegria seguiu-se das multidões curiosas ao longo da muralha. Em vez disso, o som distante da marcha preencheu o espaço. O vento que soprava estalava o tecido escuro, alto como o estalo de um chicote. Kayla franziu a testa e leu o estandarte, percebeendo que era mais do que apenas um campo preto simples. Bordados nele em um azul profundo, tão escuro que era difícil de ver de longe, estavam dois círculos, lado a lado.
"— Senhora Kayla. — O orador finalmente se dirigiu a Kayla. Por um momento, ela ficou surpresa por ele saber o nome dela — ela os assumira como bandidos, saqueadores, talvez até um dos senhores da guerra ocidentais que seus patrulheiros lhe disseram que agora governavam o interior de Terisiare. — Eu sou Raddic de Kroog. — Sua voz não tinha sotaque aos ouvidos de Kayla, situando-o em qualquer lugar desde Yotia no sul até os pequenos domínios Argivianos no extremo nordeste. — Você não me conhece, mas servi sob o comando de seu pai durante a segunda campanha Suwwardi — disse Raddic. Ele falava com uma graça rude, como a maioria dos oficiais do povo que Kayla conhecia. Seu pai, em seu melhor momento, fora um como eles — um homem de graça rude, simples em sua compreensão de liderança e governo."
Não era de se admirar, então, que esse homem parecesse familiar.
"— Você é Yotiano? — perguntou Kayla."
"— Eu era, sim — disse Raddic. — Vaguei pelas Kher do sul após o saque de Kroog. Encontrei um lar lá até que os Korlisianos nos recrutaram para a Campanha de Tomakul de 955. — Ele acenou para o homem de gorro de latão. — Conheci o velho Arah nas trincheiras, embora não tenhamos nos visto novamente até depois do Cataclismo. — Raddic sorriu o máximo que suas cicatrizes permitiam. — Após nossa derrota, passei o resto da guerra em um campo de trabalho Fallaji."
"— Que jornada — disse Kayla secamente."
"— Todos nós que estamos vivos sofremos algo parecido — concordou Raddic."
"— E o que é isto? — perguntou Kayla, apontando para a coluna em marcha ao longe. — Outro exército, reunindo velhos soldados? Ou algo mais?"
Raddic olhou para cima, encarando além dela e para as muralhas, como se estivesse constrangido sob o olhar das multidões que assistiam à sua pequena reunião.
"— Eu disse a verdade pura, Senhora Kayla. — disse Raddic. — Somos guerreiros pela humanidade. Cruzados contra o mago, o morto-vivo e o demônio mecânico. — Raddic levou a mão esquerda ao coração, e Kayla viu que seus dedos haviam sido encurtados — provavelmente decepados em alguma batalha. — Começamos nossa cruzada com um expurgo das terras Gixianas no extremo norte, esvaziando aquele templo miserável de óleo e máquinas — disse Raddic. — Marchamos então pelo deserto que fora o antigo império Fallaji e, depois, pelas ruínas da bela Kroog. Korlis seguiu-se; nós a libertamos de um cruel senhor da guerra mecânico e recrutamos muitos para nossa causa. Agora estamos indo para a Torre de Ferro, onde o Lorde Protetor — Raddic praticamente cuspiu o antigo título de Urza — uma vez deu à luz seus demônios mecânicos ao mundo. Buscamos apenas comida, água e outros suprimentos que vocês possam dispensar. Além disso, peço que meus sacerdotes sejam bem-vindos em suas ruas para ministrar ao povo e convocar os fiéis às armas."
"— A Torre de Ferro? — perguntou Kayla, ignorando o pedido de Raddic."
"— Você a conhece? — perguntou ele, sem um pingo de dúvida suavizando suas palavras."
Se ela a conhecia? He meant Urza's old tower. "— Fui levada lá uma vez, anos atrás — disse Kayla. — Mas eu não saberia lhe dizer o caminho. Está bem escondida nas montanhas em algum lugar a oeste ou sudoeste. Você a reconhecerá pela névoa espessa que a cerca."
"— Seu marido não era um homem que confiava nos outros — disse Raddic."
Kayla eriçou-se. "— Urza não era um homem que confiava nos outros, não."
"— Por que não vem conosco, então? — disse Raddic. — Mostre-nos o caminho, empreste-nos seus soldados. Venha e limpe este mundo das máquinas."
Kayla olhou além de Raddic para a marcha lenta ao longe, aquela massa de humanidade. Todos carregavam algo — mochilas pesadas, armas, os idosos fracos demais para andar ou crianças jovens demais para se carregarem. A guerra arruinara tanto. Essas pobres pessoas. Kayla não as temia mais; ela compreendia. O ódio de Raddic pela máquina era o mesmo ódio que ela nutria, apenas ele era livre para seguir aquela veia ardente até seu fim sangrento. Kayla tinha uma cidade para liderar, um mundo para reconstruir — não uma sepultura para encher."
"— Não posso — disse Kayla, desviando os olhos daquela visão. — Sou a rainha regente de Penregon, não uma guerreira, nem uma comandante lendária. Estou, no entanto, disposta a negociar. Temos bens, comida e artesãos — disse Kayla. — Seu povo é livre para buscar refúgio em nossa cidade, mas pedimos que nenhum soldado entre. Nenhuma arma poderá cruzar nossos portões."
Raddic curvou-se o melhor que pôde a cavalo. "— Sua caridade será lembrada — disse ele. — Graças sejam dadas a Tal por sua humanidade."
Tal. Um antigo deus de Yotia, algo relacionado ao sol. Kayla reconheceu o nome, mas não se lembrava de nenhum grande culto ou monumento à dividade; o fim do mundo sacudira todos os tipos de coisas estranhas de seus cantos escondidos."
"— Sua busca é por todos nós — disse Kayla. Educada, neutra. — Penregon fica feliz em vê-lo seguir seu caminho."
Raddic sorriu, compreendendo bem sua linguagem diplomática. Estalou a língua para o cavalo, virando-o. Seus guardas fizeram o mesmo. Sem olhar para trás, ele ergueu sua mão encurtada para o céu, um gesto preguiçoso, meio aceno, meio saudação. Um adeus, por enquanto."
Kayla, escoltada por sua própria comitiva, caminhou de volta pelos portões para a segurança de Penregon. As multidões na muralha falavam em um coro de chuva de excitação, curiosidade, bravata e medo. Era o som que se segue a uma decisão antes que seu resultado fosse decidido. Kayla apenas esperava ter tomado a decisão correta e que os dias vindouros não provassem que sua caridade estava errada.
Arte de: Dominik Mayer
A paz durou um dia e terminou em gritos. Kayla não os ouviu a princípio; ela estava ocupada em uma reunião com representantes das guildas de pescadores de Penregon, mediando enquanto os mestres gritavam acusações de corte de redes e invasão de áreas de pesca uns aos outros. Os peixes, ao contrário da caça terrestre e das indústrias agrícolas, não haviam sido brutalizados pelo cataclismo; pobres antes da guerra, após o seu fim, esses pescadores haviam se tornado fantasticamente ricos. Com grande parte do mundo vacilando como uma vela que se apaga, o ouro piscino passou a ser amargamente contestado pelos marinheiros que trabalhavam longas horas para colhê-lo, embora nenhuma briga de estaleiro fosse tão sanguinária quanto essas discussões sobre contratos, direitos de pesca e madeira para a frota. Kayla acabara de levantar as mãos em frustração quando Tawnos entrou nas câmaras do conselho.
"— Ah, graças aos deuses — disse Kayla. Ela falava sem preocupação, pois os mestres das guildas certamente não podiam ouvi-la acima de seus gritos. — Nada tão doce quanto passar da miséria para a irritação. — Kayla levantou-se e correu até seu artífice, sinalizando para que ele saísse das câmaras do conselho. — Eles ficarão bem — disse Kayla, tranquilizando-o quando ele olhou para os mestres em disputa. — Eles vão se resolver em algum momento, ou os guardas intervirão antes. — Kayla pegou Tawnos pelo braço e caminhou com ele pelo corredor, guiando-o com a determinação de um prático de porto navegando em um estreito traiçoeiro. Ela parou ao lado de uma janela estreita com vista para o interior de Penregon, com visão para as Kher envoltas em névoa."
Havia uma rigidez em Tawnos, uma austeridade que transformou o alívio de Kayla em preocupação. Mesmo assim, ela manteve seu tom agradável — as vozes ecoavam nos corredores de pedra. "— Agora, diga-me — disse Kayla. — O que é importante o suficiente para tê-lo tirado de sua fábrica?"
"— Houve um incidente — disse Tawnos. — Um grupo de Talitas no mercado atacou um dos meus civis."
Kayla praguejou. "— Ele...?"
"— Não — disse Tawnos. — Não. Nenhum dos modelos na cidade foi treinado ou equipado para lutar. Ele não reagiu. A guarda da cidade, no entanto... — Tawnos suspirou. Ele olhou pelo corredor para ver se estavam sozinhos. — Dois dos peregrinos estão mortos e uma de nossas guardas foi ferida. Ela sobreviverá. O restante dos peregrinos próximos à área foi preso."
Kayla aproximou-se da janela. Deste ponto de observação, nada parecia diferente. A marcha havia diminuído ou parado nos campos fora de Penregon, e finas fitas cinzentas de fumaça de fogueiras subiam, puxadas pelo vento. Fogueiras e fumaça industrial saíam do topo das chaminés por toda Penregon. Pessoas fervilhavam em seus afazeres. Era uma noite de primavera normal, embora a notícia que Tawnos trouxera colorisse o panorama com um tom sinistro.
"— Alguém da ordem deles testemunhou o ataque?"
"— Havia dezenas de pessoas lá — disse Tawnos. — Eu ficaria mais chocado se os marchantes não soubessem disso."
Kayla praguejou novamente. "— Os Talitas atacaram o civil sem provocação?"
"— Sim — disse Tawnos. — Eles o chamaram de demônio. Conseguiram danificar uma das articulações do joelho, mas nada sério — pode ser reparado em uma tarde, no máximo."
"— Tudo bem — disse Kayla. — Vamos tentar manter isso em segredo. Eu..."
Um grito ecoou pela sede do governo. Uma porta se abriu com estrondo, seguida pelo som de botas correndo pelo andar térreo. Kayla olhou para Tawnos com preocupação e, depois, para o fim do corredor, onde uma esquina escondia as escadas para o andar de baixo. Os dois se prepararam para quem dobraria a esquina.
"— Senhora! Senhora Kayla!"
Kayla expirou. Ela se apoiou um pouco na parede. Era apenas Myrel.
"— Estou aqui — gritou Kayla de volta. Ela estendeu a mão e deu um tapinha no ombro de Tawnos. — Compostura — disse ela, baixinho. Tawnos assentiu, relaxando os punhos."
A Capitã de Patrulha Myrel dobrou o corredor, sem fôlego, seguida por um par de seus patrulheiros. Seus olhos estavam brilhantes e as bochechas coradas — adrenalina, o frio: ação. "— Senhora Kayla, precisamos levá-la para um local seguro — disse Myrel entre arquejos. — Os marchantes estão se organizando contra a cidade."
"— O quê? — disse Kayla. Primeiro o civil, agora os marchantes. Onde estava Jarsyl? Com um de seus tutores, certamente. Ela precisaria mandar buscá-lo, mantê-lo por perto..."
"— Senhora — Myrel interrompeu, chamando a atenção de Kayla. Eles apontaram pela janela, em direção às fogueiras distantes. — Raddic e uma dúzia de homens, todos armados... eles estão se aproximando dos portões, e meus patrulheiros viram seus marchantes armando-se para a batalha."
"— Então eles sabem — disse Kayla. — Precisamos dizer a eles que os civis de Tawnos não são as mesmas máquinas..."
"— Senhora, por favor — disse Myrel. — Devemos ir para um andar superior. Tenho meus patrulheiros barricando a sede..."
"— Mande-os encontrar Jarsyl e trazê-lo aqui — disse Kayla. — Eu não vou me esconder, ainda não."
A preocupação cruzou o rosto de Myrel. Kayla a dispensou com um gesto.
"— Esta é a minha cidade, capitã. Eu não me esconderei quando Penregon for ameaçada."
Myrel assentiu para os dois patrulheiros, que saudaram e partiram correndo para encontrar Jarsyl. Kayla observou-os partir e então voltou-se para a janela.
O sol poente brilhou quente atrás das Kher, mergulhando os campos fora de Penregon em um crepúsculo prematuro que escondia os marchantes vestidos de preto. Enquanto Kayla observava, fogueiras pontilhavam a escuridão, brilhando como estrelas opacas na noite profunda.
Aquela marcha superava os guerreiros de Penregon em número. Quantos eles tinham nas cores da cidade? Meros cem patrulheiros, uma guarda municipal contando com menos de mil homens. Ela poderia ordenar a convocação das milícias da cidade, mas isso colocaria pessoas destreinadas na linha de batalha. A força de Penregon era seu isolamento, mas quando ela não estava isolada, e quando uma força ameaçava a cidade...
Basta. Havia apenas uma opção restante para Kayla. Em sua juventude, ela fugira de Kroog e nunca retornara. Até hoje, seu lar era uma ruína. Kayla não fugiria de Penregon.
"— Tawnos, arme os civis — ordenou Kayla."
Tawnos balançou sobre os calcanhares — um pequeno movimento que traía sua surpresa. "— Não sei se deveríamos fazer isso — disse ele."
Os olhos de Kayla brilharam com o mesmo aço que animara Urza, frios e eficientes. Brilhantes, implacáveis.
"— Eu também vivi o fim do mundo, Tawnos — disse Kayla. — Não estive na linha de frente, mas sei o que estou lhe pedindo para fazer. — Kayla estendeu a mão e a colocou no braço dele, apertando-o. Em sua juventude, um gesto como aquele teria enviado faíscas através dele. Agora, era apenas pressão. — Eu não sou Urza — disse Kayla. — Estou lhe pedindo para fazer isso para proteger Penregon e seu povo. Nada mais."
Tawnos colocou a mão dele sobre a dela e apertou.
"— Obrigada — disse Kayla. Ela tirou a mão do braço de Tawnos e virou-se para sua capitã. — Myrel?"
"— Já convoquei os patrulheiros — disse Myrel. — E a guarda da cidade está em alerta desde ontem."
"— Convoque a milícia — disse Kayla. — Esvazie os arsenais. Mande todos que puderem erguer uma lança para as muralhas."
"— Eles não serão de muita ajuda em uma luta."
"— Eu sei — disse Kayla. — Mas precisamos de números. Encontre aqueles com experiência na guerra e peça que liderem os outros. Eles lutarão para defender sua cidade. Vá. — Kayla não se desviou da janela enquanto Myrel corria para cumprir suas ordens; virar-se da janela significava o início de um novo capítulo terrível, um retorno às crueldades do velho mundo. Penregon era um lugar frágil, suas muralhas desnecessárias por anos antes de hoje. Kayla esperava que elas se tornassem nada mais do que uma relíquia depois disso: um lembrete e um aviso do pior do velho mundo."
Kroog caiu pela manhã. A memória veio a Kayla com um pontapé indesejado e amargo. Um amanhecer nebuloso de primavera, o orvalho ainda fresco nos vidros de chumbo das torres magníficas da cidade. As ruas de tijolos vermelhos de Kroog ainda estavam úmidas da chuva da noite e apenas começando a fumegar no calor da manhã. Ela fugira da cidade, grávida de seu filho. Tawnos estivera lá também; ele a vira segura fora da cidade, fugindo com ela enquanto seu povo morria.
Kayla desviou o olhar da janela. "— É desanimador o quão pouco o mundo mudou — disse ela a Tawnos. — Achei que já tivéssemos aprendido nossa lição."
Tawnos levantou os olhos de seu diário. Ele estava anotando os passos necessários para armar os civis — lembretes, ordens, ideias. Ele franziu a testa. "— Com todo o respeito — disse ele — acho que, enquanto houver pessoas, o mundo nunca mudará de verdade."
"— Espero que você esteja errado — disse Kayla. — Em quanto tempo você pode ter os civis prontos para defender Penregon?"
"— Dê-me uma hora para informar meus artífices — disse Tawnos. Sua voz vacilou de uma forma que Kayla nunca ouvira dele. — Os civis são fáceis o suficiente para adaptar; eu poderia ter dezenas prontos até a noite e cem pela manhã. — Ele falava como um homem mastigando carne dura — perseverando no que precisava ser feito."
"— Ótimo — disse Kayla. — E depois disso nós os marchamos para o mar, sim?"
Levou um momento, mas Tawnos percebeu que Kayla estava brincando com ele. Ele sorriu, e Kayla riu. Curta e aguda. Nervosa, mas genuína. Com um aceno de despedida, Tawnos correu para o trabalho.
Arte de: Francisco Miyara
"— Você abriga demônios mecânicos — disse Raddic, latindo para Kayla enquanto ela emergia da grade. Curvado sobre o arção da sela, a boca nunca completamente fechada, o sol se pondo sobre seu ombro, Raddic exibia uma silhueta animalesca. Sua postura lembrava a Kayla a maneira lânguida como alguns felinos predadores se portavam — relaxados e mortais. Sua voz era fria como a lâmina de um punhal e, desta vez, dez cavaleiros em armaduras pretas o flanqueavam."
"— Quando nossos fiéis tentaram expulsar as máquinas, seus guardas os mataram — Raddic quase sibilou entre os dentes. — Você não consegue ouvir o choro de seus filhos? Ou o zumbido das pedras infernais da sua cidade os abafa?"
Pedras infernais? Os postes de luz, pensou Kayla. No inverno passado, Tawnos enviara seus artífices para instalar lascas de pedras de poder estilhaçadas nas tochas públicas, garantindo que mesmo nas tempestades de inverno mais severas, Penregon permanecesse iluminada contra a escuridão. Em cantos silenciosos da cidade, era possível ouvi-las zumbindo. Uma percepção rastejante e arrepiante subiu pelas costas de Kayla.
Kayla nunca vira o estandarte preto de Tal hasteado na cidade, nem ouvira pregadores de rua exaltando as escrituras do deus sol, mas ela não podia estar em todos os lugares. "— Há quanto tempo seu povo está dentro de Penregon? — perguntou Kayla."
"— Tempo suficiente para saber que esta cidade não pode ser salva — disse Raddic. — Muitos dos fiéis chegaram aqui anos atrás, desesperados por abrigo, pensando que você, de todas as pessoas, saberia do perigo da máquina. Eles assistiram com horror como você deu as boas-vindas a um dos próprios seguidores do Lorde Protetor em seu conselho, como seus artífices trabalharam para dar vida a mais máquinas e como treinam os demônios mecânicos de Penregon para obedecer aos seus comandos. Os fiéis enfrentaram as passagens amargas para nos dizer que Penregon permanece impenitente — rosnou Raddic. — Você e seu povo são tolos. Erguem novas muralhas e consomem a terra da mesma maneira que os assassinos Urza e Mishra fizeram. Diga-me, Senhora Kayla: por que você se apega justamente às coisas que mataram o velho mundo?"
"— Nossos civis não são aquelas máquinas — disse Kayla. — As obras de Urza e Mishra morreram quando eles morreram. Estamos construindo..."
"— Novos demônios para um novo mundo — disse Raddic, ignorando o protesto dela. Ele olhou além dela, em direção a Penregon. — Não podemos salvar esta cidade — disse ele."
"— Não precisamos da sua ajuda — disse Kayla. — Oferecemos suprimentos para sua jornada até a Torre, como você pediu, ajuda ao seu povo após a longa viagem, mas agora vocês devem continuar. Penregon não precisa de vocês, nem queremos lutar. Deixem-nos."
"— Expulsem-nos — Raddic a ignorou. He called up to the city walls, looking to the guards and nervous militia there. — Empurrem os demônios mecânicos para o mar — disse ele. — Prostrem-se e implorem o perdão de Tal. Marchem até a Torre Branca e derrubem-na, tijolo por tijolo, ou, ao amanhecer, faremos o mesmo com Penregon."
Myrel começou a sacar sua espada, mas Kayla ergueu a mão. Myrel deslizou a espada de volta para a bainha, encarando Raddic.
"— Povo de Penregon! — berrou Raddic. — Vocês ainda não são nossos inimigos. Vocês que cospem e amaldiçoam os demônios mecânicos, vocês que rejeitam os líderes que não conseguem imaginar um mundo sem máquinas — encontrarão companhia entre nós. — Ele se virou para um de seus companheiros, que lhe passou uma lança. — A era da magia das máquinas está morta — disse Raddic, erguendo a lança acima da cabeça. — Escolham: morram com ela ou vivam conosco!"
Myrel sacou a espada totalmente desta vez, mas Raddic não atacou. Em vez disso, Raddic atirou a lança nos paralelepípedos entre ele e Kayla. Ela deslizou e quicou até parar aos pés dela.
"— Amanhecer — disse Raddic. — Você decide, Senhora Kayla. — Ele girou o cavalo e assobiou para seus cavaleiros. Juntos, esporearam os cavalos, partindo para o acampamento."
"— Devo ordenar que meus arqueiros atirem? — perguntou Myrel."
Um vento frio sacudia a estrada de paralelepípedos que levava a Penregon. Os campos que se estendiam diante da cidade, tão vibrantes no início da primavera, estavam reduzidos a uma ruína lamacenta. O rio escuro da marcha Talita espalhava-se por eles, com suas fogueiras acesas. As Kher erguiam-se além, cinzentas e desoladas.
Era o fim do mundo. O fim da era do artifício e das máquinas; ao amanhecer, uma nova era surgiria em Terisiare.
A fábrica de civis de Tawnos era um clamor de humanos e máquinas, uma cacofonia a todas as horas. Artífices e trabalhadores de todas as patentes e classificações cruzavam o vasto chão da oficina, empurrando carrinhos e conduzindo civis mais velhos carregados com rolamentos recém-usinados, parafusos, placas modulares, revestimentos de lona e prateleiras de novas armas. As formas suspensas de novos civis sendo reequipados para a guerra pendiam de correias transportadoras barulhentas e prateleiras que se moviam lentamente. O ambiente de produção regrado que Tawnos havia projetado, com seu chão de pedra fundida e linhas pintadas destinadas a guiar pessoas e máquinas pelos caminhos mais seguros e eficientes, nunca tinha visto tal comoção frenética e mal ordenada. Ele permanecia acima de tudo, observando de sua cúpula de escritório atrás do vidro enquanto seu sonho de uma paz mecanizada levantava seu véu, revelando sua verdade sangrenta.
Urza e Mishra nunca projetaram nada além de máquinas destinadas a matar. Tawnos não podia falar pela tutela de Mishra, mas Urza tinha sido um mestre pelo exemplo; Tawnos fora astuto em sua juventude, um fabricante de brinquedos de habilidade excepcional e um engenheiro prodígio, mas ele era apenas uma vela perto do brilho solar de Urza. Tudo o que Tawnos sabia, ele devia à instrução de Urza. De fabricante de brinquedos astuto a mestre artífice, a mão firme de Urza moldara Tawnos com a mesma perícia e distanciamento com que Urza moldara a face do mundo.
Tawnos apertou os nós dos dedos até ficarem brancos, como se tentasse espremer a água do corrimão de metal do deque de observação de seu escritório. Seus civis — como ele pudera mentir para si mesmo que aquelas máquinas poderiam ser curvadas a qualquer propósito que não fosse a guerra? Tawnos havia esboçado os planos originais para os civis de Penregon, mas a própria teoria de seu design baseava-se em máquinas que Urza concebera — máquinas destinadas apenas a queimar, destruir e arruinar. Os manipuladores delicados, mas resistentes, dos civis, refinados para segurar ferramentas de construção e carregar recursos colhidos, eram tão facilmente adaptados ao uso de armas porque haviam sido projetados primeiro para os vingadores de Urza. As articulações e pontos de montagem dos civis eram universais não porque precisassem ser capazes de aceitar peças de reposição do estoque de Penregon, mas porque Urza exigia que suas máquinas de guerra fossem capazes de reparos em campo. Tawnos afastou-se de sua observação solitária, o rosto em uma torção grotesca de raiva e dor. A revelação mais terrível o atingiu com uma clareza inabalável: de todos os aspectos das máquinas, nenhum era mais ruinoso do que sua fonte de energia. As pedras de poder dos Thran. Cuidadosamente clivadas e polidas, essas pedras de poder animavam os civis como haviam animado as máquinas de guerra de Urza e Mishra. Em um momento amargo, Tawnos percebeu que o estoque de Penregon secaria nos próximos anos. Sem uma fonte ou método alternativo para alimentar Penregon, o apetite do povo não diminuiria — ele enfureceria. Em sua ansiedade para oferecer ajuda, he apenas preparara o palco novamente: um retorno à condição em que o mundo se encontrava antes do início da Guerra dos Irmãos parecia inevitável.
Sem qualquer outra forma de manter as luzes acesas, com o inverno chegando, a guerra enfureceria novamente. Era apenas uma questão de tempo.
Tawnos afundou ainda mais em sua cadeira, encarando o monte de papéis e textos em sua mesa. A única biblioteca que reunia o conhecimento de um mundo há muito desaparecido. Ele olhou os velhos fólios, plantas enroladas, cadernos e maços encadernados; qualquer coisa que pudesse pegar antes do fim, qualquer uma das obras de seu mestre. Diante deste arquivo de brilhantismo, Tawnos era um adivinho. Um augure, não um engenheiro. Pior, um fabricante de armas. Tawnos cerrou os punhos e um sentimento profundo e angustiante o puxou. Em sua juventude, sua ambição o levara a alturas vertiginosas. Seu ego não o deixaria ficar contente como um fabricante de brinquedos. Agora, com uma dor surda, ele reconhecia que se tudo o que tivesse feito fosse refinar o trabalho de outros, ele poderia ter sido menos culpado pela morte do mundo. Se tivesse passado a vida lendo as entranhas fumegantes de touros abatidos para reis e rainhas ingênuos, ele teria causado menos danos.
Arte de: Matt Stewart
Os olhos de Tawnos caíram sobre o canto de um caderninho familiar para ele, parcialmente enterrado em sua mesa. Não era um de Urza — era o seu próprio caderno. Nele estavam seus designs originais — falcões e cobras mecânicos, complicações intrincadas, mecanismos para o uso eficiente de pedras de poder e designs de uma arma viva que misturava argila e artifício em um assassino. Tawnos puxou aquele livro debaixo da pilha de papel, abriu-o e folheou-o. Estava cheio de diagramas maravilhosos, linhas desenhadas com precisão e figuras bem fundamentadas. Notas, rabiscadas rapidamente em diferentes cores de tinta e grafite desbotado, falavam dos momentos relâmpagos de inspiração, revisão, iteração. Sua caligrafia, mais rápida e confiante em sua juventude, não mostrava nenhum indício de dúvida. Naquela época, ele estava seguro de seu trabalho. Realizado pela elegância das armas que projetava. Justificado por seu propósito: a defesa do reino, a derrota de seus inimigos. O que havia mudado entre então e agora senão o uniforme de seus adversários?
O mundo mudou. Ele havia mudado.
Atrás de Tawnos, o som da criação, abafado pelas grandes vidraças que cercavam seu escritório, era incessante. Trabalhadores amarravam bainhas de lona grossas e tratadas contra o clima sobre as articulações vulneráveis dos civis e soldavam placas de blindagem pesadas sobre componentes críticos. Jovens artífices brilhantes compilavam e revisavam as ordens e comandos que os soldados em campo usariam para direcionar os civis na guerra. Oficiais dos batedores e da guarda da cidade caminhavam em pequenos grupos, aprendendo com os engenheiros as limitações e habilidades operacionais dessas máquinas de guerra adaptadas. Por toda a cidade, postes de iluminação acesos por pedras de poder e aquecedores municipais se apagaram enquanto técnicos arrancavam até mesmo esses pequenos fragmentos de suas montagens para que pudessem ser instalados nos peitos dos civis, nos pomos de suas espadas-corrente energizadas, nos núcleos de lanças incandescentes. Transformando a paz em guerra mais uma vez, tudo sob as ordens de Tawnos.
Ele fechou seu caderno e o colocou sobre a pilha de designs de Urza.
— Enviem todos para o mar — sussurrou Tawnos. Ele pensou em Kayla e esperou que ela permanecesse fiel à sua promessa. Ele pensou em outra mulher, Ashnod, e se perguntou se agora, após o fim do mundo, ainda haveria tempo.
Primeiro, no entanto, ele tomaria sua primeira ação corajosa em muitos anos. Sua primeira ideia original. Tawnos lideraria, finalmente; ele mudaria o mundo para melhor. Ele olhou para as poucas páginas que havia arrancado de seu livro: uma cobra mecânica, um pássaro, um rato. Seus brinquedos. Um método diferente. Ele os guardou no bolso.
No escuro, Tawnos sorriu.
Ninguém no chão da fábrica viu o fogo até que fosse tarde demais. Ele consumiu o escritório de Tawnos. As chamas lamberam o vidro, afogando tudo lá dentro em uma conflagração fedorenta e revolta de papel e tinta em chamas.
O Cerco de Penregon durou um único dia e, ao cair da noite, havia se degenerado em dois combates menores: o primeiro era a disputa esperada, o rescaldo sangrento da tentativa fracassada dos cruzados de Tal de tomar a cidade pelo lado de fora. Enquanto o sol sumia atrás de um horizonte cinzento, os defensores de Penregon saíram da única brecha encharcada de sangue nas muralhas da cidade para derrotar a infantaria talita. Os cruzados não conseguiram explorar sua única abertura; agora os sobreviventes cambaleavam para longe na noite, deixando os mortos para trás e os feridos gemendo e rastejando atrás deles. À distância, entre o grande corpo da marcha agora desabrigado e os vitoriosos defensores de Penregon, cavaleiros sombrios em armaduras pesadas esperavam com armas limpas e olhares escuros voltados para a cidade. Civis rearmados abriam caminho pelos blocos de pedra tombados da brecha, suas armas e núcleos brilhando com o calor residual emitido por suas velhas pedras de poder. Superados em número pelas máquinas e seus equivalentes humanos, a cavalaria talita só podia observar enquanto os defensores de Penregon faziam prisioneiros e recolhiam os mortos.
Arte de: Ryan Pancoast
A segunda batalha foi mais disseminada: as forças de Raddic, em algum momento — provavelmente no ano anterior, mas ninguém podia ter certeza — haviam infiltrado zelotes de sua fé nos distritos residenciais e mercantis de Penregon. Ao longo dos longos, escuros e frios meses de inverno, esses evangelistas pregaram, cultivando cultos secretos de fiéis. Esses seguidores da palavra de Tal amaldiçoavam tanto a máquina quanto o mago. Animados por fervor evangélico, viam demônios na armação de metal polido dos civis de Tawnos, diabos nos poucos estudiosos restantes do Caminho. Embora não houvesse magia em Penregon, o artifício era combustível suficiente para os fiéis. O status de suas vidas, quer tivessem vivido durante a guerra ou nascido em seu rastro, era a lenha perfeita.
A conflagração estourou com a chegada do corpo principal dos cruzados talitas. Com a declaração de Raddic recusada e os portões da cidade fechados, os talitas na cidade partiram para a ação. Nas horas que antecederam o amanhecer da manhã do cerco, enquanto o exército talita se formava nos campos diante de Penregon, explosões e incêndios abalaram a cidade. A fábrica de Tawnos, muitos dos distritos residenciais e vários navios mercantes no porto queimaram. Zelotes vestidos de preto correram para a multidão, atacando a guarda da cidade e os velhos civis que vinham apagar o fogo. Os defensores da cidade demoraram a responder, mas mobilizaram-se em massa, reforçados por reforços vindos da muralha. Os talitas eram movidos pelo fervor, mas o povo de Penregon lutava por suas casas. Beco por beco, rua por rua, os civis e a milícia de Penregon empurraram os talitas de volta aos seus esconderijos. Ao meio-dia, centenas estavam mortos e incêndios assolavam a cidade, combatidos por brigadas de bombeiros voluntários. À noite, o pior dos combates havia terminado, e apenas um punhado dos cultistas mais obstinados permanecia na cidade, barricado e cercado.
Kayla passara o dia brutal em um posto bem defendido com os comandantes da guarda da cidade e da milícia. Jarsyl estava com ela. Deixar seu neto em qualquer outro lugar que não fosse ao seu lado em tamanha perigo era impensável; ela perdera um filho para a guerra e seria amaldiçoada se arriscasse outro de seu sangue às lâminas, mesmo que isso significasse Jarsyl vê-la não como sua avó, mas como sua rainha.
Como líder da cidade, Kayla não era apenas uma testemunha do cálculo frio dos militares. Quando seus comandantes hesitavam em retirar civis rearmados da muralha para lutar contra os cultistas internos, recorriam a Kayla para quebrar o impasse. Quando os batedores imploravam por reforços, recorriam a Kayla para ordenar que os recrutas da milícia de Penregon fossem para a brecha. Quando o amanhecer rompeu e viu as muralhas defendidas com sucesso, sua equipe precisava saber — eles executam os talitas capturados, prendem-nos ou os exilam? As táticas precisas do dia ficavam a cargo de seus comandantes; Kayla estava lá para ser a consciência da cidade, a porta-voz de Penregon, aquela que determinava quem vivia e quem morria.
Na manhã seguinte, Kayla estava de pé com um pano amarrado sobre a boca e o nariz, vistoriando as ruínas enegrecidas pelo fogo da fábrica de Tawnos. O esqueleto carbonizado do grande edifício projetava-se para o céu cinzento, úmido e fumegante, cheirando a óleo e aos produtos químicos fétidos que alimentaram e foram consumidos pelo incêndio. Pilhas de escória e massas de civis parcialmente derretidos, marmorizadas por brasas, ocupavam a planta do edifício.
— O incêndio começou durante o turno da noite — disse Myrel, com a voz abafada pela própria máscara de pano. — O supervisor com quem falei disse que começou no escritório de Tawnos. — Myrel apontou para um emaranhado de metal e escória, de outra forma irreconhecível. — Sinto muito, senhora, mas não o encontramos — aqui, em seus aposentos ou entre os mortos.
Kayla assentiu. Tawnos se fora. — E os trabalhadores?
— Todos os outros conseguiram escapar — disse Myrel. — Alguns que tentaram apagar o fogo sofreram por inalar a fumaça, mas ficarão bem com descanso e ar puro. Perdemos os civis no chão, no entanto — pelo menos uma dúzia.
— Isso não foi um ataque — disse Kayla.
— O incêndio foi repentino — disse Myrel, franzindo a testa. — E todos os velhos planos de Urza, o trabalho de Tawnos da guerra...
— Olhe ao redor, Myrel — Kayla interrompeu sua capitã. — Nada mais queimou. Ninguém mais morreu. Os trabalhadores disseram que o fogo começou no escritório de Tawnos enquanto ele estava lá. Não foi uma explosão, e ninguém percebeu até que a fumaça tivesse inundado os níveis superiores.
Myrel resmungou, concordando.
— Tawnos fez isso — disse Kayla. Ela caminhou para dentro da ruína sem esperar por uma resposta de sua capitã dos batedores. A máscara de pano que ela usava cortava um pouco o fedor, mas o fogo fora poderoso, e o cheiro metálico de queimado ainda fazia seu nariz franzir. Os poucos trabalhadores que vasculhavam as ruínas úmidas interromperam seus labores e apoiaram-se em suas ferramentas, observando Kayla com um interesse indiferente.
Kayla parou diante da pilha que fora o escritório de Tawnos, agora uma massa fumegante de cinzas e metal emaranhados onde desabara após queimar durante a noite. Não restavam papéis ou livros, nada exceto alguns fragmentos de pedras de poder sujos e fracamente brilhantes que ele devia guardar em sua mesa.
— Seu velho egoísta — sussurrou Kayla para as cinzas.
O estalido e o resfriamento do metal queimado. O sibilar da água pingando, caindo em pilhas de cinzas ainda quentes. O raspar de pás na pedra enquanto os trabalhadores voltavam ao trabalho. Essas foram as únicas respostas. Nenhum riso brilhante ou murmúrios solenes, nenhuma tosse educada ou voz forte e firme. Outra conexão com sua vida antiga rompida.
— Você não me deixou nada — disse Kayla. Nenhum diário meio queimado ou fólio de planos maravilhosamente preservado restara do qual pudessem recriar seus civis ou conceber novos autômatos para ajudar Penregon a enfrentar o próximo inverno. Uma temporada de bom tempo e colheita estendia-se diante dela e, a não ser pelas poucas dezenas de civis que restavam, a cidade seria forçada mais uma vez a retornar ao trabalho humano. Kayla sabia, por frequentar o escritório de Tawnos durante o último inverno, que os poucos civis restantes tinham vidas curtas pela frente — suas pedras de poder eram velhas e gastas, colhidas de máquinas de guerra que quase as esgotaram e depois morreram há uma década. Ela considerou o estresse que o combate do dia anterior deve ter causado neles, e um amargor a percorreu.
— Você não nos deixou nada — disse Kayla, levantando-se. Ela olhou ao redor da ruína da oficina de Tawnos. Penregon precisava dele mais do que ela precisava dele. Sim, a conexão que ele fornecia com sua vida antiga fora tão dolorosa quanto uma queimadura em cicatrização, mas familiar. Com aquela ferida separada de sua alma, ela poderia curar; mas uma cidade não era uma pessoa. Cidades nunca curavam, elas viviam ou morriam. Tawnos, ao levar consigo o trabalho de sua vida e o conhecimento coletado do artifício de Urza, pode ter levado Penregon com ele. Não agora, não por anos, provavelmente, mas o inverno não pararia. O gelo rastejava cada vez mais perto; se as estações continuassem a se comprimir, então em algum futuro não muito distante haveria uma era de nada além de inverno. Uma Penregon sem civis e pedras de poder morreria.
Kayla afastou-se da lama de cinzas e partiu. Ela tinha trabalho a fazer. Uma cidade para salvar, se pudesse, do fim que agora parecia nada menos que inevitável.
Um par de civis danificados, mas funcionais, juntou-se aos trabalhadores mais tarde naquele dia. Equipados com pás largas projetadas por Tawnos para limpar a neve das ruas de Penregon, eles agilizaram a limpeza das ruínas. As cinzas foram despejadas no porto de Penregon, juntando-se aos corpos arruinados dos civis destruídos no cerco e àquelas máquinas cujos corações de pedra de poder haviam falhado. A era do artifício morreu na baía escura de Penregon, abaixo de ondas suaves, antes do inverno.
79 AR
O fim de Penregon veio dez anos após o cerco, superando as previsões mais otimistas de Kayla, mas não sua certeza. Os anos intermediários foram pontuados por breves momentos de caos e medo, mas nada como o cerco.
Primeiro veio o primeiro verão sussurrante. Os jardins e pomares de Penregon, tipicamente densos com o zumbido das cigarras — os verdadeiros leões rugidores de Penregon, os argivianos brincariam — mas elas nunca cantaram naquele verão. Embora muitos tenham achado isso um alívio a princípio, o próximo verão silencioso azedou qualquer humor. Os pássaros seguiram os insetos, e o silêncio do verão gerou primaveras silenciosas.
Sinais sinistros se acumularam. Num inverno, apenas alguns anos após o cerco, o porto de Penregon sofreu seu primeiro congelamento sólido. As águas do mar daquela baía protegida congelaram, prendendo as frotas de pesca e comércio da cidade em um gelo denso. No início, as pessoas se desesperaram. Houve tumultos: falta de trabalho, falta de comida. Quando essas demonstrações se acalmaram, as pessoas passaram a construir cabanas e casebres ao lado dos cascos congelados, criando vilas informais e dispersas de pescadores; se não podiam levar seus navios ao mar, eles mesmos iriam ao mar. No início, os mercadores e proprietários de navios contrataram a guarda da cidade para afastar as pessoas, mas conforme ficou claro que o gelo não seria quebrado, eles cederam e deixaram as pessoas pescarem. Para cada inverno que se seguiu, a baía tornou-se uma nova terra para proprietários arrendarem, fornecedores equiparem e trabalhadores trabalharem: as pessoas encontravam peixes, os proprietários transformavam o trabalho das pessoas em ouro — mas não ouro demais — e a vida continuava.
No interior, os batedores de Penregon mantiveram suas expedições. No início, logo após os talitas, eles procuravam por perigos distantes. À medida que os invernos começaram a perdurar, os batedores caçavam terras mais quentes. Kayla defendeu a tarefa dos batedores, e o povo de Penregon olhava para suas aventuras com esperança. Contra as crueldades do inverno, para os proprietários do porto de Penregon, os chefes dos celeiros da primavera e os mestres de navios do verão, os batedores eram heróis.
Arte de: Sam Burley
Aquela esperança foi recompensada. Perto do fim, os batedores retornaram com notícias de terras verdes no distante oeste: além da borda das Montanhas Khers do Sul, a grama ainda crescia espessa e forte. Havia vilas e aldeias lá, construídas pelos descendentes da antiga Yotia, Korlis e Tomakul, e cheias de pessoas que nunca tinham visto neve abaixo dos picos das montanhas. Aquelas pessoas asseguraram aos batedores que, ainda mais longe, através dos oásis e areias do Grande Deserto e a oeste das ruínas de Tomakul, erguiam-se cidades. Além do Grande Deserto havia um mundo que fora isolado do pior do cataclismo. Os batedores tinham certeza disso, e assim Kayla — que se cansara das discussões de mercadores, proprietários, mestres de guildas e soldados — proclamou ao povo de Penregon que sua salvação residia no distante oeste.
Aquela notícia gerou entusiasmo generalizado. Caravanas foram organizadas, suprimentos negociados e trocados, casas desconstruídas e empacotadas em carrinhos e carroças. Partindo aos milhares rumo ao oeste, os colonos refugiados partiram, e ninguém que seguiu aquele caminho jamais retornou a Penregon. A cidade ficou silenciosa. Aqueles que ficaram ou se apegaram ao que conheciam com uma resolução pírrica — certamente os deuses suspenderiam este frio antes que a ruína os encontrasse — ou com uma resignação sombria; ou não podiam ou não queriam deixar a cidade.
O inverno sangrou cada vez mais no verão. Outrora amenos, aqueles meses intermediários tornaram-se gélidos; presságios se acumularam. Embora geralmente temperado, ocasionalmente uma tempestade escureceria Penregon por uma semana de cada vez, enterrando a cidade em montes de neve mais altos que os escuros edifícios de dois andares dos distritos residenciais. Os poucos civis restantes de Penregon aram montes de neve das ruas da cidade, limpando os paralelepípedos para os pedestres solitários que corriam de um prédio aquecido para outro. Quando esses civis morriam, eles simplesmente paravam no meio do trabalho. Equilibrados, tornavam-se pilares de gelo à medida que a neve caía sobre eles, derretia e depois congelava novamente.
O fim de Penregon — a Penregon de Lady Kayla, a última Rainha de Argívia — veio no outono. Batedores retornaram de uma expedição ao extremo norte de Terisiare, onde ouviram rumores de uma ameaça gixiana, um remanescente daquela ordem imunda esquecida em Terisiare após o fim da guerra. Lá, disseram os batedores que retornaram, a terra estava enterrada sob montanhas de gelo andantes, grandes geleiras que se moviam mais devagar que o tempo, mas eram igualmente implacáveis. Tremendo, os batedores contaram histórias das Khers mais ao norte desmoronando, o rugido de sua passagem ecoando por dias seguidos. Em desespero, haviam fugido para a costa nordeste, onde observaram com horror que o próprio oceano havia congelado em uma massa de terra cinzenta e suja. O mar vomitara montanhas de gelo, tombando e congelando novamente, erguendo-se tão altas quanto as próprias Khers; o estalar e o pipocar do oceano congelado soavam como se fossem os próprios ossos dos deuses se partindo. Aquecidos por peixe frito e café fumegante, os batedores disseram a Kayla que o mundo estava acabando. O gelo, embora distante por gerações, não seria detido.
Através de tudo isso, Kayla manteve-se calma. Seu comportamento estoico era necessário para que Penregon permanecesse unida à medida que aquelas mudanças portentosas e implacáveis no mundo se acumulavam. Manter-se como um bastião público contra a resignação sem esperança exigia uma quantidade incrível de trabalho, e não houve caminho que Kayla não explorasse. Ela rezou aos deuses de Yotia, antigos e novos — até mesmo contatando Tal uma vez — mas os argivianos eram o mais próximo de ateus que alguém poderia ser, e ela não sentiu nada além disso, então parou. Ela pensou em emular a proeza e o porte marcial de seu falecido pai, então treinou seu corpo para ter a força de uma guerreira, mas não encontrou paz em correr, cavalgar ou manejar uma espada. Afastando-se do marcial, Kayla mergulhou em textos e erudição, arte e outras disciplinas. Ela dirigiu a construção de uma grande mansão fora de Penregon, uma propriedade que provaria sua dedicação a Argívia como um presente para seus futuros governantes — um exercício, ela percebeu após sua conclusão e sua mudança, de negação. Ela deixou a mansão e voltou para a cidade após apenas um ano.
Para o público e para seus conselheiros, tudo isso falava do ímpeto e determinação de Lady Kayla, a Rainha de Argívia. Em público, ela era um exemplo para todos: uma estoica sem o frio do estoicismo, uma mártir que não morreu, mas ardeu como um farol. Essa persona era uma prisão. Foi apenas em particular, no silêncio da noite, que Kayla estava livre para ter medo. Nessas horas escuras, Kayla deixava seu medo sair para o mundo. Isso provou ser a única válvula de escape pela qual ela podia continuar.
Nos primeiros anos após o cerco de Penregon e a morte de Tawnos, esse medo era bruto e sem foco: uma ansiedade de suor frio que a rouvava do sono. Uma raiva incandescente, gritada em um travesseiro, esperando que ninguém pudesse ouvir. Ela achava que nunca conseguiria se esvaziar da dor, da raiva, do luto. Todas as manhãs acordava com os pulmões em carne viva, a mandíbula latejando e a cabeça latejando. Era como se usasse uma coroa de agulhas pesadas, um espartilho de pregos, e só pudesse ajustar onde suas pontas cavavam. Nenhuma quantidade de oração fervorosa trouxe alívio. Nenhum treino de combate de contato total ou caminhada alpina clareou sua mente. Nenhuma pintura ou poema conseguia capturá-lo. Nenhuma caminhada solitária pelos grandes e vazios salões de sua mansão lhe concedia trégua. Kayla passava o dia assegurando aos outros que sua dor, sua tristeza, seu medo não os venceriam, que Penregon precisava deles, que o mundo precisava deles. Não havia verdade por trás de seu conselho: ela não sentia nada, não conseguia sequer reunir amor por seu neto, e começou a pensar que seu luto poderia matá-la.
Numa noite fria de inverno, muitos anos após o cerco, quase matou.
Sozinha, tremendo de frio, encharcada de suor, Kayla apertou um punhado de seu manto contra o rosto e gritou novamente. Ela não temia ser ouvida. Havia se retirado para sua mansão, caminhando sozinha pela neve para limpar sua mente das pequenas discussões de seu conselho nobre e dos pequenos príncipes endinheirados de Penregon. O mundo estava acabando, e ainda aqueles capangas augustos discutiam sobre arrendamentos e aluguéis devidos. Carrapatos míopes, tolos gananciosos. Kayla os odiava. Por que eles podiam viver quando todos que ela amava haviam morrido? Ela sentia falta de sua Yotia e de sua família e de seu futuro e até das malditas cigarras. Era demais.
Kayla — deixando apenas um bilhete para a Capitã Myrel para que não enviassem batedores para rastreá-la — deixou a cidade para encontrar um refúgio em sua mansão desativada.
Envolta em um velho manto, uma vestimenta carmesim empoeirada resgatada de Kroog, Kayla jazia encolhida no chão da entrada principal da mansão e gritava até ficar com a garganta em carne viva. Fazia um dia que ela havia deixado a cidade, e não tinha avançado mais para dentro da mansão. Ela convocou todos os sentimentos horríveis e não conseguia parar de evocar os adoráveis também — cada lembrança de Urza, de Tawnos, de Harbin, Jarsyl, de sua mãe e seu pai, da Kroog em chamas e da Kroog brilhante, de Raddic e do gelo, gritando até que o som a deixasse e ela só pudesse coaxar, apenas soluçar, e então sentiu algo se romper.
O calor fluiu através dela. O fogo correu a partir de um nó profundo em suas entranhas, chiou através de cada nervo em seu corpo. Ela ofegou, aterrorizada, e conseguiu tirar o manto antes que faíscas irrompessem de suas mãos. O calor de uma fornalha brilhou intensamente no espaço acima de suas palmas, estalando como um fogo de artifício de festival e deixando seus ouvidos zumbindo e seu rosto avermelhado pelo calor.
Magia.
O zumbido desapareceu de seus ouvidos. Ela soube no momento em que aconteceu. Quando menina, ouvira falar de maravilhas como essa. Durante toda a sua vida, ouvira sussurros de algum poder além do artifício. Até Urza falava disso, murmurando maldições sobre algum poder esotérico manipulado em cantos distantes do mundo. Ela descartara isso como fantasia — como todos os outros nos reinos unidos — mas naquela noite toda dúvida a deixou. A magia havia irrompido no mundo quando Urza o matara; no nadir de seu desespero, Kayla canalizara fogo.
Tremendo e chamuscada, sozinha, Kayla olhou para suas palmas. Uma fumaça fina subia do ar acima delas. Elas criaram bolhas. O ar fedia. Ela sorriu. Pela primeira vez em anos, Kayla riu.
Um novo regime privado substituiu suas noites de desespero. Ela voltou para a cidade, retomou seus deveres e despachou seus administradores para procurar nas bibliotecas de Penregon por quaisquer livros ou pergaminhos sobre magia. Para sua surpresa, encontraram muitos. Sobreviventes da Cidade de Terisia — a antiga sede daquela ordem esotérica, o Terceiro Caminho — haviam se estabelecido em Penregon, trazendo consigo uma quantidade modesta de seus escritos. Entre eles estava uma cópia de um texto, uma exploração das técnicas de uma estudiosa do colégio de Lat-Nam e uma das líderes do Terceiro Caminho, Hurkyl, que — se as histórias de guerra fossem críveis — certa vez fez desaparecer os primeiros regimentos do exército de Mishra que atacaram a Cidade de Terisia. Kayla ouvira falar disso durante a guerra, mas supusera ser fantasia, esperança fiada por sobreviventes fustigados daquele longo e sangrento cerco. Após sua própria canalização, no entanto, ela pensava o contrário.
A nova prática noturna de Kayla seguia os preceitos das técnicas meditativas de Hurkyl conforme expostas no livro. Ela leu que seu controle da magia poderia ser melhorado primeiro através de um foco, então recuperou uma pedra de sua amada Kroog dos arquivos de Penregon e aprendeu a despejar tudo nela, canalizando essa energia até que a pedra brilhasse e ficasse quente demais para segurar. Então, aprendeu a obliterar a dor. Ela se queimava frequentemente enquanto praticava, mas isso não a impedia. Em vez disso, envolvia as mãos em gaze limpa e continuava sua prática até que a canalização dessa energia não mais queimasse sua carne ou lhe causasse dor; então, avançou mais, aprendendo como direcionar esse calor, moldá-lo em chama selvagem e luz fria, em reparar suas próprias feridas.
Esses exercícios eram exaustivos, mesmo sendo revigorantes. Tocar a alma conforme Hurkyl descrevia era abrir-se a uma fonte bruta de memória e emoção. Mesmo quando as lágrimas secavam e sua pedra de prática esfriava, algum indício do desespero de Kayla permanecia. Ela não conseguia queimar esse sentimento final. Esse fantasma pairava com ela, mesmo quando sua confiança crescia de uma prática vacilante de novata para a segurança de uma mestra. Ela podia apenas acender uma vela com um toque de seu dedo, unir um corte de papel em seu dedo ou aquecer uma pedra até ficar em brasa na palma da mão, mas era o simples fato de que isso podia acontecer — e que ela podia controlar — que a assegurava de sua maestria.
Kayla percebeu isso: se podia gerir sua magia selvagem e repentina, então podia trazer a si mesma de volta da escuridão. Ambas exigiam o mesmo esforço, e ela era uma estudante diligente.
Kayla esfriava conforme sua pedra de prática o fazia, noite após noite, sessão após sessão. Em vez de enfurecer-se através de seu luto, Kayla imbuía sua pedra com seu fogo, encostava-a em uma vela e controlava sua raiva enquanto a vela queimava até o fim. Ela encontrava aquela dor familiar, refletia sobre ela, aceitava-a e então a deixava de lado. O desespero não a deixara, em vez disso Kayla o escutara e então se despedira dele; o sol nascia todas as manhãs apesar do gelo, e todas as manhãs, pessoas mais assustadas e menos capazes que ela vinham peticioná-la por ajuda, orientação, auxílio e conforto. Todos os dias, ela fazia o que podia para ajudá-los. Todos os dias, a mulher que ela conhecia como Kayla bin-Kroog — não Lady Kayla — não morria. Ela mudava. Ela sobrevivia. Ela ainda tinha medo, mas não estava mais sem esperança; não tinha medo da noite quando sabia que carregava uma chama sempre ardente dentro de si.
Assim, quando os batedores retornaram com notícias de esperança no oeste, Kayla providenciou para que qualquer um de seu povo que quisesse fazer a jornada fosse suprido e protegido, ordenando que Myrel e seus batedores pegassem quaisquer bens que aqueles peregrinos precisassem dos armazéns dos mestres de guildas e senhores dos cereais. Havia pouco que pudessem fazer para resistir à ordem de Lady Kayla, embora alguns tentassem; descobriram que estavam sozinhos com seu ouro e mercenários contra o povo, e os senhores que sobreviveram cederam. Quase todos os batedores deixaram Penregon como vanguardas para a migração, seguidos por quase metade da população da cidade organizada em longos comboios de carroças. Myrel foi com eles; Kayla despediu-se deles, beijando Myrel em ambas as bochechas como uma mãe faria com um filho amado, assegurando-lhes que se veriam novamente algum dia no oeste.
Penregon silenciou após a partida do último dos comboios de carroças, escureceu à medida que os invernos mais longos se estabeleceram. Tempestades castigaram a cidade. Durante uma nevasca especialmente amarga, os cruzados talitas retornaram. Kayla ordenou que os portões fossem abertos e os convidou para as ruas escuras de Penregon. Eles exigiram que ela dissesse onde escondia as máquinas, ao que ela informou aos cruzados que elas haviam partido pelo gelo. Kayla disse-lhes que Penregon não tinha nada a esconder e nenhum demônio além de pessoas famintas; ela ofereceu-lhes abrigo, e os talitas finalmente entraram em Penregon. Curiosa, ela perguntou por Raddic, que não estava em lugar algum entre as fileiras de cruzados endurecidos.
— Morto — disse seu novo líder. Ele era um homem cadavérico e frio, sem nada do charme de Raddic. Kayla o encontrara nas ruas do mercado, comprando destilados e vinhos.
— Depois da Torre de Ferro marchamos para a forja de Mishra — disse ele a ela. — Os demônios lá eram grandes em número e fúria, mas graças a Tal, matamos todos eles. Muitos dos fiéis morreram, Raddic entre eles. — Ele enterrou garrafas de destilados em seus alforjes. — Quem era ele para você?
— Ninguém — disse Kayla. — Um lembrete do velho mundo.
O homem cadavérico e sua comitiva partiram, e a longa coluna de talitas vestidos de escuro — o que restara deles após anos de campanha — seguiu, caminhando pesadamente para o oeste através da neve na imensidão branca.
O último ano terminou. Com cada dia que passava desde o primeiro, as pessoas sangravam da cidade, despojando-a de vida, calor e som. Distritos caíram em desuso e a cidade encolheu.
Kayla foi uma das últimas a deixar Penregon. Era sua cidade, mas ela não morreria em suas ruas frias e vazias. Aquele luto ela despejara em sua pedra de Kroog; ela partiu quando tinha algo pelo qual partir. Seus batedores retornaram com lâminas de grama secas e flores prensadas e prometeram oceanos de verde, um mundo vivo além do deserto, além das Khers cobertas de neve e da ruína do leste. Havia vilas e cidades, seus batedores lhe asseguraram, e havia algo mais: uma história, terna e cruel, de um homem e uma máquina voadora no céu ocidental.
Harbin.
Kayla despejara todo o seu luto. Com ele fugira o luto que pode ser tingido de esperança. Assim, ao ouvir essa história, Kayla não deixou seu coração explodir. Ela não correu de Penregon sozinha para cruzar montanhas e rios para encontrar seu filho. Ela preparou uma caravana final de seu povo e foi para o oeste com eles, deixando apenas os sombrios e ensanguentados proprietários do porto de Penregon para trás, que se recusaram a sair de suas mansões miseráveis, onde permaneceram contando seu ouro até que o gelo os levasse.
Kayla deixou Penregon e sua mansão para trás e marchou pela rota agora bem definida com o resto do êxodo. Subindo pelas Khers uivantes, sua caravana lutou, escolhendo o mais baixo dos desfiladeiros e ainda perdendo um quarto de seu número para o frio, a escuridão e as criaturas desesperadas de lá. Descendo daqueles desfiladeiros amargos, cambalearam, passando pelos corpos congelados como pedra de centenas que pereceram nesta rota anos antes. As altitudes mais baixas trouxeram algum alívio conforme a migração finalmente chegava às margens daquele oeste verde. Aqui, sob a sombra das amargas Khers, Kayla estava mais uma vez na terra de sua juventude. Yotia, seu domínio por direito, a terra que ela outrora governaria como rainha. Ela sempre odiara os títulos marciais e sangrentos de Senhor da Guerra e Senhora da Guerra. Como eram vis e corruptores. Como se poderia governar uma terra em paz quando seu título dado pelos deuses os nomeava mestre da guerra?
Kayla sabia que teria sido uma boa rainha.
O Mardun fluía cheio e mais largo do que ela se lembrava, rico com a água do degelo da primavera. Sua migração seguiu o velho rio por suas novas margens, serpenteando por suas curvas e cruzando nos pequenos vaus e cidades de balsa que encontravam. Ninguém construíra pontes ainda, mas pelos cálculos de Kayla, não estavam longe. A neve e o gelo não ameaçavam as terras a oeste das Khers tanto quanto haviam ameaçado Penregon e o leste; o longo inverno estava chegando, apenas atrasado por aquela muralha continental, e por enquanto ainda havia dinheiro a ser feito na sombra das montanhas. Alguns de sua caravana, fatigados e doloridos, interromperam sua migração nestas cidades florescentes. Havia solo rico para ser arado aqui, ouro para garimpar, velhos metais para recuperar, caça para encurralar e peixes para colher. Pode-se construir uma vida aqui; uma vida no rastro de civilizações, mas era uma vida que se podia viver, em vez de apenas sobreviver.
As colinas e florestas densas logo deram lugar à pradaria seca. Sob céu aberto, os últimos cem refugiados do êxodo de Penregon continuaram para o oeste, passando pelas ruínas cobertas de musgo de velhas máquinas de guerra e redutos abandonados. Sua rota os levou pelas ruínas de pedra desmoronadas de cidades mortas e através de antigos campos de batalha — trincheiras e crateras agora pequenos lagos onde sapos cantavam à noite, os ossos dos mortos há muito decompostos em adubo para lírios e ramos de juncos onde pequenos pássaros esvoaçavam. A rota para o oeste era tanto um cemitério quanto uma estrada; ocasionalmente, passavam pelos esqueletos de madeira podre de carruagens e carroças, os corpos de seus proprietários e animais de tração que outrora as puxavam há muito comidos por carniceiros ou enterrados onde haviam caído.
Eventualmente, chegaram a Nova Yotia, a primeira cidade do oeste. Uma extensão de madeira construída no topo de uma meseta com vista para a vasta varredura de terra para o oeste, Nova Yotia empoleirava-se acima das águas agitadas do velho Mardun. Grandes rodas de pás giravam no rio, movendo moinhos e alimentando todo tipo de indústria ribeirinha. A cidade não tinha muralhas além da elevação natural da meseta e obras de terra voltadas para as montanyas; era cercada por campos cultivados e pequenos coletivos de agricultores. Altas torres de sinalização marchavam em direção à cidade a intervalos regulares, ganhando vida quando seus operadores viam o comboio de carroças se aproximando.
Nova Yotia os acolheu como Penregon outrora acolheu aqueles que chegavam aos seus portões. A maioria do povo de Kayla se estabeleceu lá, achando a cidade um conforto caloroso e familiar. Kayla quase fez o mesmo; ela estava cansada e Nova Yotia a lembrava de sua juventude. Os cheiros, a comida, a música, a língua — até mesmo os edifícios, embora fossem simples construções de madeira — eram inteiramente yotianos. Nova Yotia não era Kroog — o cadáver de Kroog jazia muitas dezenas de milhas à frente — mas era perto.
Kayla permaneceu em Nova Yotia pelo resto do inverno, vivendo em relativo conforto acima de uma pequena loja de chá em um bairro movimentado da cidade. No verão, decidiu que era hora de continuar para o oeste. Nova Yotia era um porto fluvial movimentado para os caçadores, mineradores e agricultores que circulavam pelo lado ocidental das Khers. Alguns vinham de ainda mais longe, e foi através desse fluxo de pessoas que Kayla soube que havia de fato outras cidades mais a oeste: Lat-Nam, Sumifa e outras cidades antigas e novas, intocadas pelo cataclismo que condenara o leste. Além disso, Kayla ouviu mais histórias. Uma de uma máquina elegante, prateada como um espelho e rápida como o lampejo da luz, e do último homem voador que cruzava o azul ocidental. Ele era um herói, diziam as pessoas. Ele voara para dentro do sol para roubar seu ouro, diziam. Ele morrera no cataclismo, diziam, e renascera como o arauto do vento. Harbin, seu filho, lenda do céu ocidental.
Morto ou vivo, fantasma ou espírito, Kayla resolveu cruzar o continente para descobrir a verdade. Coisas estranhas estavam acontecendo em Terisiare — com Tawnos ela vira os mortos retornarem. Dentro de si mesma e de Jarsyl, ela vira magia. O velho mundo estava morrendo, lembrando, tremendo; um novo mundo estava nascendo.
80 AR
Na noite anterior à partida de Kayla para o oeste, seu neto, Jarsyl, veio ao seu modesto apartamento. Comeram um jantar privado de refinada culinária yotiana em seu deque com vista para um mercado movimentado, servidos por um único criado que Kayla dispensou após o último prato ter sido servido. Foi uma refeição leve, e os dois comeram em silêncio, deixando o som da multidão noturna abaixo preencher o espaço até que Kayla não aguentasse mais o desânimo de seu neto.
— Jarsyl — disse Kayla, colocando seus utensílios na mesa. — Você está comendo como um passarinho.
— Sinto muito, vovó — disse Jarsyl. Ele estava curvado tanto quanto seu treinamento em postura permitia. Sua comida, exceto por cortes superficiais, estava intocada.
— Você não olhou nos meus olhos nem uma vez — disse Kayla. — Você está assombrado. É um amor, sua prática ou algo mais?
— Algo mais — disse seu neto. Jarsyl olhou para além do mercado. — Por que você escolheu este lugar? — ele perguntou. — Você é a rainha — poderia ter se instalado no novo palácio.
— Verdade — disse Kayla. — Mas estive afastada do meu povo por tanto tempo. Desejava viver entre eles. — Ela retornou à sua refeição.
— Mas você não tem guardas.
— Sou uma mulher velha — disse Kayla — e estou feliz que minha era de perfumes tenha ficado para trás. Quero cheirar a especiarias, óleo e incenso; não preciso de guardas e não os quero.
— E os talitas? — disse Jarsyl. Ele perscrutou o mercado abaixo e apontou para um par de soldados talitas, regateando com um vendedor de chá. — Dizem que estão caçando magos agora.
— Dizem mesmo. — Kayla assentiu, dando uma mordida em sua comida.
— Você não está preocupada?
Kayla riu. — Certamente não. Toda mulher velha já foi chamada de bruxa por alguém, especialmente aquelas mulheres velhas azaradas o suficiente para liderar nações. Além disso — eles não podem pegar todos nós. — Ela piscou, e um suave zumbido de energia preencheu o apartamento. Como um só, as lâmpadas de óleo que Kayla deixara acesas se apagaram e depois se reacenderam.
Os olhos de Jarsyl se arregalaram. Ele olhou para os talitas no mercado abaixo. Eles não haviam notado. Ninguém notou.
— Os talitas não me preocupam — disse Kayla, sorrindo. Ela acenou para o prato quase cheio de Jarsyl. — Sua falta de apetite me preocupa — isso e sua evasiva. O que o assombra?
Jarsyl cutucou sua comida esfriando.
— Diga logo — disse Kayla, gentil mas firme.
— Não posso ir com você.
Kayla arqueou uma sobrancelha. Jarsyl podia ser um homem, mas neste momento era tão tímido quanto um colegial. Por um batimento cardíaco, seu sangue gelou, mas ela conseguiu se recompor antes que seu rosto transparecesse.
Jarsyl se parecia tanto com o pai. Harbin estivera diante dela, uma vez, no dia em que lhe disse que pretendia se juntar ao corpo de ornitópteros. O nó de medo — não do que poderia ser, mas de como ela responderia — prendeu a voz de Jarsyl em sua garganta da mesma forma que aconteera com Harbin todos aqueles anos atrás.
Ela respirou fundo. Não havia guerra. Jarsyl, the bright boy, was not Harbin.
— Ouvi histórias — começou Jarsyl — de uma escola ao norte, nas margens do Lago Ronom.
— Não há nada em Ronom — disse Kayla. — Os gixianos foram expulsos há uma década pela primeira cruzada talita.
— Certo, sim — disse Jarsyl. — Mas ouvi dizer que há algo mais lá agora — uma escola para pessoas que podem... fazer o que fazemos.
— Uma escola de magia?
Jarsyl assentiu. — Magia e artifício, ambos. Estão ensinando pessoas como nós a serem melhores. Mais fortes.
Kayla considerou isso. Jarsyl era, pelos costumes do velho mundo e pelas exigências do novo, um adulto — embora ela muitas vezes ainda o visse como um menino. Sua vida fora vivida ao lado dela, abandonado pelo pai e crescido no fim do mundo. O fim do mundo dela. O mundo dele, embora perigoso, era jovem como ele e ainda estava crescendo — seriam os rumores que ele perseguia menos críveis do que as histórias que ela seguia?
— Magia e artifício — repetiu Kayla. Ela se perguntou — poderia ser? — Disseram quem dirige esta escola?
— Uma mulher artífice, Nod, e um mago que chamam de Duck — disse Jarsyl. Ele esfregou a nuca, como se tivesse vergonha de dizer os nomes em voz alta. — Acho que ele pode ser do oeste, é um nome engraçado.
Nod e Duck. Velhos amigos e novos. Kayla sempre se perguntara se Tawnos realmente morrera naquele dia. Ela sorriu para Jarsyl. — Vá para o norte. Se existem mestres maiores que eu, procure-os.
Jarsyl iluminou-se, como se um peso tivesse sido tirado de seus ombros. Ainda assim, lágrimas brotaram em seus olhos.
Kayla levantou-se e contornou a mesa até Jarsyl, envolvendo-o em um abraço. — Meu menino — sussurrou ela, apertando-o com força. — Você e eu temos histórias diferentes. a minha pode estar terminando, mas a sua está prestes a começar.
— Tenho medo de ir — disse Jarsyl, com a voz abafada pelo abraço dela.
— Eu também — disse Kayla. Ela beijou a bochecha do neto. — Mas estou animada, também. Vamos escolher deixar a animação nos guiar, sim?
Jarsyl assentiu. Ele se afastou e enxugou o nariz. — Você vai contar a ele sobre mim? — perguntou ele. Não precisava dizer o nome para que Kayla soubesse de quem ele falava.
— Vou — disse Kayla. — Se você contar ao Diretor Duck sobre mim. Agora, quando você parte?
— Há um grupo partindo amanhã de manhã — disse Jarsyl, a curiosidade sobre o desejo de sua avó desaparecendo enquanto ele descarregava seus planos. — Terei que me apressar para os fornecedores, mas já informei ao explorador do meu interesse — eles estão me esperando. — Suas lágrimas haviam secado e ele já começava a falar apressadamente. Quando estava animado, ele positivamente ardia de energia.
Estudar, se de fato houvesse uma escola de magia, faria bem a ele, pensou Kayla. — Você não deve demorar — disse Kayla. Ela fez sinal para que ele fosse. — Apresse-se e junte suas coisas, avise ao explorador que você certamente se juntará a eles pela manhã.
— É difícil dizer adeus, vovó — disse Jarsyl. — Eu não quero.
Kayla assentiu. — Então não digamos adeus — disse ela. Ela o abraçou mais uma vez e o beijou na testa. — Até mais, meu menino.
— Até mais — sussurrou Jarsyl.
Kayla despediu-se do neto. Na manhã seguinte, ela partiu antes do amanhecer.
A maneira mais rápida e segura de ir para o oeste era via Mardun. Aquele grande rio passaria pelas ruínas de Kroog e os deixaria na borda do deserto, onde seguiriam as estradas principais pelas ruínas de Tomakul e além.
Kayla estava curiosa para ver sua antiga casa. Os nova-yotianos disseram-lhe que o Mardun há muito inundara a cidade, tendo sido sacudido de suas margens pela tremenda e cataclísmica detonação que abalou Terisiare. Exceto pelos distritos do sul de Kroog, onde o palácio real e os bairros nobres da cidade outrora estiveram, grande parte da cidade permanecia submersa. A grande e antiga capital era agora um lago ao longo do novo curso do rio, alimentado pelo degelo distante das Khers do sul.
Kayla não se surpreendeu ao ouvir que um senhor da guerra governava Kroog novamente. Este era um bruto que se moldava conforme os poderosos líderes de outrora. Seus bandos de salteadores ameaçavam as estradas e campos ao redor da cidade; era melhor pegar um barco fluvial veloz guardado por arqueiros de Nova Yotia e mercenários talitas. A Igreja de Tal era densa em Nova Yotia, numerosa como as flores silvestres na pradaria. Aqueles penitentes austeros e caçadores de demônios eram um estorvo para as alegrias brilhantes de Nova Yotia, mas sua ordem era grande e provia para a defesa comum da cidade. Kayla entendia que a presença deles era necessária para conter a ameaça dos salteadores de Kroog. Da mesma forma, entendia que sozinha não poderia erradicá-los e expulsá-los desta cidade que poderia ser seu lar — nem mesmo com sua magia. Portanto, não protestou quando um destacamento de soldados vestidos de escuro embarcou em seu barco fluvial. Os talitas usavam uniformes limpos de um azul profundo e escuro, suas armaduras pretas, suas espadas lubrificadas e sem ferrugem. Bem longe da turba desesperada que outrora assaltara Penregon; parecia que sua primeira derrota não detivera sua fé.
Os talitas ocuparam o convés inferior e o porão, enquanto os passageiros e arqueiros de Nova Yotia ocuparam o convés superior. Caso ocorresse luta, o pior dela cairia sobre os talitas; eles não se importavam com esse arranjo, nem Kayla. Abaixo dela, os talitas rezavam, comiam, mantinham suas armas, dormiam e vigiavam. Nenhum deles olhava para ela. Nenhum deles sabia quem ela era, e nenhum deles parecia se importar. Isso também agradava muito a Kayla.
Uma vez em curso, Kayla governava o segundo convés do barco fluvial, ignorando as ordens do capitão para retornar à sua cabine durante as horas da noite. Não mantinha companhia senão a sua própria e resistia a conversas. O contingente nova-yotiano reconheceu o sotaque e o porte do velho mundo de Kayla e não considerou seu distanciamento como um insulto: uma velha excêntrica, presumiram, uma das poucas anciãs que viveram até o fim do mundo. Os nova-yotianos cessaram seus inquéritos e avanços após as primeiras noites no rio. Deixada sozinha, Kayla estava livre para descansar e observar o mundo passar.
As ruínas de Kroog estavam a um dia de distância. Em seu colo, as últimas páginas de um poema no qual ela estivera trabalhando. Um épico, uma história dos homens que mataram o mundo, para que nunca sejam esquecidos — ou perdoados.
Riso brilhante dos nova-yotianos praticando sua arquearia atraiu sua atenção, o estalido e o zumbido de seus arcos enquanto disparavam contra alvos ao longo da margem — árvores, postes de cercas de fazendas há muito abandonadas, restos enferrujados da guerra — transformando seu treinamento em uma competição. No convés abaixo, um dos talitas começou a cantar e logo os outros se juntaram, suas vozes elevando-se juntas em coro.
Outra semana disso não parecia tão ruim. Kayla estava bastante curiosa para ver Tomakul — mesmo que aquela grande cidade fosse apenas ruínas — e estava ansiosa para explorar aquelas terras mais a oeste, das quais ela só ouvira descrições em histórias.
Kayla bateu o pé no convés no ritmo do canto. Ela fechou seu fólio, decidindo fazer uma pausa na escrita pelo dia. O suave movimento de balanço do barco fluvial a acalmava. O sol estava quente em seu rosto. Ela fechou os olhos e sorriu.
Kayla estava livre.
85 AR
A própria Kroog em nada se parecia com a grande cidade que fora um dia. Suas orgulhosas torres de pedra haviam quase todo desmoronado, exceto por um punhado de monólitos ocos que agora eram lar apenas de pássaros nidificantes. Essas sentinelas solitárias do lago permaneciam como as estruturas mais altas em Kroog, mas não eram vistas como parte da nova cidade que se estendia ali; a Kroog após o cataclismo era um amontoado de edifícios e passarelas que se amontoavam uns sobre os outros, construídos acima da água em uma floresta de estacas. Tudo na cidade era dedicado a uma de duas coisas: colher a generosidade do lago ou saquear rio acima e rio abaixo para adicionar moedas, cativos e salvados à riqueza do Senhor da Guerra Fask, o Tirano de Kroog.
Fask era um bruto astuto. Um senhor da guerra em título e porte, ele abrira caminho matando até o topo na década seguinte ao cataclismo. Agora Fask governava um reino mesquinho que se estendia das ruínas de Zegon na costa sudoeste de Terisiare até o limite do deserto verdejante no norte. A leste, sua terra era mal definida, contestada por Nova Yotia e pelos talitas que ainda conseguiam manter seus saqueadores à distância. Dentro de suas fronteiras, todos pagavam tributo a ele, um sistema simples de "Quatro-De-Dez" — quatro de quaisquer bens eram dados ao seu tesouro e cofre pessoal, e o restante distribuído entre seus súditos leais. Ele era, para desgosto do povo que sofria seu reinado, o mais justo dos senhores da guerra que haviam disputado este terreno. Assim, Fask comandou a lealdade de seus guerreiros favoritos e a submissão do resto de seus súditos até sua morte.
O fim de Fask viu seu reino retalhado entre domínios ascendentes e senhores da guerra famintos. Nova Yotia e os talitas conquistaram e anexaram a metade oriental de seu domínio, enquanto os rivais de Fask despedaçaram a metade ocidental. Ninguém sabe se a luta lá algum dia parou; esses registros, se é que algum dia foram mantidos, perderam-se no tempo e no gelo, ou foram enterrados nos arquivos da Igreja de Tal. Perdida também foi a história do fim de Fask, o conto noturno do tirano e do fantasma.
O Senhor da Guerra Fask, o Tirano de Kroog, acordou no ponto mais profundo da noite. Um som em seus aposentos: latas, moedas e medalhões chocalhando juntos.
Fask jogou fora seu lençol fino e agarrou sua espada, nu como estava na cama ao lado dele, e nivelou-a em direção ao som. Seus aposentos eram irreconhecíveis em comparação com suas habituais acomodações espartanas, mas ele ordenara que fossem abarrotados como qualquer armazém ou tesouro. Seus guardas sussurravam sobre a paranoia e a loucura do Senhor da Guerra, mas Fask estava desesperado. Precisava provar o que vira.
Uma teia de fios cruzava a grande sala e neles todo tipo de pequenas coisas brilhantes estavam suspensas: latas, moedas, utensílios de prata e estanho, medalhões, facas, camisas de cota de malha, pontas de flecha — qualquer coisa que criasse uma comoção barulhenta e inequívoca quando perturbada pelo toque de uma pessoa. Esta era a armadilha de Fask, seu sistema para provar que não estava louco, mas perceptivo.
Por meses, Fask fora atormentado por vozes na noite. Passos e sons de conversas, subindo e descendo. Externamente, temia um assassino — esta era a razão para seu sistema de alarme, dizia ele aos seus guardas — mas internamente, temia algo mais, algo mais mortal: o destino.
Fask limpou o suor dos olhos e recordou involuntariamente as palavras da oráculo mais uma vez:
Os mortos não esquecem seu assassino , ela gargalhou através de dentes ensanguentados. Nós nos encontraremos novamente algum dia — cada golpe de sua espada será retribuído mil vezes!
Fask encontrara a oráculo em uma noite escura e chuvosa durante sua conquista das Marchas da Espada, enquanto ele e seus saqueadores destruíam uma aldeia sem nome que se opusera a eles. A perdição com que ela o amaldiçoara o assombrava por uma década; embora se sentasse em um trono que construíra através da guerra, nada desde o cataclismo pesara tanto em sua mente.
Nos minutos de silêncio que se seguiram ao seu despertar, Fask sentiu uma cortina de vergonha descer sobre suas costas resfriadas pelo suor. Ele era um tolo por temer aquela velha bruxa. A espada era uma arma fina e orgulhosa, afiada como uma navalha, e seu quarto vazio. Ele era Fask, o Tirano de Kroog, o Senhor da Guerra da Antiga Yotia! O vento, certamente fora o vento sobre o lago —
O chocalhar veio do pé de sua cama.
— Quem está aí? — gritou Fask, com a espada segurada com ambas as mãos diante de si. O medo o comandava, e ele não conseguia parar de tremer.
— Você vai me dizer quem você é — exigiu Fask. — Quem o enviou, espírito?
Silêncio. Uma pausa longa o suficiente para Fask pensar em círculos. Talvez fosse o vento — um vento forte sim, mas talvez fosse apenas isso. Não, impossível! Teria que ser um vendaval lá fora para mover aquelas linhas — certamente o que as perturbara estava vivo; estavam esticadas na altura do peito, com latas e vidro quebrado espalhados no chão. Era impossível para alguém não fazer som movendo-se nos aposentos de Fask.
Outro chocalhar no pé de sua cama. O breve sibilar de algo, algo furioso, como se uma fera caminhasse em sua direção, presas à mostra e boca salivando.
Fask levantou-se de um salto e pressionou as costas contra a parede, afastando-se o máximo que pôde do som. Não viu nada, apesar do brilho do luar filtrando-se pela estreita janela gradeada de seu quarto. Mudando a empunhadura para segurar a espada com uma mão, alcançou sobre a cama uma lâmpada de óleo com cobertura que mantinha ali. Girou um botão na lâmpada e sua cobertura abriu-se. Um feixe de luz quente atravessou a escuridão, iluminando o pé de sua cama.
Um homem estava lá. Não um homem — uma sombra tênue, uma mancha na escuridão do quarto não quebrada pelo feixe da lâmpada de óleo. Era um espírito, semi-materializado, uma névoa que alternava entre fumaça sem forma e a figura sólida de um homem. Fask conseguia distinguir o cabelo curto na cabeça do espírito, a barba bem aparada. O espírito encarava-o, imóvel.
Fask gritou. O Tirano de Kroog deixou cair a espada e levou as mãos aos olhos. Caiu de joelhos. Esta era a perdição que temia, o fantasma dos mortos, vindo para arrastá-lo para baixo das águas frias de Kroog, o cemitério sobre o qual construíra seu reino.
O espírito flutuou para trás, o movimento resolvendo-se em passos enquanto sua metade inferior coalescia da névoa para a forma física. Ele esbarrou em outro fio de latas e medalhões, que tilintaram suavemente.
Guardas irromperam no quarto, espadas desembainhadas, mas viram apenas seu senhor gritando e arranhando o próprio rosto. Olharam uns para os outros em confusão. Alguns decidiram ajudar Fask e correram para o seu lado. Outros, com olhares sombrios nublando seus rostos rudes, partiram. Já tinham visto o suficiente.
— Kaya — disse Teferi, sussurrando sem ser visto nem ouvido das sombras. — Tire-me daqui.
— Você só está aí há alguns minutos, Teferi — respondeu Kaya, com a voz suave como a brisa ao longe. — O que você fez?!
— Nada! — disse Teferi. — Acho que ele me viu. — Ele observava o homem nu que gritava rolando em sua cama, golpeando os outros homens — seus guardas, parecia — que tentavam acalmá-lo.
— E eu posso estar, ah, coerente — disse Teferi. Ele testou essa teoria estendendo a mão e puxando um dos fios da armadilha. Ele balançou, suavemente, como se uma brisa tivesse deslocado a linha — movimento demais para o seu conforto — ele deveria ser insubstancial, nada mais que um espírito, não estar fisicamente presente de fato. Teferi balançou a cabeça. — A Âncora Temporal não está calibrada corretamente, Kaya, e acho que erramos o alvo por pouco — não fomos longe o suficiente no passado. Tire-me daqui.
Kaya murmurou algo que Teferi não conseguiu distinguir.
— O que foi isso?
— Nada — disse Kaya. — Saheeli tem algumas ideias.
Teferi podia ouvir Kaya revirando os olhos.
— Certo — disse Kaya. — Puxando você de volta.
O espírito de Teferi dissolveu-se em névoa, deixando a noite imperturbada exceto pelos gritos do Tirano de Kroog.
Muitos séculos depois, um homem idoso divertiu seus netos com a história daquela noite. Falou-lhes das discórdias que se seguiram, dos reinos que surgiram e caíram por causa de um fantasma, e da importância dos presságios e da magia.
Nenhum de seus netos achou seu conto algo mais que apenas uma história, mas amavam as caretas e sons que seu avô fazia ao contá-lo, e por isso pediam-no com frequência. Histórias mantinham o espírito elevado durante as noites amargamente frias nas geleiras de Terisiare.
A Era do Gelo estava sobre Dominária e, embora todos esses netos tenham vivido vidas longas e contado várias versões desta história para suas próprias dinastias, nenhum deles sobreviveu ao gelo, e nem a história do tirano e do fantasma.
Episódio 3: Espada Um
21 de outubro de 2022 • Miguel Lopez
28 AR
Kroog morreu em uma manhã carmesim.
Para Sanwell, parecia um dia de festival, exceto que as multidões aplaudiam em um tom menor, e os estrondos e detonações não eram fogos de artifício explodindo, e a fumaça que subia sobre a cidade fedia a indústria em chamas e tijolos fumegantes.
Arte de: Steve Prescott
O pátio principal do ornitoptério estava fervilhando de atividade. Técnicos e artífices corriam de um lado para o outro carregando virotes anti-blindagem, pedras de poder e espadas de vingadores. Pisoteadores e outras unidades autônomas esperavam em fileiras prontas, lotando a praça. Pilhas de munição, peças de reposição e outros materiais erguiam-se em amontoados apressados. Os cinco pilotos estudantes e seu instrutor estavam diante dos suprimentos cobertos por lona, de frente para uma fileira de vingadores velhos e reformados.
O sol da manhã pairava baixo e quente no céu, dissipando o resto da chuva morna como sangue da noite. Sanwell, em posição de sentido, balançou, tonto. Seu estômago revirou, e ele vomitou no tijolo quente entre suas botas.
"Piloto Sanwell, você vai recompor sua constituição", gritou Llora. A instrutora dos cadetes estava com o rosto vermelho e severo, vestida com um uniforme impecável e limpo, apesar da hora precoce e da reunião apressada.
"Desculpe, senhora", disse Sanwell. Ele cuspiu o resto do seu mal-estar na praça de pedra quente e limpou as costas da mão na boca. Ele não tinha nada para tossir além de água e nervos; o ataque viera antes do café da manhã.
"Você está bem, San?", murmurou Rica.
O rosto de Sanwell ardeu de vergonha. Rica permanecia inabalável ao seu lado, tão estoico quanto se tivesse sido esculpido no tijolo vermelho da própria Kroog.
"Bem", disse Sanwell. Ele queria morrer. "Acho que comi algo azedo ontem à noite."
Rica não respondeu. Os sinos de alerta de Kroog ecoaram por toda a cidade. O som revirou o estômago de Sanwell quase tanto quanto o rígido silêncio de Rica.
"Estou preocupado com meu irmão", disse Sanwell. "Rendall está na capital propriamente dita — ele é um aviador, não nasceu para lutar."
"Olhos para frente!", latiu Llora, interrompendo a conversa unilateral de Sanwell com Rica. A velha Suwwardi caminhava diante da curta fila de aprendizes de vingadores, encarando cada um por vez. A mulher era dura como couro novo e áspera como a cal que o curava, fina como um junco e afiada como uma agulha.
Sanwell sentiu-se fraco. Ele estava mergulhando em metáforas, percebeu, para fugir do momento.
"Vocês cinco cadetes", começou Llora, "têm a honra de ser os únicos combatentes de solo na cidade capazes de tripular um vingador mantendo a cabeça sobre os ombros." Llora apontou para o chão sob suas botas. "Vocês estão sendo convocados, rapazes. O treinamento acabou. Hoje é o dia em que vocês salvam Kroog."
Sanwell olhou entre as próprias botas para os tijolos carmesim, dispostos ordenadamente em padrões estelares espirais. Isso levou algum tempo para Sanwell se acostumar — os Yotianos decoravam tudo. Significava que tudo, da culinária à construção, demorava um pouco mais, mas para o jovem Sanwell valia a pena. Em Kroog, como em grande parte de Yotia, até as ruas eram arte. Ao contrário dos blocos estoicos de sua Penregon natal, Sanwell podia caminhar com a cabeça baixa ou os olhos erguidos e, de qualquer forma, encontraria um pouco de majestade. Era como uma cidade deveria ser, Sanwell passou a pensar: cheia de pequenas maravilhas, delícias claramente escondidas, tudo vigiado por triunfos poderosos.
Ele estava pronto para lutar para defendê-la?
Não era uma pergunta teórica. Llora acabara de se inclinar, cara a cara, para lhe perguntar.
Sanwell piscou e vacilou.
"Eu disse", rosnou Llora, "você está pronto para lutar por Kroog?"
"Uh, sim, estou", disse Sanwell.
"Sim, senhora ", Llora corrigiu Sanwell. "Você está na linha de frente agora, Sanwell. Sem mais treinamento, sem mais prática. Está pronto para lutar?"
"Sim, senhora", disse Sanwell, mais alto.
Llora assentiu. "Mostre-me", disse ela. Ela pressionou um dispositivo fino na mão de Sanwell e recuou. Os outros quatro estudantes — pilotos , Sanwell corrigiu. Mentalidade. Mude sua mente, mude a realidade. Você é um piloto agora — os outros quatro pilotos caminharam até Llora, assumindo posições relaxadas, mas atentas, atrás da instrutora.
Sanwell pegou o dispositivo portátil — um bastão de comando, mas um modelo novo — e o verificou. Tinha o comprimento do seu antebraço, gravado em uma extremidade para aderência, afinando-se levemente na extremidade lisa oposta. Um pequeno interruptor tátil repousava sob seu polegar quando ele segurava o bastão. Sanwell acionou o bastão, e um zumbido suave aqueceu a ferramenta. Um botão de alternância e um gatilho repousavam sob seus dedos indicador e anelar; mais controles. Sanwell acionou a alternância e ouviu a leve mudança no tom do bastão. Ele apontou o bastão para sua mão, puxou o gatilho e viu o breve flash de luz em sua palma.
"Checagem feita", disse Sanwell. Ele ergueu o bastão de comando. Parou. "Uh, senhora", disse ele para Llora. "Com qual unidade estou emparelhado?"
Llora apontou com o queixo. "Aquela ali", disse ela.
Sanwell virou-se. Seu queixo caiu.
Um novo e brilhante vingador, um dos protótipos de padrão espada, ainda encolhido em seu trenó de transporte. Sanwell só tinha visto os planos para eles, passados no refeitório durante as refeições. Eram maiores, mais leves, mais rápidos, mais poderosos — imatáveis, gabavam-se os artífices. O melhor que já fizeram até hoje.
Atrás deste vingador esperavam mais quatro. Técnicos e artífices apressavam-se para limpar os detritos de embalagem — palha, bainhas de lona, protetores de couro e óleos protetores — das máquinas à espera, preparando-as para ativação.
Sanwell sorriu, os nervos momentaneamente suprimidos pela empolgação.
"Você achará esses padrões espada muito mais intuitivos do que as unidades com as quais tem treinado — mesmo para protótipos", disse Llora. Sanwell achou que podia ouvir o orgulho na voz de sua instrutora.
"Qual é o nome dele?", perguntou Sanwell a Llora.
"Espada Um", disse Llora.
Sanwell ergueu seu bastão de comando e clicou no botão de transmissão. O tom do bastão subiu.
"Espada Um, em atenção!"
Espada Um se desdobrou, levantando-se de seu trenó. A máquina era humanoide, com cerca de quatro metros e meio de altura nos ombros. O protótipo de vingador parecia para Sanwell como um cavaleiro ágil animado por fogo mágico: uma couraça polida como espelho cobria seu núcleo de poder central, aberturas de exaustão tremulando, ventilando o excesso de calor de sua usina torácica. O rugido de seu núcleo de poder enviou um arrepio por Sanwell. Isso era poder , e aguardava seu comando.
"Espada Um", Sanwell falou firme e claro, como fora treinado. Os próprios bastões de comando eram pequenas maravilhas, capazes de distinguir a voz de seu operador através do caos da batalha ou de uma multidão. "À postos!"
O vingador moveu-se em um giro fluido e silencioso para uma postura de prontidão baixa, posicionando um manipulador no punho de sua lâmina primária, o outro estendido para equilíbrio. Sanwell balançou para trás, o cabelo bagunçado pelo deslocamento de ar causado pela velocidade da manobra do Espada Um.
"Espada Um, sacar e guardar!"
Espada Um sacou sua lâmina primária, chicoteando-a para uma guarda média, um manipulador na haste da lâmina para guiá-la e estabilizar contra ataques iminentes. A lâmina era maior que uma pessoa, com dois metros e meio de comprimento e trinta centímetros de largura na base. Como sua couraça, era polida até atingir um brilho de espelho e captava o sol, reluzindo conforme se movia.
Sanwell não conseguiu conter sua empolgação. Com um desses, eles poderiam virar a maré. Com cinco ? Ele ergueu o bastão uma última vez.
"Espada Um", comandou Sanwell. "A mim!"
O vingador avançou em direção a Sanwell, parando em um agachamento defensivo acima dele, espada em punho.
"Bom trabalho, Sanwell." Um orador diferente.
Sanwell virou-se e viu Tawnos, o principal aprendiz de Urza, parado com Llora e os outros pilotos.
"Senhor", Sanwell saudou. Ele acionou duas vezes o bastão de comando e, como nos esmagadores mais velhos, Espada Um abandonou sua postura defensiva, ficando em repouso.
"Vejo que já está familiarizado com nosso novo modelo", disse Tawnos. Ele falava com um sorriso, embora Sanwell percebesse a expressão forçada no rosto do aprendiz principal.
"É um sonho, Chefe", disse Sanwell. "A fidelidade do movimento parece de um para um — como Urza conseguiu?"
"Depois, filho", disse Tawnos. Ele estava sem fôlego, como se tivesse acabado de parar de correr.
Sanwell percebeu que esse era provavelmente o caso: o motivo para esta promoção não era alegre. Kroog estava sob ataque. Ele caminhou até o grupo de estudantes e se alinhou com eles.
"Vocês cinco são o melhor do nosso corpo de estudantes", disse Tawnos, dirigindo-se a Sanwell, Rica e os outros. "Llora me disse que cada um de vocês possui as habilidades, o temperamento e a inteligência necessários para comandar nossos vingadores padrão espada e, por isso, é com grande orgulho que eu aqui, oficialmente, os promovo a pilotos plenos."
Os cadetes olharam uns para os outros com empolgação por terem suas promoções confirmadas — e pelo próprio assistente de Urza, nada menos!
"Não podemos realizar a cerimônia habitual agora, nem podemos nos preocupar com a colocação de unidades", disse Tawnos. Ele se curvou levemente enquanto falava, apologético, com uma formalidade rígida em sua apresentação. Ele realmente falava sério, pensou Sanwell, ele realmente sentia muito por não poder haver nenhuma cerimônia naquele dia. O coração de Sanwell se encheu — Urza podia ser o brilhante, mas Tawnos era quase tão inteligente quanto, e ele se importava. Isso fazia toda a diferença.
"Kroog está sob ataque", disse Tawnos. "As primeiras ondas das forças de Mishra cruzaram o Mardun; eles controlam os Distritos do Rio. A ponta de lança do ataque deles é um destacamento de engenhos dragão — grandes autômatos capazes de cuspir fogo. Acreditamos que não sejam pilotados."
Os estudantes — pilotos, lembrou Sanwell a si mesmo, de verdade desta vez — trocaram olhares preocupados. Rica, Sanwell sabia, era Yotiano, assim como Carlo, que era dos Distritos do Rio de Kroog. Sanwell olhou para Carlo e viu que ele empalidecera, uma expressão exangue de medo e preocupação caindo sobre ele. Sanwell colocou a mão em suas costas, esperando acalmá-lo.
"Obrigado", disse Carlo, baixinho.
"A guarda da cidade e a guarnição de Kroog traçaram uma linha defensiva ao redor do distrito da capital", continuou Tawnos. "As evacuações dos outros distritos estão em andamento."
"Isso significa que desistimos da cidade?", disse Carlo, com a voz vacilante. "E quanto aos Distritos do Rio?"
"Significa que estamos defendendo o que podemos segurar", disse Tawnos, ignorando a segunda pergunta de Carlo. "Mas ficar parado em um lugar não vai nos dar a vitória hoje, que é onde vocês e seus novos vingadores entram: vamos montar um contra-ataque para ganhar mais tempo para as evacuações." Tawnos fez um sinal para Llora, que ergueu uma caixa longa para o meio do grupo. Ela abriu a caixa, revelando quatro bastões de comando embalados em palha.
"Cada um de vocês pegue um e emparelhe-se", disse Llora. "Sanwell, você fica com o Espada Um." Ela passou a Sanwell um coldre vazio.
"Precisamos que você e seus vingadores derrubem os engenhos dragão", disse Tawnos. "Assim que os engenhos caírem, teremos uma chance de repelir as forças de Mishra."
Sanwell ouviu as instruções de Tawnos enquanto colocava o coldre. O bastão de comando encaixava-se perfeitamente na bainha de couro. Aquele momento tornou este momento real, percebeu Sanwell. Ele olhou para os outros cadetes — pilotos — e os observou se emparelharem com seus vingadores. Rica pegou o Dois, Carlo emparelhou-se com o Três. Os outros eram cadetes de um ano diferente, o logo após o de Sanwell, e desconhecidos para ele. Eles se emparelharam com o Quatro e o Cinco.
"Bom", disse Tawnos quando todos os pilotos estavam emparelhados. "Eu tenho que ir, mas dei instruções aqui para Llora para o seu destacamento." Ele olhou para os cinco pilotos, hesitando. "Teremos soldados para escoltá-los, então não se preocupem em ficar expostos ao combate", disse Tawnos. Sua voz estava rouca, como se estivesse gritando, embora tudo o que fizesse fosse falar. "Com esses vingadores, o alcance visual bastará — qualquer coisa que vocês disserem no bastão de comando, eles serão capazes de captar. Não cheguem muito perto, mirem com o bastão e lembrem-se de ficar atrás de seus escoltas. Boa sorte, cadetes —" disse Tawnos. "Pilotos", ele corrigiu. "Boa sorte, pilotos. Fiquem seguros e, se estiverem em perigo — não pensem, apenas corram. Hench, a leste, é onde me disseram que o exército se reunirá."
O rosto de Tawnos era uma máscara pálida, acinzentando-se como se estivesse ferido. Sanwell procurou o otimismo que costumava animar Tawnos, mas não o encontrou. Uma pontada de preocupação amargou suas entranhas: Tawnos estava com medo. O calmo e firme Tawnos, aquele que ia ao refeitório e ria com os cadetes, estava com medo. Ele nem conseguia olhar para eles. A preocupação coalhou em medo, um medinho que o corroía. Quão ruim estava lá fora, realmente? Um súbito estalo de adrenalina, e Sanwell estremeceu, movendo-se para levantar a mão como se ainda estivesse na aula.
"Mestre Tawnos, senhor?", perguntou Sanwell. "Meu irmão mais novo, Rendall — ele é um cadete no corpo de ornitópteros, estacionado no palácio."
"Rendall", disse Tawnos, franzindo a testa. "Eu talvez o conheça, mas não se preocupe — todos os nossos ornitópteros estão destacados com as forças de Urza em outros lugares ou prestes a partir", disse Tawnos. "Se ele está no corpo de ornitópteros, sairá daqui em breve."
Sanwell exalou um longo suspiro que não percebera estar prendendo. Ele não teve tempo de agradecer a Tawnos, no entanto, pois uma súbita e tremenda explosão rugiu no lado distante da cidade ao longo do Mardun, onde o combate era mais intenso.
A comoção no pátio do ornitoptério parou enquanto todos se viravam para olhar, até mesmo Tawnos e Llora, para a calamidade distante.
Fumaça carmesim revolta saltou para o céu. Um quarteirão inteiro da cidade ondulou com fogo. Sanwell podia ver uma forma mais escura movendo-se no centro daquele incêndio crescente, uma conflagração tão grande que as chamas engoliam o topo das torres de sino que permaneciam de pé. Elas desmoronaram enquanto a forma escura se movia e outro rugido fendeu o céu, uma golfada de fumaça e fogo atravessando os quarteirões ao longo do Mardun.
Um engenho dragão.
Tawnos praguejou. Ele pressionou um pequeno pergaminho de ordens nas mãos de Llora, com instruções para entregá-lo ao capitão em seu posto. Ele deixou o pátio com uma rápida saudação aos pilotos, apressando-se a ponto de quase correr.
"Certo", disse Llora, observando-o partir. "Vamos nos mexer — passo dobrado, vingadores online e vigilantes." Sanwell notou que Llora havia colocado uma espada na cintura em algum momento durante as instruções de Tawnos.
Como uma unidade, os cinco pilotos e seus vingadores saíram do pátio. Sanwell olhou para trás por cima do ombro enquanto partiam; atrás, equipes apressavam-se para adaptar os trenós de transporte para carregar quaisquer bens, materiais, chassis e suprimentos que pudessem levar. Eles estavam se preparando para evacuar o ornitoptério.
Um grito de Llora. Sanwell estava ficando para trás.
"Comigo, Um", disse Sanwell ao seu vingador. Juntos, os dois apressaram-se para alcançar o resto dos pilotos enquanto desciam para a cidade.
Arte de: Josu Hernaiz
Kroog estava queimando, e as pessoas sufocavam suas ruas, fugindo do fogo. Sanwell não conseguia parar de pensar nos dias de festival, onde desfiles rivais para os muitos deuses de Yotia congestionavam as amplas avenidas de tijolos e multidões entusiasmadas se aglomeravam nas ruas laterais. O toque dos sinos do festival estrondava e clamava pela cidade, um som agudo e brilhante de alegria caótica que impulsionava e se entrelaçava com a música que enchia o ar. Sanwell ficara sobrecarregado durante sua primeira temporada de festivais em Kroog; em seu segundo ano na cidade, ele se apaixonou por ela. Longe das cerimônias pesadas em Argive, os festivais em Kroog e por toda Yotia eram exuberantes, vivos. Nunca em sua jovem vida Sanwell vivera em um lugar onde os deuses estivessem tão próximos — e nunca imaginara se tornar alguém que amava essa proximidade.
Mas hoje, nas ruas de tijolos vermelhos sujas de sangue, os deuses pareciam bastante distantes. Este dia era um espelho sombrio daqueles dias de celebração, e cada quarteirão que os pilotos avançavam mergulhava-os mais fundo naquele espelho horrível; os sinos que dobravam hoje eram os mesmos sinos que tocavam nos dias de celebração, só que agora eles gritavam.
"Escutem", comandou Llora a Sanwell e ao resto dos pilotos. "Fiquem perto de mim e ordenem que seus vingadores façam o mesmo — eles evitarão os civis melhor se vocês os deixarem navegar pela multidão por conta própria. Concentrem-se em ficar perto de mim."
Llora e os pilotos apressaram-se pelas ruas da cidade, abrindo caminho através das multidões em fuga enquanto se dirigiam ao distrito norte. Sanwell labutava sob o peso de seu kit de piloto, vestido às pressas naquela manhã. Nem dois quarteirões dentro da cidade propriamente dita e seu macacão estava encharcado de suor sob a couraça leve. As bolsas que ele carregava — pedras de poder sobressalentes para o Espada Um, um conjunto de ferramentas, peças de reposição pequenas e delicadas — juntas pareciam o peso de uma bigorna sobre seus ombros. Os poucos gritos de incentivo que Sanwell registrou em meio ao pandemônio geral não fizeram nada para animá-lo; pelo contrário, pareciam gritos finos e sem esperança. Havia um segundo tom, mais baixo, borbulhando através das multidões que se empurravam e corriam, um medo mais terrível sob seu pânico imediato. Aquilo não era apenas um ataque: era o início de uma guerra, e eles estavam perdendo. Kroog poderia morrer, e com ela, toda Yotia.
Quanto mais se aproximavam dos distritos do norte, mais ralas eram as multidões e mais alto era o som do combate. Menos sinos dobravam aqui, mas ainda eram audíveis, ecoando dos outros distritos que ainda se apressavam para evacuar. Quanto mais perto os pilotos chegavam do distrito norte, mais corpos encontravam também. A princípio, eram as formas caídas de pessoas que haviam sido pisoteadas na correria inicial para fugir; no momento em que os pilotos chegaram ao seu ponto de encontro, começaram a encontrar os mortos ensanguentados e queimados — soldados e civis.
"Parem aqui, pilotos!", gritou Llora, ordenando que parassem. Os cinco pilotos e seus vingadores pararam em uma praça de mercado abandonada. Bancas e estandes capotados espalhavam rajadas brilhantes de especiarias, frutas e vegetais pelo chão. Um pequeno incêndio lambia as ruínas carbonizadas de uma vitrine onde o carrinho de um vendedor de comida havia tombado, derramando brasas quentes no interior seco da loja. As pessoas haviam fugido no meio de suas rotinas matinais, deixando tudo para trás.
Na extremidade oposta da praça havia uma barricada apressada, mas substancial, defendida por pelo menos duas dúzias de soldados Yotianos, sujos de fuligem e ensanguentados após retomarem a praça. A barricada não deteria um engenho dragão, mas impediria quaisquer soldados humanos de atacar. O esquadrão Yotiano olhou para os vingadores com esperança, e para seus pilotos com preocupação. Sanwell tentou não olhar para a pilha de Yotianos mortos, civis e soldados, que jazia em um amontoado ao lado da pequena fonte no centro da praça. Destritos esvoaçavam no vento quente agitado pelos incêndios violentos. Um punhado de soldados Fallaji mortos estava espalhado sem cerimônia na extremidade oposta da praça, com hastes de flechas projetando-se de seus corpos.
Llora conversou com o oficial de mais alta patente ali — um tenente, por suas divisas; o capitão que Tawnos designara para os pilotos fora morto. Sanwell calculou que o tenente tinha apenas um ano ou mais que ele, embora fosse difícil dizer sob sua pesada armadura.
Sanwell ouviu o tenente dizer que aquele fora um posto médico de segunda linha antes de uma luta amarga disputar a pequena praça. Os Yotianos agora planejavam usar a praça como ponto de partida para o contra-ataque: pilhas de bombas incendiárias, flechas e dardos estavam perto da barricada. Ocasionalmente, um mensageiro chegava correndo à praça, negociava com o oficial de suprimentos e depois corria de volta com um feixe de bombas incendiárias jogado sobre o ombro ou um curandeiro a tiracolo.
"Piloto Sanwell", chamou Llora, acenando para ele. "Sanwell, este é o Tenente Markos —" a introdução de Llora foi abafada por um rugido alto o suficiente para fazer todos na praça mergulharem em busca de cobertura. Uma longa e zumbinte série de explosões seguiu-se momentos depois, com os estrondos ecoando sobre a cidade.
Arte de: Fariba Khamseh
Os sinos próximos silenciaram. Sanwell e o resto dos pilotos, inclusive Llora, permaneceram deitados, com seus vingadores vigiando sobre eles. Alguns dos soldados se levantaram, recolhendo suas lanças e ajustando seus cintos de espada, espiando sobre a barricada, rastejando de volta aos seus postos.
O tijolo estava seco e quente. Sanwell apertou o bastão de comando contra o peito. As batidas de seu coração contra o chão combinavam com o estrondo do engenho dragão próximo em movimento.
Os sinos começaram a tocar novamente e Llora levantou-se, gritando para os pilotos se levantarem. O Tenente Markos urrou para o resto de seus soldados irem para as paredes. Sanwell levantou-se sobre pernas trêmulas, ajudado por Rica e Carlo. Os dois pilotos mais jovens ficaram perto de Llora e já haviam enviado seus vingadores para a barricada.
Explosões grandes e estrondosas atravessaram a praça, enviando estilhaços de metal sibilantes e saltitantes para o ar. Sanwell estremeceu quando uma lasca de tijolo da praça saltou e cortou sua bochecha, lançada contra ele por algo ricocheteando no chão enquanto passava zunindo.
Estilhaços — os Fallaji estavam atacando!
Sanwell, paralisado no lugar, observou enquanto os soldados Yotianos lançavam bombas incendiárias sobre a barricada em direção aos Fallaji que avançavam, invisíveis. Fumaça e flashes brilhantes seguiram-se, explosões trovejando e ecoando nas vitrines das lojas, chovendo vidro e nuvens de poeira na rua oposta à barricada. Gritos misturavam-se com o clamor crescente dos Fallaji que avançavam enquanto retribuíam o fogo, lançando virotes pesados de besta e flechas sibilantes contra os Yotianos. Sanwell abaixou-se bem a tempo atrás do braço estendido do Espada Um, encolhendo-se a cada zunido metálico que ressoava na armadura do vingador.
Acima de tudo surgia o engenho dragão. O engenho de Mishra. Sanwell viu através da fumaça o rosto deformado pelo calor da máquina titânica, reptiliana, uma besta de artifício e guerra erguendo-se bem acima do topo dos edifícios do distrito norte. Ele rugiu, faminto, cruel, vivo , e avançou em direção a eles, envolto mais uma vez pela fumaça espessa.
"Sanwell!", gritou Llora para ser ouvida acima da cacofonia do combate. "Leve Rica e Carlo por aquela rua lateral", ordenou ela, apontando com sua espada para um beco estreito. "Encontre uma maneira de flanquear o engenho e derrube-o, piloto!"
"Sim, senhora!", Sanwell saudou. Ele começou a pedir mais orientações, mas Llora já havia corrido em direção à parede, com uma bandoleira de bombas incendiárias jogada sobre o ombro.
"Peguem seus Espadas", disse Sanwell a Rica e Carlo. "Vamos matar um dragão."
Sanwell liderou a investida pela rua lateral seguindo o Espada Um. Rica e Carlo seguiram atrás, com os Espadas Dois e Três logo atrás. O som da batalha na barricada da praça certamente deu alguma cobertura aos seus movimentos. Eles moveram-se rápido, não silenciosamente.
Eles chegaram à metade do beco antes que o engenho dragão disparasse uma rajada contra a praça atrás deles.
Um rugido como o céu se abrindo, um crescendo ondulante de explosões. A névoa carmesim fervente varreu a praça, explodindo a barricada Yotiana e incinerando seus defensores.
Sanwell, Rica e Carlo viraram-se, olhando com horror enquanto a rajada carmesim varria sua visão estreita da praça. Llora e os outros pilotos, o Tenente Markos e seus soldados — desaparecidos em um sopro.
Arte de: David Auden Nash
A fumaça perdurou, sem se mover apesar do vento fedorento e uivante como uma fornalha. O próprio ar sibilava, contorcia-se de dor, estalava com raios torturados pelo calor.
Um corpo saiu cambaleando da praça em chamas para o beco. Nenhum dos pilotos conseguia dizer quem era. O pobre soldado bateu na parede do beco, tropeçando como um bêbado, e desabou, desintegrando-se em cinzas onde atingiu o chão. Todos os pensamentos de vingança e glória abandonaram Sanwell naquele momento; a preocupação parou de corroer e começou a consumir.
A praça ecoava com o som de botas avançando: soldados emergiam da fumaça fervente, elmos fechados contra o ar ardente, suas lanças anti-meca erguidas em direção aos Espadas Quatro e Cinco. Seus pilotos haviam partido, explodidos e deformados pelo calor do sopro ardente do engenho dragão, mas as máquinas, no entanto, mantiveram sua posição, com as espadas reluzindo. Um punhado de soldados morreu, mas os vingadores foram derrubados sob aplausos. Eles haviam retardado o engenho de Mishra por um momento, e o avanço maior de suas forças em nada.
Um momento. Sanwell lembrou-se dos anos de treinamento; aquilo comprou para aqueles outros pilotos, cujos nomes ele nunca soube, um momento.
Carlo começou a gritar e nem Sanwell nem Rica conseguiram acalmá-lo. Não havia como saber se os Fallaji podiam ouvi-los, mas não podiam correr o risco. Rica rasgou uma bandagem de linho de seu kit médico e a amarrou na boca de Carlo enquanto Sanwell o segurava firme. Os dois arrastaram Carlo para longe, para a escuridão do beco, rezando para que o engenho dragão não os seguisse.
Seus vingadores espada os seguiram, com cinzas amontoadas em seus ombros blindados.
Sanwell e Rica, com um Carlo alternadamente mudo e gritando a tiracolo, seguiram seus vingadores pelo beco até outra praça pequena e sem nome. Esta era um cruzamento cercado por edifícios de dois e três andares em todos os lados. O beco deles continuava do outro lado da praça; a estrada transversal era uma via de carruagens adequada, larga o suficiente para três carroças lado a lado. Em algum momento da manhã, fora fortificada por uma barricada na saída norte da praça, bloqueando o acesso ao resto da cidade contra qualquer um que se aproximasse do Mardun. Agora a barricada jazia em ruínas. Mortos Yotianos e Fallaji estavam espalhados pelos destroços fumegantes, moscas já fazendo banquetes deles. Um cão vadio fugiu quando os vingadores e seus pilotos entraram correndo na praça.
Sanwell e Rica ordenaram que seus vingadores vigiassem o lado do cruzamento voltado para o Mardun, e então cambalearam até a extremidade da praça oposta à barricada, arrastando Carlo com eles. O vingador dele parou imóvel na entrada do beco, aguardando ordens. Os três sentaram-se em uma carroça capotada e recuperaram o fôlego. O engenho dragão não os havia seguido. Por enquanto, naquele canto silencioso da sitiada Kroog, eles estavam seguros.
"O que fazemos?", perguntou Rica.
"Não podemos lutar contra o engenho", disse Sanwell. "Nem mesmo com nossos Espadas — precisaríamos de um exército deles para combater aquilo."
"Então o que fazemos?", Rica perguntou novamente.
Sanwell olhou de volta para o beco de onde haviam acabado de sair, de volta para a praça varrida. Ele olhou para cima, para o céu escurecido pela fumaça. O sol, tão claro lá no ornitoptério, brilhava em um laranja pálido e doentio. Cinzas flutuavam, pretas e cinzentas.
"Nós corremos", disse Sanwell. "Como Tawnos nos disse — se estivermos em perigo, corremos."
Rica fez sua própria vistoria dos arredores. "Para onde?"
O engenho dragão bramiu novamente, ensurdecedor, fazendo a visão tremer. Sanwell e Rica taparam os ouvidos com as mãos, com os olhos lacrimejando devido à intensidade do rugido. Ele passou e, como um trovão de uma tempestade em movimento, os dois rapazes tentaram localizar sua origem; parecia que o engenho dragão estava se afastando deles e de seus vingadores, dirigindo-se ao coração da cidade.
"Para longe", disse Sanwell, um pouco alto demais enquanto sua audição voltava lentamente. "Qualquer lugar menos aqui. Tawnos não disse algo sobre uma cidade? Hinge?"
"Hench", corrigiu Rica. "Uma cidade de caravanas, eu acho. Um lugar para os cavalos beberem água."
"Talvez lá", disse Sanwell.
"Teríamos que atravessar a cidade", disse Rica, mordendo o lábio. "O oeste pode ser melhor — poderíamos correr para os portões ocidentais e ir para a costa, encontrar um navio."
Sanwell baixou a cabeça. Pensou em seu irmão, Rendall — estaria ele no ar a esta hora?
"Para onde enviariam os evacuados?", perguntou Sanwell a Rica. "Korlis ou Penregon?"
"Korlis é mais perto", disse Rica. "Mas eles são mercadores e são neutros. Além disso, não têm um exército permanente, apenas mercenários. Meu palpite é Penregon. É mais longe, mas é para lá que Urza e —"
Um súbito barulho e um grito soaram na entrada norte do cruzamento — o lado do Mardun onde seus vingadores montavam guarda.
Sanwell e Rica olharam e viram uma fileira de capacetes de latão Fallaji aproximando-se do cruzamento. Atrás deles, Sanwell podia ver o que parecia uma floresta de piques sob a qual brilhavam os elmos de latão polido de toda uma coluna de soldados em marcha.
Arte de: Joshua Cairos
"Sanwell", disse Rica, levantando-se. Ele não estava chamando a atenção de Sanwell, apenas murmurando. Um suspiro reflexivo, proferido em descrença diante do que via: o exército Fallaji, sem impedimentos, marchando em direção a eles.
"Espada Um", gritou Sanwell. Ele apontou seu bastão de comando para os Fallaji e puxou o gatilho. Um feixe fino de luz, visível apenas na fumaça passageira, ofuscou a fileira da frente dos capacetes de latão. "Atacar!"
Espada Um saltou em direção aos Fallaji, seguido um segundo depois pelo Espada Dois. Carlo, catatônico, acionou seu bastão de controle, iluminando o chão a seus pés. O Espada Três não se moveu; a máquina entrara em repouso, com a espada pronta, mas não erguida.
Os soldados em marcha não conseguiram formar uma parede de piques antes que os dois vingadores se chocassem contra eles. As fileiras da frente morreram em meio ao caos, seus piques ricocheteando nas placas de armadura dos vingadores. Os dois vingadores manejavam suas grandes espadas com a eficiência de um açougueiro, interrompendo o avanço Fallaji na barricada em ruínas.
Sanwell observou com horror e admiração enquanto os vingadores cortavam os capacetes de latão. O som de suas espadas zumbindo pelo ar, o baque pesado e úmido das lâminas encontrando e separando a carne, esmagando ossos, triturando a orgulhosa e brilhante armadura Fallaji como se fosse pouco mais que uma folha fina. Sanwell só conseguia cambalear para trás, com o bastão de comando nivelado e apontado, e observar o vingador interpretar seu comando mais básico. O Espada Um golpeava os soldados diante de si com ataques expeditos. Golpes curtos, um manipulador segurando o punho da espada e outro ao longo da lâmina para guiá-la.
Rica pilotava o Dois com precisão, direcionando seu vingador para oficiais e alvos que representavam uma ameaça às suas máquinas. Soldados com lanças pesadas de ponta explosiva e bestas, oficiais com suas bandeiras de comando e vozes firmes — o Espada Dois, sob o comando de Rica, caçava-os através do caos criado pelo assalto do Espada Um.
Quem ensinou o Espada Um a lutar?
Sanwell apontou seu bastão de controle para um par de capacetes de latão que haviam contornado o Espada Um. Ele acionou o bastão, passando seu feixe pelos soldados, e o Espada Um intercedeu imediatamente, empalando ambos com uma estocada pesada. O Espada Um os ergueu e os varreu de sua arma, enviando seus corpos caindo na coluna que ainda avançava.
Em algum momento o Espada Um teve que aprender a se mover assim, pensou Sanwell, marcando outro alvo. Ele recuou, retirando-se com Rica, arrastando Carlo com eles, distanciando-os da luta.
Quem ensinou o Espada Um a interpretar seu primeiro comando simples e traduzi-lo em movimentos que o próprio Sanwell não conseguiria fazer? Ele vira o interior dos modelos mais antigos como parte de seu treinamento — eles, como o Espada Um, não estavam vivos. Pelo que ele entendia, não podiam pensar. Eram máquinas, conjuntos humanoides de mil cálculos complexos e complicações delicadas; milhares de horas de gênio, perspicácia técnica e trabalho humano dedicados a um único propósito, alcançado com uma graça estranha: brandir uma espada e ceifar uma vida.
Brilhantismo. Loucura.
O Espada Um ejetou sua lâmina gasta em direção aos capacetes de latão que avançavam e, em seguida, sacou uma nova lâmina do carregador em suas costas. O vingador movia-se tão suavemente que Sanwell quase podia acreditar que era uma pessoa gigante de armadura, um guerreiro que não podia ser detido pelo medo, pela piedade ou pela fadiga. Lanças e virotes de besta despedaçavam-se nas pernas do Espada Um e desviavam-se de suas placas de armadura braquiais e torácicas, cada golpe de raspão reforçando o quão indestrutível o vingador era.
Outro sentimento misturava-se ao medo de Sanwell: alívio. Alívio por os Espadas estarem do seu lado.
Uma explosão estrondou sobre a metade superior do Espada Dois, fazendo o vingador cambalear contra o Espada Um. O Espada Um desviou-se graciosamente de seu companheiro, e o Espada Dois caiu de volta na praça, atingindo o chão com força suficiente para rachar a pedra.
Rica praguejou e Sanwell viu o porquê: uma bomba arrancara o braço direito do Dois. Fluidos hidráulicos e óleo escuro espirraram do equipamento danificado, jorrando no ar até que os sistemas internos do Dois cortassem o fluxo. Sacando uma nova lâmina com o braço restante, o Espada Dois lutou para se levantar — mas era tarde demais. A brecha fora aberta.
Os capacetes de latão Fallaji avançaram, impulsionados por seus oficiais atrás, gritando, roucos, encorajados pelo golpe desferido no Espada Dois. O Espada Um tentou interceder, mas não conseguiu segurar a estrada sozinho. A princípio, apenas um punhado de capacetes de latão conseguiu passar; o Espada Dois tentou repeli-los, mas os Fallaji dispararam uma saraivada de virotes explosivos em sua cabeça e pernas. As detonações soaram umas sobre as outras, com ondas de pressão derrubando a máquina ferida de volta ao chão. Enquanto ela caía, os soldados enxamearam o Espada Dois, cravando lanças-bomba em suas juntas e entre suas placas de armadura, imobilizando seu movimento. Do outro lado do pátio, mais capacetes de latão derrubaram o inativo Espada Três, com piques anti-meca perfurando e cortando partes internas vitais, juntas e mecanismos.
Sanwell gritou algo sem palavras, uma mistura de terror e fúria, apontando seu bastão de comando para os Fallaji, disparando um feixe ofuscante contra eles repetidas vezes. Nenhum comando, nada de seu treinamento, apenas dando voz ao pânico bruto enquanto o inimigo inundava o cruzamento. O Espada Um lutou, como fora projetado para fazer.
Os capacetes de latão detonaram suas lanças-bomba e mataram o Espada Dois. A pedra de poder do vingador explodiu, um clarão brilhante que cobriu a praça com uma luz branca.
Sanwell foi lançado pelos ares, cegado pela explosão. De alguma forma, ele manteve seu bastão de comando e, enquanto jazia de costas, piscou para que sua visão voltasse do queimado para o borrado. Ele conseguia ver Carlo imóvel, perto da carroça capotada, com o uniforme fumegando. Ele observou Rica se levantar, com as maçãs do rosto e o nariz em carne viva e queimados. Um vento de lixa chicoteava pelas ruas de Kroog, fustigando o rosto e as mãos também queimados de Sanwell. Ele gritou de dor, com a voz abafada enquanto sua audição demorava a retornar.
Os sinos ainda estrondavam e dobravam. Outras explosões ribombavam por toda a cidade.
Distantes, gritos.
Distantes, o rugido dos engenhos dragão.
Arte de: Svetlin Velinov
O mundo de Sanwell era uma névoa de fumaça cinza e turva sob um céu ocre. O sol acima era uma calêndula moribunda, gorda e próxima, ameaçando escorregar do céu, uma gema de ovo desprendida de sua clara. Tudo fedia a madeira queimada, óleo queimado, carne queimada. Cinzas caíam como neve.
Quando Sanwell era novo em Kroog, enviado com seu irmão ainda criança para aprender artifício no ornitoptério, ele fora instruído nos costumes e crenças Yotianos. Educação cultural, disseram-lhe seus pais. Necessária para qualquer filho do leste, para que os jovens herdeiros da civilização entendessem o mundo que estavam destinados a governar; nessa educação, Sanwell aprendeu que, dos muitos deuses de Yotia e seus domínios, nenhum governava sozinho um submundo ou um pós-vida amaldiçoado. Uma alma humana era plural demais para ser lançada no inferno pela palavra de um único deus: a condenação para os Yotianos não era tão simples. Alguém tinha muitas almas ao longo da vida, e a cada uma era concedido seu próprio julgamento.
Sanwell sabia agora que os Yotianos haviam esquecido um aspecto. Haviam esquecido um deus em algum lugar em suas celebrações: aquele que condenara sua alma viva a esta cidade infernal. Sanwell imaginou aquela divindade mórbida voando sobre a cidade com asas rasgadas, expelindo névoa carmesim em suas ruas em chamas.
"Espada Um", sussurrou Sanwell no bastão de comando. "A mim." Fosse inferno ou pesadelo, Sanwell queria sair.
Formas escuras espreitavam através da névoa, embora nenhuma ostentasse o perfil reconfortante do Espada Um. Silhuetas disformes curvavam-se sobre suas longas lanças, com elmos largos girando lentamente, ouvindo, procurando.
Sanwell moveu-se para uma posição agachada, recuando ainda mais das formas em movimento. Ele passou por Rica e sibilou para que ele o seguisse.
Rica balançou a cabeça e colocou um dedo nos lábios. Ele apontou, direcionando o olhar de Sanwell.
Carlo. Ele rastejava em direção a Sanwell e Rica. As queimaduras em suas costas e pernas eram terríveis, transformando-o em uma massa de carne com bolhas e aço derretido.
"San?", gritou Carlo, soluçando. "Rica?"
Rica partiu em direção a Carlo, mas Sanwell o agarrou e o empurrou de volta.
As formas escuras na névoa de tijolos pararam, ouvindo. Suas cabeças largas viraram-se. Suas lanças sondaram as cinzas que caíam suavemente.
"Onde vocês estão, pessoal?", gritou Carlo novamente.
Uma enxurrada de virotes de besta atingiu as costas de Carlo, matando-o. Uma segunda saraivada o crivou segundos depois, com virotes perdidos tinindo e ricocheteando no chão coberto de cinzas. Os capacetes de latão gritaram, chamando uns aos outros para indicar a localização do piloto morto.
"Espada Um, matar!", gritou Sanwell em seu bastão de comando, com a voz falhando. "Matar!"
Rica virou-se, agarrou Sanwell e o empurrou para correr. Por cima do ombro, Sanwell ouviu os soldados Fallaji gritando de terror sob o zumbido crescente de uma máquina laboriosa e ferida. Ele virou-se, recuando três passos curtos, e viu a forma alta e blindada do Espada Um surgindo da escuridão.
O Espada Um era um cavaleiro deformado pelo calor em uma luz amarela como gema de ovo, a morte dourada salpicada de fuligem e cinzas. Embora horrivelmente ferido, o Espada Um não estava morto e, até que estivesse, obedeceria à última ordem de Sanwell. Manchada de sangue, destemida, a terrível máquina poderia ter sido outro deus Yotiano esquecido: o da guerra e dos cruzamentos, das máquinas e da era que estava por vir.
Sanwell jogou fora seu bastão de controle. Não restava mais nada a comandar.
"San!" As mãos de Rica agarravam o colarinho de Sanwell, com o outro rapaz tentando puxá-lo. Sanwell tropeçou, mas não caiu.
Juntos, os dois rapazes correram.
Kroog morreu em uma manhã carmesim; a guerra começou ao nascer do sol.
Arte de: Kamila Szutenberg
28 AR
Aiman jazia de costas e apertava os olhos contra a luz pálida do sol de calêndula. O céu tinha um matiz laranja repugnante, profundo como o marrom queimado de uma pimenta carbonizada onde a fumaça de incêndios ainda ativos saía. Tudo fedia. A beleza coalhada pela morte, o doce céu azul enferrujado, sinos brilhantes retorcidos em gritos.
Aiman precisava de água.
O trovão das batidas de botas com solado de prego. Um estouro de botas. Centenas, milhares, um milhão, o mundo inteiro correndo por ele. Uma chutou sua cabeça com força suficiente para derrubá-lo, como as ondas faziam outrora. Argiviano ou Fallaji, ele não conseguia distinguir. A alça de seu capacete de latão arrebentou, e seu elmo saltou para longe. Alguns reforços, pensou ele, correndo para a batalha.
Para a batalha!
Kroog, cidade em chamas, cidade invasora, a cidade dos ladrões. Por que estavam ali? Mishra, a língua de serpente, faminto, invejoso. A ganância do qadir.
Aiman precisava de água.
Ele gemeu e tentou se mover, mas quando tentou se sentar, todas as suas forças se esvaíram. Ele tossiu, fazendo uma careta de dor. Não conseguia enxergar bem. Olhou para o próprio corpo.
Aiman soltou um grito fraco de medo e choque. Três flechas. Ele fora atingido. Uma na parte superior da coxa, uma prendendo seu braço ao peito e outra na lateral do corpo. A da coxa era a mais profunda, bem no músculo. A do braço atravessara tudo, mas seu braço e a couraça por baixo impediram que a flecha o ferisse mais profundamente. A do lado era pouco mais que um corte profundo, presa em sua armadura e no tecido acolchoado por baixo — assim que a flecha saísse, uma bandagem limpa seria suficiente. Seu rosto latejava, e uma sensação horrível de rachadura dizia-lhe que fora ferido ali também.
Aiman caiu de volta.
"Preciso de água", gritou Aiman. "Água", clamou ele, e percebeu que a sua era apenas uma das muitas vozes que se somavam a um coro de feridos gemendo, chorando e gritando. Olhou ao redor, com a lucidez voltando junto com a dor.
Ele estava no inferno. Corpos lotavam o espaço entre os edifícios, prechendo a estrada onde haviam lutado. O esôfago da cidade, através do qual soldados de ambos os reinos foram moídos como carne.
Tentou se lembrar do que aconteceu. Algum enorme cavaleiro dourado, alguma máquina brilhante de terror. A coluna marchando para a frente, empurrada pelas fileiras de trás, aterrorizada pela morte à frente e pelos oficiais de Mishra atrás. Explosões, dor. Os barcos antes disso, suas mãos tremendo, a prece silenciosa do soldado ao seu lado, o frio do rio enquanto subiam as margens, os gritos e os gritos.
Aiman precisava de água. Precisava fugir. Mãos o agarravam, e um homem morto gemia em seu ouvido, implorando pela mãe. Aiman afastou as mãos com seu braço bom, ofegante. Ele chutou e arrastou-se, esquivando-se do cadáver suplicante.
Ofegante, Aiman rastejou, ganindo onde as hastes das flechas batiam e arrastavam-se pelo tijolo. Ele desabou contra a lateral do beco, tremendo violentamente, com a visão acinzentada.
"Água", gemeu Aiman. Estava morrendo. Podia sentir. Uma dor profunda e ardente latejava em sua perna, em seu olho, em seu lado —
Aiman acordou. Era noite. Ele havia desmaiado.
O beco estava silencioso. Os mortos cobriam todas as superfícies. Incêndios iluminavam a noite, lançando tudo no brilho ocre do próprio abismo. Não dobravam mais sinos, embora Aiman pudesse ouvir a batalha ainda rugindo nos bairros distantes de Kroog.
Aiman gemeu quando o viu. Um fantasma. Um espectro, brilhando em um azul suave enquanto se movia pelo beco fétido. Aiman começou a rezar.
O fantasma olhou para ele.
A prece de Aiman travou em sua garganta.
O fantasma caminhou em sua direção, com a forma azul pálida traçando um eco no ar quente da noite atrás de si. A Morte, Aiman sabia. Era a própria morte, reivindicando almas para viajar com ela.
A Morte agachou-se sobre um homem horrivelmente ferido. O peito do homem subiu e desceu, soluçou e depois esvaziou. Aiman podia ouvir o estertor de onde estava escondido.
A Morte levantou-se. Sua cabeça girou pelo beco, como se estivesse absorvendo a visão. Uma colheita, pensou Aiman. Uma colheita para este ceifador frio.
"Ainda não", disse a Morte. Falava para o beco vazio, mas Aiman sabia que a Morte falava com ele. A Morte tinha um sotaque estranho, como algo do extremo leste. Quando menino, Aiman cuidara do navio mercante de seu pai, navegando por todos os confins de Terisiare. O porto austero de Penregon fora uma parada regular o suficiente, e Aiman aprendera um pouco de Argiviano; a língua da Morte soava semelhante.
"Chegamos cedo demais", disse a Morte. "Estamos a anos de distância, décadas pelo menos. Isso não acontece aqui."
Alívio e confusão inundaram-no. Aiman permitiu-se ter esperança.
A Morte suspirou e então a Morte desapareceu.
Duas semanas depois, a febre de Aiman finalmente passou. Ele saiu mancando da arejada tenda médica, com o lado direito do corpo doendo e coçando, mas cicatrizando. Ele perdera um olho; exceto por esse ferimento, não sofreria mais do que cicatrizes franzidas onde as flechas o haviam perfurado.
A brisa seca do deserto resfriou o suor em sua testa.
A guerra de Aiman terminara. Sua vida, ele sabia com certeza, estava apenas começando. Ele olhou para o céu azul pálido, seguiu as nuvens finas em suas alturas e observou os pássaros circulando.
A Morte lhe dissera: ainda não.
Capítulo 1: Fortaleza
21 de outubro de 2022 • Reinhardt Suarez
Há momentos em que o destino convoca um povo e exige uma ação. Agora é o momento. Nós somos o povo. Esta é a nossa ação.
— Eladamri, Senhor das Folhas
Teferi nunca pensou que caminharia novamente por corredores erguidos por Urza, muito menos por aqueles em que seu antigo mentor andou como um homem mortal. Quatro mil anos era muito tempo para qualquer edificação permanecer de pé, ainda mais uma tão essencial para uma guerra que destruiu um continente. Mas ali estava Teferi do mesmo jeito, subindo os degraus em espiral da torre onde, milênios antes, Urza projetou constructos mecânicos para travar uma luta amarga contra seu irmão, Mishra.
A torre em si estava em perfeitas condições, embora desolada. Pedra e metal foram meticulosamente encaixados sem costuras ou rachaduras, como se a torre tivesse sido manifestada pela vontade em vez de montada por mãos. Diz a lenda que Urza construiu esta torre para ser seu laboratório pessoal, longe dos horrores da Guerra dos Irmãos, e isso transparecia no cuidado que ele dedicara aos seus detalhes dourados, ao seu planetário, às suas armaduras de montagem — o tipo de cuidado que ele nunca fora capaz de estender às pessoas em sua vida.
O mistério da torre era como ela havia evitado saques ao longo dos séculos. Não havia sinais de saqueadores estabelecendo acampamentos, nenhuma evidência de magos oportunistas montando seus laboratórios. Estruturalmente, teria sido perfeita para ambos. Teferi poderia ter se convencido de que foi a localização bem escondida da torre em um vale envolto em névoa que garantiu sua sobrevivência. Mas ele sabia melhor. Foi pura sorte — a mesma sorte na qual todas as maquinações de Urza pareciam confiar (e com a qual tinham sucesso). Sorte imprudente. Sorte perigosa. O tipo que prometia apenas os extremos do sucesso ou do fracasso, com dor atrelada a cada um.
Teferi chegou ao topo da escada, onde parou para recuperar o fôlego e segurar o abdômen; os ferimentos que recebera em Nova Argívia ainda doíam. Sim, ele poderia ter usado sua magia para levitar, mas Subira sempre lhe incutira a serenidade que vinha com a meditação de um passo~ após outro passo~ após outro. Como ele desejava que Subira estivesse ali para desatar seu nó apertado de preocupações.
Saia da sua cabeça , ela sempre lhe dizia. Olhe com seus olhos.
Ao entrar em seus aposentos, Teferi notou a mobília nova, embora esparsa — uma mesa, uma cadeira e uma cama de campanha que haviam sido adicionadas na semana, mais ou menos, em que estivera fora, viajando entre planos pelo Multiverso. Então, ele se aventurou pelo parapeito envolto em névoa, bem acima do vale isolado. Respirando o ar frio argiviano, ele olhou para o abismo e imaginou falanges de guerreiros de metal alinhados sob aquele mesmo parapeito, seus calcanhares estrondosos golpeando o chão.
Teferi desviou o olhar do parapeito e viu um constructo atarracado, lembrando uma lagarta de latão ereta, vindo gingando pela porta, equilibrando precariamente uma xícara cheia de um líquido fumegante de tonalidade esverdeada e um pequeno prato de biscoitos de chá. Teferi só pôde observar confuso enquanto a pobre criatura atravessava a sala. Ele assumiu que o constructo era obra de Saheeli, mas não sabia ao certo como reagir a ele.
"Isso não pode ser para mim", disse ele, esperando que a coisa o entendesse. "Acabei de chegar."
"Isso é obra minha." Parado à porta estava Jodah, tão belo e vibrante como sempre. Não importava quão miserável fosse a ocasião, ele sempre conseguia parecer em todos os aspectos o arquimago mais aclamado de Dominária. Seus trajes estavam impecáveis, e seu sorriso brilhava tanto quanto a Lua Nula em uma noite clara. "Lancei um alarme de intruso na torre, então soube que você estava de volta. Espero que não se importe que eu tenha tomado liberdades com o seu café da manhã."
"Não. Você é muito gentil", disse Teferi, mordendo um dos biscoitos de chá. Hmm. O que era aquele sabor estranho? Não era doce, mas salgado, com um toque ácido peculiar e uma textura granulada como areia entre os dentes. "O que é isso?"
"Esse é o biscoito tradicional do povo de Kjeldor", disse Jodah. "Dei minha receita para Saheeli, e ela criou um de seus constructos para assá-los. Ela é brilhante." Ele estreitou os olhos. "Por que a pergunta?"
"É para ter esse gosto?"
Jodah pegou um biscoito e o examinou. "Já comi milhares destes, então não vejo o que poderia estar errado." Então ele deu uma mordida. "Huh. Você tem razão. Está um pouco estranho. Talvez a farinha de barata tenha ficado velha."
"Farinha de barata", repetiu Teferi, encarando Jodah.
"Mmm-hmm", disse Jodah, colocando o resto do biscoito na boca.
Teferi soltou o seu delicadamente no prato. "Como as coisas estão indo por aqui?"
"Tão bem quanto se pode esperar. Você terá que perguntar a Saheeli como ela está se saindo no projeto dela, mas posso dizer que temos nossa privacidade. Por enquanto, pelo menos."
Isso era bom de ouvir. Algumas semanas haviam se passado desde o ataque à Plataforma de Mana, deixando Teferi com poucos aliados e ainda menos recursos. Karn fora levado pelos phyrexianos, o sylex destruído e Ajani revelado como um agente adormecido. Para evitar mais olhos curiosos, Jodah insistira em encontrar uma nova base, um sentimento com o qual Teferi concordava. O que ele não concordava necessariamente era em se mudar para a Torre de Urza. Mas o que estava feito, estava feito.
"Eu trouxe Wrenn", disse Teferi. "Por acaso você a viu?"
"Sim. Nos encontramos no caminho para cá. Não é exatamente do tipo mais amigável."
"Deixe-a se acostumar com você. Verá que a sabedoria dela não tem igual."
"Falando em iguais, mais dois Planeswalkers chegaram logo depois de você."
Teferi arqueou uma sobrancelha. No último mês, ele estivera caçando aliados febrilmente por todo o Multiverso, mas a maioria dos contatos Planeswalkers de longa data que conseguira encontrar rira de seus apelos. Teferi tivera mais sorte com os Planeswalkers mais jovens que lutaram ao seu lado contra Nicol Bolas: Saheeli Rai fora a recruta mais vital devido à sua habilidade com artefatos. Kaya fora fundamental por sua mente estratégica aguçada e sua rede de informantes em planos distantes. E ele buscara Wrenn por sua capacidade de ver através de suas próprias afetações tolas. Ele não esperava que ninguém viesse à sua procura.
"Kaya parecia conhecê-los", disse Jodah, dando de ombros. "Isso e o fato de que este lugar ainda não explodiu significa que provavelmente são amigáveis."
"Acho que deveríamos ver o que eles querem." Teferi tomou um gole de chá. Os toques de limão e mel temperaram sua ansiedade, permitindo que ele abordasse algo que temia desde que deixaram Shiv. "Antes de irmos, queria pedir um favor."
"Isso soa sinistro."
"Assim que a máquina do tempo de Saheeli estiver pronta, estarei indisponível", explicou Teferi. "Vou precisar — todos nós vamos precisar — de alguém para liderar e tomar as decisões certas." Ele colocou a mão no ombro de Jodah. "Gostaria que você considerasse ser essa pessoa."
"Considerar?" perguntou Jodah com um sorriso. "Você não vai simplesmente me ordenar a fazer isso?"
Teferi balançou a cabeça. "Aprendi que é melhor pedir."
"Só levou sessenta anos." Jodah colocou a mão sobre a de Teferi. "Vou tentar não queimar o lugar."
"Onde está Ajani?"
A expressão no rosto de Elspeth Tirel quando Teferi respondeu era uma que ele já vira antes. Foi na Academia Tolariana, em uma visita a Barrin, seu antigo mestre — não tanto uma visita, mas um ato de contrição. Teferi lembrou-se do venerável mago levantando-se de sua mesa, o rosto abatido, a mandíbula tremendo, a tempestade interior contida apenas pelo decoro. O nome que os dividia era Rayne — a falecida esposa de Barrin, morta em uma guerra que Teferi liderara, uma guerra pela qual ele assumia a responsabilidade.
O nome era diferente hoje — o de Ajani em vez do de Rayne. Mas aquela mesma expressão que Barrin ostentara~ Ela cortou Teferi como uma adaga velha e enferrujada no aperto calejado de Elspeth.
"Sinto muito", repetiu Teferi, mas as palavras soavam vazias. "Gostaria que as coisas fossem diferentes —"
Antes que pudesse dizer mais nada, Elspeth levantou a mão para detê-lo. Ela cruzou os braços e caminhou até o canto mais distante da sala, de costas para todos os outros. Teferi começou a segui-la, mas Jodah segurou seu braço, mantendo-o no lugar.
"Deixe-a", disse ele, e então para Kaya: "Pode prosseguir."
Todos os que se reuniram na sala de guerra improvisada de Kaya, exceto Elspeth, agruparam-se em torno de uma esfera brilhante de luz fantasmagórica que pairava sobre um poço no centro da sala. À frente da multidão estava a outra Planeswalker recém-chegada, Vivien Reid, a quem Teferi conhecera em Ravnica durante a luta contra Nicol Bolas.
Arte de: Peter Polach
"A Nova Coalizão continua a mobilizar defesas contra novos ataques a Dominária", explicou Kaya. "Mas os phyrexianos são implacáveis, como descobrimos em Shiv."
Teferi mal conseguia prestar atenção. Seus olhos desviavam repetidamente para Elspeth sozinha no canto. Karn lhe contara histórias sobre a coragem dela ao salvá-lo dos phyrexianos. E então houve Ajani, chamando-o de lado para contar animadamente como encontrara Elspeth viva, apesar de sua aparente morte em Theros. A campeã de que precisamos , dissera Ajani. Alguém em quem podemos confiar.
Ajani ainda era ele mesmo naquela época? Poderia Elspeth ser confiável?
"Kaldheim e Ixalan estão mobilizados", disse Kaya, caminhando ao redor da esfera para destacar pontos e locais importantes no plano das Sentinelas. "Jace está em Ravnica fazendo lobby por apoio das guildas, enquanto Chandra foi para Zendikar contatar Nissa. Quando terminarmos nossas tarefas aqui, Saheeli pretende liderar a defesa de Kaladesh." Kaya parou em um último ponto na esfera. "Então temos o acampamento mirraniano na própria Nova Phyrexia, liderado por Koth."
Elspeth virou-se, com os olhos acesos. "Koth está vivo. Como vocês descobriram isso?"
"Jace", disse Kaya. "Não sei qual é a fonte dele, mas ele me disse que Koth e os mirranianos estão planejando um assalto ao núcleo phyrexiano. Planejamos nos juntar a eles assim que estivermos prontos. Então, juntos, eliminaremos a liderança phyrexiana e limparemos o que restar. Sem cabeça, o corpo falhará."
"Isso é uma sentença de morte", disse Elspeth. "Koth sabe disso melhor do que ninguém."
Teferi começou a explicar. "Se você apenas ouvir nosso plano —"
"Não. Você me escute. Koth e eu uma vez tentamos fazer exatamente o que vocês estão propondo, e terminou em fracasso." Seus olhos saltaram de pessoa em pessoa antes de finalmente se fixarem em Teferi. Aquele olhar. "Nenhum de vocês estava lá." Com isso, ela saiu tempestuosamente da sala.
O silêncio que se seguiu foi perturbador. Teferi sabia que, não importa qual estratégia usassem, as chances não favoreceriam qualquer força externa que tentasse penetrar nas defesas de Nova Phyrexia. Todos os outros na sala também entendiam isso. Mas ouvir isso dito em voz alta, de forma tão direta como Elspeth fizera, cristalizou quão terríveis eram realmente os riscos.
"Deixe-me falar com ela", disse Jodah, com a mão nas costas de Teferi. "As responsabilidades da liderança, hein?" Ele saiu pela porta para ir atrás de Elspeth.
Vivien estendeu a mão para Teferi, cumprimentando-o com o aperto de uma caçadora experiente. "Bom ver você de novo, Teferi, embora em circunstâncias tão infelizes quanto as da última vez."
"Você e Elspeth são bem-vindas para ficar e descansar, se precisarem."
Vivien balançou a cabeça. "Vou para Ravnica para garantir que Jace esteja informado da situação. Depois irei para Ikoria. Estou preocupada em não conseguir organizar uma defesa significativa lá. Tudo o que os assentamentos fazem é brigar, então vou garantir que eles fiquem na linha."
"E Elspeth?"
"Com essa notícia sobre Ajani", disse Vivien, "acho que lhe faria bem estar entre amigos."
"Se ela nos considerar amigos."
"Ela passou por muita coisa. Dê tempo a ela."
Tempo. Um luxo que Teferi sabia que eles tinham muito pouco.
"Quanto à tarefa em mãos, é por isso que estamos aqui", disse ela. "Tenho informações de um infiltrado phyrexiano — Urabrask, o pretor da Forja Silenciosa. As informações de Kaya parecem estar alinhadas com o que nos foi dito, mas estão incompletas."
Teferi sentiu as rugas de preocupação em seu rosto se aprofundarem. Os phyrexianos com os quais ele estava familiarizado eram fanáticos militaristas que não toleravam dissidência. A noção de que esses Novos Phyrexianos tivessem facções entre eles parecia anátema à sua própria natureza.
"O que Urabrask disse?"
"Que Elesh Norn, uma pretora rival, quase unificou Nova Phyrexia sob seu estandarte", disse Vivien. "Urabrask e suas forças se opõem às aspirações de Norn. Ele está planejando sua própria revolução e está se comunicando com os mirranianos."
"Seja qual for o caso, estaremos lá em breve", insistiu Teferi.
"Não em breve o suficiente", disse Vivien. "Urabrask não deu detalhes, mas estava preocupado com alguma forma que Elesh Norn possa ter para forçar sua 'singularidade única' por toda Nova Phyrexia e, mais importante, pelo Multiverso. Ela planeja expandir seu domínio de uma só vez."
"Deuses e monstros", sussurrou Kaya.
"O que foi?" perguntou Teferi.
"A criatura de que lhe falei — aquela que fui contratada para matar", disse ela enquanto começava a andar pela sala. "Eu nunca encontrara nada parecido — uma besta de carne costurada sobre metal. Depois que você e eu conversamos, concordamos que era um phyrexiano. Mas eu não conseguia entender por que, de todos os lugares, estava em Kaldheim. Com as informações de Vivien~" Kaya ativou o poço de expressão, moldando-o com a força de sua mente. O resultado foi uma renderização tridimensional de uma árvore de muitos galhos, coroada no topo como os grandes magnigodes que habitam as florestas de Yavimaya, apenas ondulando constantemente como se feita da efusão do próprio Multiverso. "Esta é a Árvore do Mundo de Kaldheim. É como uma rede que permite viagens instantâneas entre todos os reinos do plano. E se~"
Kaya não precisou terminar. Se os phyrexianos tivessem de alguma forma replicado ou reaproveitado a Árvore do Mundo de Kaldheim, ela poderia concebivelmente ligar todos os planos no Multiverso. Com ela no lugar, os phyrexianos poderiam estar em qualquer lugar, a qualquer momento, na velocidade do pensamento. Eles não teriam que se preocupar apenas com infiltrações secretas como em Dominária; os phyrexianos poderiam marchar seus exércitos diretamente.
"A esta altura, o que quer que Urabrask tenha planejado está a apenas alguns dias de acontecer. Se vamos agir, deve ser muito em breve."
"Dias?" disse Teferi. Ele não achava que teria uma janela tão pequena para trabalhar.
"Não gosto disso", disse Kaya. "O momento dessa proposta de aliança é perfeito demais."
Instintivamente, Teferi concordou. Ele já jogara esse jogo antes e aprendera que o inimigo do meu inimigo poderia ser o pior inimigo, de longe. Tudo o que era necessário para cair na armadilha era um pedaço saboroso, uma tentação irresistível. A verdade era o bocado mais seletivo de todos para capturar uma vítima.
"Eu também tenho minhas suspeitas", disse Vivien. "Mas não acredito que tenhamos muitas alternativas além de acreditar na palavra de Urabrask. Eu respondo por ele e pelo intermediário que organizou minha audiência com ele."
"E quem é esse?" perguntou Teferi.
"Tezzeret."
"Não", declarou Kaya. "De jeito nenhum. Você sabe o que ele fez em Ravnica! E ele ainda tem acesso à Ponte Planar!" Ela se voltou para Teferi. "Se confiarmos em Tezzeret, poderemos cair direto na armadilha dos phyrexianos. De novo."
Mais uma vez, Kaya falava a verdade. E, no entanto, quão tolo seria descartar uma possível vantagem sobre seus oponentes? Uma revolução interna poderia dividir o campo de batalha e anular a vantagem que os phyrexianos tinham em seu plano natal.
"Veja o que você consegue descobrir através de seus contatos", disse Teferi a Kaya. "Agora, temos que nos concentrar no que estamos fazendo aqui."
Kaya cedeu. "Certo. Vou balançar a árvore do dinheiro em Ravnica. Veremos o que cai."
"Desejo sorte a ambos", disse Vivien, virando-se para sair. "Pelo bem de todos nós."
Se qualquer parte da Torre de Urza ainda ostentava as marcas de seu criador, era a ala leste. No auge da Guerra dos Irmãos, testemunhar os braços mecânicos montando um dos constructos de Urza teria parecido um milagre para os korlisianos ou argivianos que só haviam travado guerra com piques, espadas e sangue.
Agora, aqueles braços mecânicos jaziam em montes no chão, juntando-se às peças de reposição e sucata que Urza deixara para trás quando abandonou sua torre para ir a Argoth. E em meio a esse monte estava Saheeli Rai, sentada de pernas cruzadas no chão. Saheeli fora uma das primeiras recrutas de Teferi. Assim como Vivien e Kaya, ele a conhecera em Ravnica, mas ela era muito diferente de suas disposições severas. Saheeli, em vez disso, abraçava a alegria visceral de buscar a arte no artifício, exemplificada pelo belo pavão de ouro fiado que dava saltos altos e planava de volta ao chão.
"Olá!" cumprimentou Saheeli, apreciando uma pequena xícara de chá para acompanhar mais daqueles biscoitos que Jodah lhe servira mais cedo. Ela se arrastou e deu tapinhas no chão ao lado dela. "Quer se juntar a mim?"
"Não, obrigado", disse ele. "Queria apenas dar uma passada rápida. Como as coisas estão indo?"
"Elas estão~ indo."
Teferi olhou ao redor para o círculo de bancadas de trabalho que Saheeli montara sobre a plataforma principal de montagem, seu próprio pequeno espaço de trabalho privado no meio dos destroços que costumavam ser o grande salão de exposições de Urza. No topo de uma daquelas mesas havia um item que lhe chamou a atenção — uma obra de arte requintada, uma tigela feita de cobre puxado, torcido e moldado como nenhuma mão humana jamais conseguiria. Mas era muito mais do que isso.
"Você conseguiu", disse Teferi enquanto se aproximava da tigela. "Está perfeita."
"Eu não usaria essa palavra", disse Saheeli.
Mas Teferi queria usá-la. Saheeli criara uma réplica perfeita do sylex: uma mistura dos elementos característicos da relíquia original com toques sutis do estilo de filigrana característico de Saheeli. Sua versão apresentava as mesmas alças pesadas em ambos os lados, as mesmas representações em baixo-relevo raso de fazendeiros armados com foices enfrentando uma tropa de cavaleiros de armadura. Runas idênticas — uma tradução mestre entre várias línguas antigas — espiralavam para baixo das bordas internas da tigela até o fundo.
"Uma coisa é criar algo que você já viu e segurou antes", disse ela. "Outra é fazer isso a partir de notas que podem não estar completas."
"Confio que você fez o seu melhor."
"Espero que o meu melhor seja bom o suficiente."
"Como está a nova máquina do tempo?" disse ele, passando para o outro grande objetivo que lhe designara.
"Âncora Temporal", lembrou-lhe Saheeli. "As coisas estão progredindo, como você pode ver." Ela gesticulou para o outro lado da plataforma, onde sua máquina estava. Teferi ainda se lembrava da máquina do tempo de Urza — um trambolho de cilindros de vidro e tubos sinuosos que ocupava metade de uma sala de aula na Academia Tolariana. A de Saheeli, em contraste, era uma escultura de curvas arrebatadoras feita de metal laranja flamejante. Ela, como o sylex, caberia em qualquer galeria de arte fina.
"Você é modesta demais. Parece bem menos dolorosa que sua versão inicial."
"Aceitarei o elogio", disse Saheeli com uma risada. "Ainda assim, houve alguns contratempos. O éter é uma fonte de energia muito mais fácil de manipular; até o motor de éter mais potente é como a chama de uma vela para uma supernova quando se trata disso."
Ela colocou a mão no pedestal onde a pedra de poder da Bons Ventos estava emaranhada em um ninho de bobinas de cobre. Teferi fez uma careta. A mera lembrança de ver a poderosa aeronave, um símbolo de força para toda Dominária, distorcida em uma abominação phyrexiana amargava seu estômago.
"Gerenciar a carga de energia enquanto se tenta garantir a segurança do ocupante é difícil", disse Saheeli. "Esses componentes nunca foram feitos para trabalhar juntos." A mais leve das acusações pairava no ar entre eles. Teferi sabia que sobrecarregara Saheeli com uma tarefa quase impossível e pouquíssima margem de erro. "Acho que descobri como fazer, mas preciso realizar mais testes."
Ele mediu suas palavras. "Não é minha intenção pressionar demais, mas —"
"Eu sei", disse Saheeli. "Aqui." Colocando a mão no chão, Saheeli permitiu que o pássaro de corda pousasse em seu dedo. "Fiz para você."
"Para mim?"
Com um sorriso, ela moveu a mão, e o pavão pulou no pé de Teferi e bicou sua bota. "Em Ghirapur, pássaros como este pousam nas pontes que cruzam o Canal Dukhara. Aquelas pontes representam a fundação da cidade, quando nobres em guerra decidiram que seria melhor cooperar e criar um futuro não dominado pela guerra. Para nós, este passarinho representa nossa cooperação, nossa unidade de propósito."
Teferi abaixou-se e deixou o pássaro pular em sua palma. Ele se levantou, segurando o pássaro perto do rosto. Seus movimentos capturavam a natureza espasmódica de um pássaro de carne e osso, tanto que um observador casual poderia tê-lo confundido com sua contraparte orgânica. Mas em uma inspeção mais próxima, podia-se discernir entre suas penas douradas um coração mecânico que pulsava com o brilho inconfundível de uma pequena pedra de poder — uma das dezenas recuperadas da Plataforma de Mana caída. O pássaro saltou uma vez para encará-lo de frente, então abriu suas penas em um arco de tal habilidade delicada que Urza não poderia ter igualado em mil milênios, muito menos em alguns dias. Teferi riu.
"Gostou?" perguntou Saheeli.
"Muito", disse ele. "Meu mentor era um grande artífice, talvez o melhor que este plano já teve. E a noção de valorizar o estilo sobre a função o deixaria em surtos. 'Bah! Um desperdício de recursos!', ele diria."
"O acaso nos concedeu dons", disse Saheeli. "A forma como usamos nossos dons acabará por nos definir. Eu escolho a beleza. É assim que eu gostaria de ser conhecida." Ela assobiou e, em resposta, o pássaro artefato abriu as asas e girou no lugar, lançando uma chuva de faíscas multicoloridas em todas as direções. Teferi não pôde deixar de sorrir. Após um minuto, o pássaro voltou ao seu estado normal, bicando migalhas invisíveis que ele não tinha na mão. "A Âncora estará pronta para uso esta noite. Volte mais tarde."
Teferi descansou contra uma das poucas árvores que ainda cresciam dentro do estreito anel de cinturão verde da torre. Antes de perder sua centelha para as fendas temporais, ele não conseguia conceber que seu corpo jamais experimentaria as dores do envelhecimento. Isso é para os outros , pensara ele. Não para mim. Nunca. Descobriu-se que era exatamente para ele, exatamente o que ele precisava, mesmo com sua centelha restaurada. Ele achava uma ironia divertida: o principal mago temporal do plano sucumbindo aos estragos do tempo, acolhendo-os, até.
O sol já havia passado do ápice horas atrás, não que os altos picos que cercavam o vale permitissem muita luz solar direta fora de uma curta janela de tempo no meio do dia. Ele pensou em todas as terras além do horizonte. Shiv, onde Jhoira estava reunindo dragões, viashinos, goblins e seus próprios Ghitu para proteger sua terra do ataque phyrexiano. Orvada, onde os senhores mercadores concordaram em deixar de lado seu relacionamento espinhoso com Benália e fornecer alimentos e suprimentos para as tropas serranas lideradas por Lyra Alvorada. Urborg, onde surgiram rumores de um guerreiro pantera espectral de volta dos mortos para trazer a salvação aos vivos. Fora deste vale, Dominária estava se unindo como nunca antes. Mas será que algo disso importaria se ele e seus companheiros falhassem em sua missão?
Atrás dele, Teferi ouviu passos pesados se aproximarem, acompanhados pelo roçar das folhas contra o vento, o ranger da casca e do xilema dobrando sob tensão. Ele olhou para cima e viu Wrenn e Sete se aproximando. Levara algum tempo para Teferi localizar Wrenn, encontrando-a finalmente no plano de Cridhe, onde ela e Sete estavam se banhando nas intensas chuvas de mana da Árvore do Clã do plano. Levara ainda mais tempo para convencê-la a partir com ele.
"Cumpri seu pedido", disse Wrenn. "Eles crescerão fortes, embora sua escolha de terra seja questionável. Não há canções aqui, nenhuma harmonia. Apenas acordes isolados, distorcidos e fragmentados. Ou pior — decepados como membros gangrenados."
"Eu lhe prometi mais. Sinto muito."
"Não sinta. Estamos felizes por você ter nos trazido aqui. Tenho relutado em explicar a Sete sobre a malevolência, sobre a destruição. Melhor mostrar. Melhor sentir." Sete abaixou-se para deixar Wrenn esticar a mão e tocar a sua. "Sua própria canção está discordante hoje, uma melodia perturbadora."
Teferi assentiu. "Eu estive pensando."
"Isso não é tranquilizador, mago."
Isso divertiu Teferi, embora fugazmente. "Eu estava pensando em você, Kaya e Saheeli — todos vocês que atenderam ao meu pedido de ajuda." Ele colocou o pavão mecânico de Saheeli no chão de pedra à sua frente. Ele bicava indiferente. "Não consigo deixar de pensar que este caminho já foi percorrido antes~ por Urza, meu mestre. Ele também reuniu heróis — Planeswalkers e mortais — para combater Phyrexia. Mesmo assim, a história o lembra como o monstro que este plano precisava para derrotar os monstros que o ameaçavam."
"Ele era um monstro?" perguntou Wrenn.
Teferi ponderou sobre essa questão. A maioria em Dominária diria que sim — aqueles que realmente conheceram Urza, enfaticamente. Mas para Teferi, a resposta não era tão simples. "Em Innistrad, contei a você sobre Zhalfir. Lembra-se?"
"Sua terra natal. Aquela que você esperava que eu pudesse ajudá-lo a encontrar."
"Não lhe contei exatamente como a perdi", disse ele. "Veja bem, Urza me pediu para ser um de seus titãs. Sim, eu. Eu tinha o grande Urza Planeswalker me implorando para me juntar ao seu alegre bando de heróis e, claro, eu disse a ele que o faria se ele me ajudasse primeiro."
"Um acordo razoável."
"Foi o que ele pensou também." Teferi juntou as mãos e apoiou a testa nos dedos. "Então, com a ajuda dele, selei um portal phyrexiano que se abrira nos céus acima de Zhalfir. Quando a tarefa foi concluída e ele exigiu minha ajuda em troca, eu simplesmente ri e recusei. 'Você só quis derrotar seus inimigos', eu lhe disse. 'É assim que eu salvo meu povo. É assim que você e eu diferimos.' Então, drenei energia do portal fechado para alimentar um feitiço que afastou Zhalfir do próprio espaço e tempo. Não pedi permissão. Não me importei com o que o povo de Zhalfir pensava. Então, diga-me — quem é o monstro?"
"Seu emaranhado pode ser complexo demais. Mesmo para mim."
Teferi soltou uma risada seca. "Eu estava tão orgulhoso de quão facilmente havia roubado sua pequena vitória sobre mim~ para minha própria pequena vitória. É assim que todos somos — todos os filhos da fúria de Urza."
"Filhos?"
"Nós que somos tocados por suas ações", explicou Teferi. "Seus alunos, seus colegas~ até seus inimigos. Nós o desprezamos, mas seguimos seus passos como substitutos sem sorte. Esmaguei exércitos, não poupando misericórdia. Venci aqueles que considerei vilões e manipulei aliados para sua perdição por meus próprios fins. Pelo bem maior , eu disse a mim mesmo." Teferi pegou uma pequena pedra e atirou-a na névoa. "Um mentiroso que mente sobre suas mentiras, o verdadeiro herdeiro do manto de Urza."
Teferi esperou pela resposta de Wrenn. A dríade sentou-se em contemplação silenciosa de sua confissão. Ele nunca contara a ninguém a extensão de seus erros, pelo menos não tão diretamente. A reação razoável teria sido Wrenn viajar entre planos e ir embora.
Em vez disso, Wrenn voltou-se para ele, ondas de calor emanando do fogo contido em seu peito, e disse: "Não estou aqui para lhe dar a absolvição, mago. Seus crimes são seus, e você responderá por eles a seu tempo. No final das contas, você não é importante. Nem eu. Teferi e Wrenn são melodias singulares. Estou aqui para fazer minha parte na sinfonia."
O som de mais passos, desta vez o toque áspero de botas com reforço metálico, fez com que Teferi e Wrenn interrompessem a conversa. Elspeth caminhava resolutamente em direção a eles, vestida com uma armadura completa. Teferi levantou-se para recebê-la.
"Se você busca punição", disse Wrenn, "tenho certeza de que há outros felizes em aplicá-la. Por ora, vou me retirar." Sete empinou-se e afastou-se pesadamente, levando Wrenn com ele.
Teferi levantou a mão para falar com Elspeth, mas, como antes, ela o deteve assim que ele começou a falar.
"Vou embora amanhã", disse ela. Sua mão repousava no punho da espada que pendia de seu cinto. "Obrigada por me deixar descansar sob o seu teto."
"Não é o meu teto", disse Teferi. "Mas você é bem-vinda de qualquer forma."
"Além disso~ devo-lhe um pedido de desculpas. Vivien tem uma alta consideração por você e, por respeito a ela, eu não deveria ter falado com você como falei." Satisfeita, ela girou nos calcanhares como uma soldada treinada e começou a caminhar de volta para a torre.
"Espere", chamou Teferi. "Eu não sabia sobre Ajani."
Elspeth parou e virou-se.
"Nenhum de nós sabia", continuou ele. "Eu estava lá com ele quando aconteceu — quando a completação se instalou. Parecia quase que ele também não sabia."
"Isso não traz conforto", disse Elspeth.
Teferi levou seu tempo para responder. Era simples dizer que a verdade era a verdade. Não é isso que um grande líder, um general calejado pela batalha diria? Não é isso que todos precisavam que ele fosse? Quem era o verdadeiro Teferi? Era Teferi, mago de Zhalfir, que jurou defender seu lar custasse o que custasse? Era Teferi, mestre do tempo, o planeswalker elitista e quase onipotente que achava que todos deveriam simplesmente entrar na linha e segui-lo? Ou era Teferi, o aluno disruptivo, que usava o humor cruel para esconder seus próprios medos de que ninguém jamais o entenderia, de que ninguém jamais o consideraria um amigo?
Saia da sua cabeça . Olhe com seus olhos.
"Você está com fome?" perguntou Teferi.
"Fome?" perguntou Elspeth, intrigada.
"Sim, você comeu?" Teferi passou por ela e fez sinal para que o seguisse. "Acabei de perceber que não comi nem uma migalha desde esta manhã."
"Jodah me forneceu alguns de seus biscoitos."
"Oh, então devemos nos apressar."
Com o ar frio e úmido da noite fluindo através de seus trajes, Teferi conduziu Elspeth pelo cinturão verde até a torre propriamente dita, onde seguiram a parede até um pequeno canteiro de grama encostado na base da torre. Ali, cercado por um globo de energia verde, havia uma profusão de vinhas carregando frutos bulbosos e verde-claros. Teferi colheu um e estendeu-o a Elspeth.
"Mitab", disse Teferi. Ele pegou outro fruto e mordeu-o, deixando os sucos escorrerem pelos lados da boca. Ele tinha consciência de que parecia bobo, nada parecido com a forma como um majestoso Planeswalker de outrora deveria se comportar. "Wrenn e eu fizemos uma breve parada em Jamuraa, minha terra natal, antes de voltarmos para cá."
Elspeth pegou o fruto e levou-o aos lábios. Ela tentou manter o decoro enquanto comia, mas o suco e pedaços de polpa grudavam em seu rosto, não importava o quão cuidadosa fosse. A certa altura, ela desistiu e começou a comer mais rápido, com mais desenvoltura.
"Eu estava com mais fome do que pensava", disse ela.
Teferi olhou para o feitiço que Wrenn tecera para manter seu mitab vivo, apesar do clima inóspito do vale. Ele abaixou-se e pairou a mão dentro dele, sentindo os dedos formigarem enquanto se aqueciam. "Não vou mentir para você", começou ele. "Você tem razão sobre o nosso plano — é como gritar uma prece em meio a um vendaval. Mas é a nossa melhor chance. Temos uma arma capaz de deter os phyrexianos na fonte. No momento, estamos trabalhando em uma forma para que eu aprenda a usá-la. Não é perfeito, mas devo ter fé de que é o suficiente. Para mim, a luta contra os phyrexianos não é sobre ser vitorioso."
Aonde ele queria chegar com aquilo? Ele sempre fora tão preparado. Até mesmo suas brincadeiras exigiam um planejamento extensivo para serem executadas. Mas agora, as palavras fluíam dele, primeiro em um fio, e depois em uma torrente que ele não conseguia controlar. "Tenho uma filha", disse ele. "O nome dela é Niambi, e ela~ Tudo o que estou fazendo é para salvá-la . É para que ela saiba que fiz tudo o que pude para salvar os outros, permanecendo sempre a pessoa que ela conhecia, o pai que ela ama. Se eu vacilar — se eu tiver qualquer dúvida — condeno Niambi neste exato segundo."
"Então você sabe", disse Elspeth. "O terror que vem com a esperança."
Nenhuma resposta era necessária. Os restos do mitab estavam em suas mãos, a polpa comida deixando apenas o núcleo e as sementes. Seus dedos, cobertos de suco, brilhavam à luz das estrelas. Ele colocou os restos da fruta na terra sob as vinhas e limpou as mãos em suas vestes. Com o tempo, o calor do feitiço de Wrenn secaria o núcleo, e os vermes o puxariam para baixo para nutrir novas plantas.
"Eu deveria ir", disse Teferi. "Saheeli está esperando. Posso acompanhá-la de volta ao seu quarto."
Elspeth recusou. "Acho que vou caminhar pelos terrenos por um tempo. Gosto deste clima."
"Então viva, Elspeth. Fique bem e feliz. Viagens seguras."
"Se os phyrexianos ainda estiverem neste plano", disse Elspeth, "é apenas uma questão de tempo até que encontrem este lugar. Você precisará de alguém para defendê-lo se isso acontecer — se eles nos rastrearem."
"Nos?"
"Se você me aceitar."
"Aceitaremos. Com prazer", disse Teferi. "Espero que possamos nos conhecer melhor."
Teferi virou-se e caminhou de volta para a frente da torre. Ele deu apenas alguns passos antes que um clarão brilhante o fizesse olhar por cima do ombro. Ali, Elspeth estava com a espada desembainhada. Do pomo em forma de globo, gavinhas de luz leitosa espiralavam para fora, com uma radiância suave e quente como seus primeiros dias passados sob o sol de Zhalfir.
As dores de seus ferimentos diminuíram e sua mente clareou, trazendo à tona uma memória há muito negligenciada: um bando de carúnculas que visitava regularmente sua casa em Jamuraa. De acordo com seu pai, eram descendentes de um pássaro ferido que ele salvara em sua juventude, um pássaro que vivera sob o teto de sua família como um membro pleno até que o desejo de viajar o obrigara a partir. Nos anos, depois décadas, que se seguiram, o pássaro teve seus próprios filhos que voltavam regularmente por lealdade. Por amor. Era por isso que as árvores nas terras de sua família sempre cantavam.
Eventualmente, Teferi tornou-se um mago de renome, depois um Planeswalker cuja lenda se espalhou por outras nações, outros continentes, outros mundos. Ainda assim, entre travar batalhas amargas e realizar feitos mágicos incríveis, ele lembrava-se da história dos pássaros e encontrava conforto ao ouvir o baixo suave e calmante da voz de seu pai em sua mente.
Eles fazem o que fazem por amor.
A história em si ele descartaria como uma fantasia de seu pai e nada mais — uma extravagância perfeita para crianças que precisavam de uma história para se apegar.
Mas desta vez não. Desta vez, Teferi escolheu acreditar.
Episódio 4: A Tinta dos Impérios
24 de outubro de 2022 • Miguel Lopez
44 AR
A dez milhas das cúpulas douradas de Tomakul, Farid sentou-se no degrau de tiro de uma velha trincheira e usou sua faca para lascar seu ensopado congelado. Alimentadas com hastes de flechas estilhaçadas e pequenos maços de papel de embalagem, as brasas sob a panela de ensopado — seu próprio capacete de latão, com o forro removido — logo fizeram a pasta congelada descongelar e ferver. Sem reverência, Farid sacudiu o resto de seu sal de uma pequena lata no caldo, mexeu e sentiu seu estômago revirar de fome com o leve aroma de alho silvestre e cebolas. O cheiro também atraiu os ratos para fora de seus buracos, mas o frio os tornava lentos. Farid observou um rastejar em direção às suas botas enroladas em trapos e parar para farejá-lo. Era gordo, grande como os gatos dourados que relaxavam nas ruas do distrito dos templos de Tomakul, e portava-se com a mesma confiança lânguida e gingada. Os ratos eram os donos da trincheira; os humanos amontoados nela eram apenas ocupantes temporários, e comida se morressem. Farid o chutou para longe.
Arte de: Thomas Stoop
A trincheira deles tinha quase duas décadas, uma relíquia do início da guerra expandida em algo semelhante às grandes obras de terraplenagem que Farid vira durante a retirada dos territórios trans-Mardun de Yotia. Lá onde o rio Mardun fazia fronteira com Kroog, eles tinham linhas de trincheira reforçadas com torres de pedra baixas. Bunkers que escondiam pesados lançadores de virotes, hospitais subterrâneos e refeitórios, beliches selados contra o clima que eram iluminados e aquecidos por pedras de poder sem fumaça. Mas tudo aquilo estava um ano e milhas atrás dele, abandonado depois que os argivianos e seus aliados começaram seu contra-ataque. A vida no front de Mardun era fria e entediante até deixar de ser.
A guerra de Farid fora uma caminhada de um ano de volta para casa com a morte mecanizada às suas costas e a pestilência onde dormia. Cada ilusão que ele tinha de glória, honra e aventura foi moída em uma farinha polpuda, pressionada na lama junto com a honra e a humanidade. Cada trincheira para a qual a unidade de Farid recuara fora mais velha, mais rasa e encontrada em maior deserto. Quando a guerra esteve pela última vez tão perto de Tomakul, não havia máquinas, apenas soldados de infantaria e cavalaria; apenas os conselheiros mais próximos do qadir sabiam o que era uma máquina dragão, ninguém vira um vingador, e Farid ainda não tinha nascido.
Quando Farid e sua unidade caíram pela primeira vez nesta trincheira, exaustos e ensanguentados pela cavalaria do artífice, encontraram-na como uma vala rasa que se estendia por alguns quilômetros pelo fundo do vale, inundada, lar apenas dos ratos e dos mortos. Eles cavaram na terra, esvaziaram a água e reforçaram esta antiga linha para as realidades da guerra moderna. Agora era o lar, com abrigos subterrâneos para se esconder de bombardeiros ornitópteros em dias claros, armadilhas cavadas por sapadores para afundar vingadores e triskelions que avançavam na lama, e emaranhados de arame-agulha esticados pelo lado frontal para enredar quaisquer inimigos que avançassem.
Seguiu-se um mês de trabalho frio e vida escassa. Conversas borbulhavam pela trincheira sobre um ataque, mas Farid não dava muito crédito a conversas. Soldados conversavam; ataques eram coisas lentas e grandiosas hoje em dia. Eles precisavam de soldados para substituir os mortos e reforçar os vivos e oficiais para berrar e brilhar. Felizmente, parecia que os generais nunca queriam atacar a menos que tivessem pelo menos uma máquina dragão, ou uma divisão dos próprios soldados mecânicos do qadir para tentar romper a linha inimiga.
Então, Farid limpava sua lança, mantinha suas botas remendadas, revezava suas meias e cozinhava. Esta manhã era um ensopado. Quando ficou pronto, Farid despejou uma porção na caneca de Karrak primeiro, depois o resto na sua própria. Farid cutucou seu amigo, que estava sentado enrolado em dois mantos, encarando a parede oposta da trincheira lamacenta e coberta de geada.
Arte de: Bruno Biazotto
"Comida," disse Farid. Ele teve que empurrar Karrak novamente antes que ele percebesse. Karrak olhou, tossiu, pegou o ensopado e comeu.
Farid soprou sua própria caneca, deu um gole e deixou o caldo quente filtrá-lo. Ele mastigou um pedaço de pão encharcado e observou enquanto uma linha de soldados marchava pesadamente pela curva fechada da trincheira. Eles caminhavam em fila indiana, arrastando os pés pelo piso de tábuas para manter as botas livres da lama gelada por baixo. De olhos baixos, os soldados todos pareciam iguais. A lama aqui secava pálida, encrustando suas botas e uniformes de lã, manchando as cores outrora finas do exército Imperial Fallaji de vermelhos empoeirados para tons frios de branco, bege e marrom. Todos usavam seus elmos envoltos em pano escuro, para evitar que o sol brilhasse no latão polido. Eles caminhavam pela trincheira, com passos curtos para não bater nos calcanhares do soldado à frente, arrastando-se para não serem atingidos pelo soldado atrás. Alguns se apoiavam em suas lanças enquanto caminhavam. Todos se curvavam sob o peso de suas mochilas.
"Ei," disse Farid, chamando os soldados que passavam marchando. "Aonde vocês vão?"
Nenhum deles respondeu. Poucos até o reconheceram, e aqueles que o fizeram apenas o olharam com olhos afundados pela fadiga enquanto passavam arrastando os pés. Uma soldado mais velha, cujo casaco ostentava um conjunto de listras de sargento costuradas, passou, e Farid chamou por ela, perguntando para onde estavam indo.
"Abrindo espaço," disse a sargento. Ela parou para ajustar sua mochila, empoleirando-se no degrau de tiro. "Substitutos devem chegar esta tarde."
Farid praguejou. Substitutos. "Eles são humanos?"
A sargento balançou a cabeça. "Tudo o que nos disseram foi para abrir espaço para eles. Você tem mais dessa sopa?"
Foi a vez de Farid balançar a cabeça. "Apenas caldo e ossos agora. O que você tem?"
A sargento pensou por um momento, então vasculhou seu casaco. Ela puxou uma moeda de ouro e a estendeu para Farid. Era uma das antigas, grossa, com o rosto do último qadir cunhado em ambos os lados.
"Para quando você for para casa," disse a sargento. "Viva como um qadir por um dia em Tomakul, ou um imperador por uma semana em qualquer outro lugar."
Farid ofereceu à sargento os restos do caldo. Ela bebeu tudo, então segurou a panela improvisada inclinada para pegar as últimas gotas.
"Aqui, pegue isto," disse Farid, passando à sargento um dos ossos do caldo quando ele terminou. "É frango, não rato."
"Frango! Onde você encontrou um desses?" A sargento, agradecida, pegou um dos ossos.
"Esse milagre eu não posso revelar," disse Farid. "O mestre de suprimentos cortaria minha cabeça por isso." Ele colocou um dedo enluvado nos lábios, então guardou o resto dos ossos de frango em uma bolsa que usava na cintura. "Fique com a moeda. Quando você for qadir por um dia, envie-nos para algum lugar quente para cavar uma trincheira."
A sargento riu. Ela colocou a moeda no degrau de tiro ao lado de Farid de qualquer maneira.
"Para quando você estiver em casa, meu rapaz," disse a sargento, sorrindo.
Farid saudou. A sargento assentiu e apressou-se para se juntar ao resto de seu regimento enquanto eles se afastavam. A unidade passou pela trincheira por mais alguns minutos, os soldados marchando em silêncio, exceto pela tosse e pelo ranger e chapinhar das tábuas encharcadas do piso da trincheira. Os feridos traziam a retaguarda da coluna — aqueles que podiam andar, que ainda podiam carregar e estocar uma lança, eram enviados de volta para a frente — arrastando os pés com as cabeças baixas e os olhos distantes.
"Somos um bando lamentável," disse Karrak. Ele voltara de seu olhar distante. Uma tosse úmida engrossou sua voz. "Você vai pegar aquele ouro?" ele perguntou a Farid, de olho na moeda que a sargento deixara no degrau de tiro.
Farid olhou para a moeda. O sol começara a dissipar a névoa, e o ouro brilhava na luz fria da manhã. Ele a passou para Karrak, que a mordeu e verificou a impressão. Satisfeito, ele a guardou em um bolso profundo em seu casaco.
"Substitutos, ela disse?" Karrak grunhiu.
"Substitutos," concordou Farid.
"Espero que sejam máquinas," disse Karrak. "Algumas de Mishra. Não aquelas coisas mortas." Karrak tossiu. "Não há mais carne para esta besta."
"Eu digo: dê-nos os mortos se isso significar que podemos ir para casa," disse Farid. "Deixe o qadir e seu irmão lutarem esta guerra com seus soldados de brinquedo."
Karrak encolheu-se em seu casaco e estremeceu. Farid estendeu um braço e o puxou para perto. Ele podia sentir o calor que Karrak exalava, como um braseiro cheio até a borda com carvões. A mesma peste que o havia castigado apenas duas semanas antes, Farid imaginou.
Um oficial — um capitão em um uniforme impecável, exceto pelas botas manchadas de lama — trazia a retaguarda dos soldados em marcha. Farid o notou um segundo tarde demais. Praguejando, ele se levantou. Karrak lutou, mas Farid puxou seu amigo para cima e o segurou enquanto o capitão passava marchando. Os dois saudaram e o capitão os ignorou, consultando em vez disso um maço de ordens que um mensageiro lhe passara. O mensageiro, um jovem em um uniforme similarmente impecável, caminhava ao lado, saltando entre o degrau de tiro e a passarela de tábuas acima do chão lamacento da trincheira, tomando notas enquanto o capitão ditava ordens para serem distribuídas a várias unidades ao longo da linha.
Farid e Karrak e o resto dos homens em sua seção ficaram de pé pelo tempo que o capitão levou para passar. Quando o oficial dobrou a esquina e sumiu de vista, eles sentaram-se novamente no degrau de tiro, recostaram-se em seus abrigos e enroscaram-se novamente para dormir.
O frio profundo do inverno penetrou em Farid. Ele velou por Karrak enquanto seu amigo tremia. Oficiais, movimento, substitutos e reforços — atividade. Nada de bom poderia vir da atividade. Atividade significava ação, e ação significava subir a trincheira, em direção às lâminas e ao fogo das máquinas.
Os substitutos chegaram no dia seguinte, curvados sob suas mochilas pesadas, ainda não aliviadas pelas praticidades da guerra. Eles eram humanos, não autômatos de Mishra ou aqueles cadáveres mecânicos fedorentos; uma mistura de homens e mulheres idosos, jovens deslocados vindos dos cantos mais distantes do império, soldados exaustos transportados da recém-pacificada Sarinth e condenados. Os substitutos marcharam pesadamente pelas trincheiras, olhos baixos, sob os olhares silenciosos dos soldados há muito tempo na linha.
Alguns pareciam para Farid como se viessem de Tomakul, embora a maioria dos substitutos parecesse ser do tipo do deserto: magros antes de chegarem à frente, ou engolidos por seus uniformes ou mal conseguindo caber neles. Um punhado de zegonianos passou, conversando em sua língua mansa. Um par de sumifanos largos e tatuados passou marchando, uma canção nervosa em seus lábios que deixava um gosto de ozônio no ar. Uma unidade penal marchou em passo rápido, vigiada de perto por seus guardiões robustos e de língua áspera, todos eles fervilhando com tal mistura de medo, desespero e brutalidade que Farid ficou feliz em vê-los continuar pela linha, sem parar em seu posto.
Alguns dos substitutos portavam-se com um ar de desafio, mas a maioria espiava os capacetes de latão com olhos arregalados, todo piedade e medo; a frente nunca parecia o que você queria. Farid lembrou-se de que esperava ver cavaleiros e campeões e tudo aquilo quando chegou pela primeira vez; em vez disso, encontrou uma cidade comprimida em um canal de pedra cinza e lama com uma dúzia de metros de largura e quilômetros de comprimento, povoada por guerreiros temíveis e belos com armas igualmente temíveis e belas, todos dispostos em direção ao cintilante Mardun e às ruínas de Kroog além do rio.
A verdade era que o front era o inferno: um pesadelo feito por homens. Se você ousasse olhar por muito tempo para sua população, veria o que se tornaria: de olhos encovados e musculosos, cobertos de lama. Soldados esquálidos em uniformes desbotados, remendados e manchados. Farid estava feliz que aquele momento havia ficado para trás. Melhor já ser o fantasma.
Finalmente, os oficiais vieram. Tenentes por suas listras e faixas, conduzindo os substitutos para seus novos postos. Os jovens oficiais carregavam aquela robustez de Tomakul neles e, ao contrário dos soldados que lideravam, realmente usavam capacetes de latão e mantos rosa adornados com tecido dourado. Suas armaduras estavam polidas e eles ainda carregavam espadas. Um oficial se separou da massa de soldados marchando com um esquadrão de substitutos a tiracolo.
"Soldado," o tenente chamou Farid. "Em qual companhia você está?"
Farid levantou-se do degrau de tiro e alisou suas calças. "Companhia D," disse ele, saudando. "Terceiros Lanceiros de Tomakul, comandados pelo Coronel—"
"Certo, tudo bem, isso serve," disse o tenente. "Estes são seus, lanceiro." O tenente acenou para que o esquadrão de substitutos avançasse. "Bem-vindos à companhia D dos Terceiros Lanceiros de Tomakul," disse ele aos substitutos. "Aquele lanceiro será o seu veterano aqui," disse o tenente, apontando para Farid. "Procurem-no para orientação. Estarei no abrigo dos oficiais naquela direção," o tenente gesticulou pela linha. "A parada é uma hora após o amanhecer de amanhã, sob as bandeiras da companhia. Dispensados." O tenente deu um puxão em seu capacete de latão, ajustando-o, e então afastou-se chapinhando pela trincheira lamacenta, deixando os substitutos com Farid.
Assim que o jovem oficial se afastou pela trincheira, Farid praguejou, relaxou de sua postura rígida de parada e acenou para os substitutos se aproximarem. Dez homens — a maioria jovens alguns anos mais novos que ele e um veterano idoso sem um olho — caminharam juntos em um grupo barulhento de casacos de lã marrom, mochilas e lanças longas.
"Bem-vindos ao Front Argiviano," disse Farid. "Sou Farid de Tomakul. Este aqui é Karrak de Suwwardi," disse Farid. "O resto vocês conhecerão em algum momento. Falem com a mestre de suprimentos naquela direção, ela lhes dará o distintivo do regimento e um pouco de linha para costurar a letra da companhia," Farid apontou com o polegar pela trincheira, e os substitutos todos se viraram para olhar. "Algum de vocês é de Tomakul? Ou são todos das tribos do deserto?"
O grupo assentiu. O veterano mais velho encarava o nada com seu olho bom. Ele tinha o mesmo olhar de Karrak — ele estava em qualquer lugar, menos aqui; ele não estava em lugar nenhum.
"Eu nunca tinha saído da cidade antes da guerra," disse Farid para os substitutos reunidos. "Nunca estive no deserto profundo — ouvi dizer que ficava frio à noite, mas nunca esperei isso. Pelo menos a Lua de Névoa é de uma grande beleza." Farid olhou para os substitutos de olhos arregalados. Nada ali além de medo. "Por que estão de pé?" Ele disse a eles. "Peguem um assento, encontrem um beliche."
Havia pequenas cavidades e tocas cavadas na parede da trincheira e reforçadas por tábuas, seus chãos lamacentos cobertos com tiras de juta e roupas rasgadas tiradas de soldados mortos. Os substitutos correram para pegar os bons. Cada abrigo vazio tinha abrigado alguém que subiu o muro e nunca mais voltou, e os mortos sempre deixavam pequenos bibelôs para trás; se você tivesse sorte, poderia encontrar algo valioso para trocar com a mestre de suprimentos por fumo ou nabiz.
"Você já viu o inimigo, senhor?" um dos substitutos mais jovens perguntou enquanto se acomodavam nos abrigos. "Os argivianos e seus demônios mecânicos?" O substituto nadava sob seu manto marrom e não tingido. Ele carregava uma lança, em volta da lâmina da qual estava amarrada uma fina fita de seda rosa. Farid primeiro pensou ser uma lembrança de uma amada que o rapaz havia amarrado, mas ao olhar para as armas dos substitutos, percebeu que todos tinham uma fita semelhante presa às suas lanças. Aquela era a nova marca do regimento, Farid percebeu. Não havia mais capacetes de latão para os lanceiros. O rapaz, como o resto dos substitutos, usava apenas um quepe de campo macio com abas amarradas sobre as orelhas, em vez dos orgulhosos elmos que Farid e o resto dos soldados destacados há muito tempo haviam recebido. Devem precisar do metal para mais autômatos, Farid imaginou.
"Eu os vi," disse Farid. "Suas máquinas também."
"Quantos você já matou?" perguntou o substituto, ansioso.
Farid pensou por um momento, lembrando-se do que podia de seu ano em campanha. Ele deu de ombros. "Acho que não matei nenhum."
"O quê?"
Farid olhou para Karrak. "Você matou algum argiviano? Algum yotiano?"
Karrak, sempre embrulhado, balançou a cabeça. "Nenhum," ele grasnou de seus panos. "Eu vi muitos mortos. Nunca matei um eu mesmo."
"Pensando bem, eu nunca nem entrechoquei uma lâmina com uma lança," disse Farid. Ele exibiu a faca longa que usava ao lado, depois acenou em direção ao seu abridor de latas — uma lança robusta quase tão alta quanto ele, com uma cabeça chata que se estreitava em uma ponta afiada.
"Estes são abridores de latas. Nós os usamos nas máquinas de Urza — embora eu só tenha usado a minha em vingadores caídos e destroços de ornitópteros," disse Farid. "O mais perto que estive de usar isto em uma luta de verdade foi quando seguimos uma unidade de corredores de gadanha em uma trincheira. Todos os argivianos estavam mortos quando chegamos."
"Vi muitos mortos," Karrak concordou.
"Eu te disse." Um dos outros substitutos disse, cutucando seu companheiro. "Ratos de trincheira," disse ele. "Covardes vergonhosos. Não é de admirar que os argivianos tenham nos empurrado tão longe de Kroog — nada além de moradores de cidade moles entre eles e o coração do nosso império."
Farid e Karrak riram. Alguns dos outros soldados que estavam ouvindo riram, balançaram as cabeças e continuaram descansando, comendo ou mantendo seus equipamentos gastos.
"Os argivianos estão a apenas duzentos metros naquela direção," disse Farid, apontando com o polegar sobre o ombro na direção da trincheira argiviana. "Vocês querem invadir a linha deles? Esperem mais uma hora — o sol nascente estará às suas costas e então vocês poderão golpear como o sol do meio-dia na cabeça de um viajante sem água," disse Farid.
"Isso — isso é exatamente o que deveríamos fazer!" O substituto gaguejou. Ele era o mais corajoso de seus companheiros, mas todos eles assentiram junto com ele. "Por que não os estamos expulsando de nossas terras?"
Farid levantou-se do degrau de tiro e deu um passo em direção ao jovem. "Quantos anos você tem?" perguntou ele, avaliando o jovem.
"Quinze," disse o substituto, olhando para o lado, mas sem recuar. O rapaz era cerca de uma polegada mais alto que Farid, que exibia um curvamento permanente após esse tempo nas trincheiras.
"Qual o seu nome, rapaz?"
"Assad."
Farid sacou sua faca. Assad deu um passo atrás, esbarrando em seus companheiros.
Farid sorriu, depois virou-se e enterrou sua faca profundamente na parede de tábuas da trincheira atrás dele. Ele alavancou um pedaço de madeira podre, embainhou sua faca e enfiou a mão na terra. Ele puxou duas mãos cheias de argila da cavidade, cavou mais alguns arranhões e então arrancou algo das entranhas da parede da trincheira. Ele se virou e estendeu um pedaço de osso envolto em trapos, com cabelos emaranhados ainda agarrados aos restos fétidos.
"Você é mais jovem que esta trincheira," Farid jogou o osso no chão, aos pés das botas do jovem. "Mas não por muito." Ele apontou para o osso irregular e encharcado. "Olhe para esse osso. Isso foi uma pessoa — você pode me dizer qual uniforme ela usava?"
O jovem encarou o osso e não respondeu. O resto de seu grupo estava em silêncio.
"Esta terra não importa," rosnou Farid. "Você tem um manto?" Farid perguntou ao grupo. Todos assentiram, alguns até segurando as pontas dos mantos que usavam para mostrar a ele.
"Botas?"
Novamente, os jovens mostraram a Farid as botas simples, mas robustas, que todos usavam.
"Bom," disse Farid. "Ouçam-me e aprendam bem minha lição: seu manto e suas botas importam mais para você do que esta trincheira. Se os argivianos passarem pelo nosso arame, se seus vingadores de metal liderarem o caminho, se parecer que vamos perder esta linha, você pega seu manto e pega suas botas e corre." Farid chutou o osso para fora das tábuas e para a lama encharcada do chão da trincheira. "Sempre há outra trincheira. Pode nem sempre haver outro manto ou par de botas." Ele esperou até que cada um dos rapazes assentisse para ele. "Bom. Lição terminada. Estão dispensados."
Os substitutos se afastaram. Um permaneceu, sem se mover de onde estava: o veterano idoso e caolho. Ele se apoiava em sua lança com o conforto de um assassino.
"Quanto tempo?" perguntou o velho veterano.
"Um ano e alguns meses desde o início do inverno," disse Farid. "Karrak aqui contou três. E você?"
"Perdi meu olho no Cerco a Kroog," disse o velho veterano. "Servi no corpo de suprimentos por um ano depois disso, e então me enviaram de volta para treinar novos guerreiros."
"O Cerco?" Farid sibilou. "Eu era apenas um bebê quando Kroog queimou." Farid acenou para que o velho veterano se sentasse ao lado dele no degrau de tiro. "Qual o seu nome, tio?"
"Aiman," disse o velho veterano, pousando sua mochila. A voz de Aiman era baixa e suave. O velho olhou ao redor da linha de trincheira, absorvendo-a. "A guerra mudou desde a última vez que fiz parte dela," disse ele. "Mais lama." Ele fixou seu olho bom em Farid. "Vocês todos ainda são crianças."
"A guerra do qadir," disse Farid. Ele desviou o olhar e cuspiu. "Todos devemos fazer nossa parte."
Semanas após a chegada dos substitutos, tenentes e capitães corriam de um lado para o outro na linha da trincheira com rastros de oficiais de suprimentos e logística a tiracolo. Mestres de suprimentos resmungando e murmurando foram forçados a distribuir latas de polidor de armadura, luvas novas, quadrados de pano com os quais os lanceiros deveriam remendar seus mantos carmesins, rolos de seda e outras coisas inúteis. Eles também distribuíram rações extras de nabiz e carne de carneiro que foram bem recebidas pelos jovens substitutos, mas que não sabiam o que rações extras de vinho e carne significavam. Pelas manhãs, os soldados eram acordados por mensageiros e seus sargentos para formações de parada, ordenados a se alinharem o melhor que podiam nos confins estreitos da trincheira para apresentações aos majores e coronéis que caminhavam com lenços segurados nos narizes pelos lugares onde os soldados viviam.
Farid, Karrak e Aiman sabiam que isso não era rotina. Os jovens e frescos substitutos não sabiam. Todos pensavam que isso era uma refutação poderosa aos avisos gelados de Farid feitos apenas dias antes. Assad fez questão de dizer isso a Farid depois que sua seção foi dispensada após a inspeção desta manhã.
"Não é tão ruim, esta vida," disse Assad, em voz alta, para a comitiva de recrutas que o seguia. "Você só precisa perder essa moleza da cidade, entende?" Ele exalou um sopro poderoso, enviando uma pluma de vapor rolando no ar frio da manhã. Ele bateu com o punho contra seu estômago firme. "Carregue esse calor do deserto em sua barriga e o amor pelo nosso império em seu coração, e você nunca verá um dia triste nesta força poderosa," disse Assad. "Nosso qadir pretende nos colocar no ataque novamente." Ele olhou para Farid, sorrindo. "E acho que todos aqui deveriam clamar para se cobrirem de glória após este último ano de derrota. A única maneira de limpar essa vergonha é deixar Tomakul para trás e mandar os argivianos correndo, certo rapazes?"
Um grito de alegria subiu entre os substitutos e — para consternação de Farid — até entre alguns dos soldados que estavam na linha há meses. A coragem dos tolos, segunda apenas ao medo, espalhou-se rápido como febres. Apenas aqueles que estiveram na linha para um ataque real e viveram resistiram ao fervor.
Farid não deu atenção a Assad. Ele não era um lutador; além disso, tinha planos a fazer.
Naquela noite, Farid, Karrak e Aiman amontoaram-se em um abrigo profundo e falaram em sussurros apressados sobre uma única vela baixa.
"Hoje à noite, antes do amanhecer," disse Karrak.
"Certo," disse Farid. "O ataque certamente virá até o final da semana. Precisamos ir hoje à noite."
"E como eles saberão que devem nos esperar?" perguntou Aiman.
"Isso eu não posso te dizer," disse Farid. "Ainda não."
"Tudo bem," grunhiu Aiman. "O que quer que me faça passar por isso, não vou reclamar."
"Bom homem," disse Farid.
"Se tem que ser hoje à noite, então em quem confiamos para trazer?" Karrak, cuja febre finalmente havia passado, falou entre a fumaça quente do rolo de trincheira que fumava. Ele o ofereceu a Farid, que balançou a cabeça. Aiman pegou o rolo em vez disso.
"Assad não," disse Aiman. "Ele me lembra demais os que lutaram comigo em Kroog. Todo músculo e nada de pensamento."
"Jamal?" Karrak ofereceu.
"Jamal poderia ser bom," concordou Farid.
"Ele é rápido," disse Karrak. "E silencioso."
"Não," disse Aiman. "Jamal é sarinthiano. O qadir acabou de suprimir a rebelião deles," disse Aiman. Ele balançou a cabeça. "Eu gosto do Jamal, mas ninguém fora da unidade vai confiar nele. Se formos pegos lá fora com um sarinthiano~" Aiman passou o polegar pela garganta.
"Certo, bom ponto." Farid suspirou. Ele passou a mão pela cabeça raspada. "Droga, Karrak. Por que temos que levar alguém novo?"
Karrak balançou a cabeça. "O sargento disse que temos que levar alguém novo para parecer convincente. Diz que o tenente lhe disse que o coronel ordenou que as patrulhas noturnas sejam equipes de quatro." Ele deu de ombros. "Se formos apenas nós três, parecemos suspeitos."
"Tudo bem," disse Farid. "Serão quatro."
"Ehsan," disse Aiman. "Ehsan não é ninguém. Ele fará o que lhe for dito e ficará quieto depois."
"Ehsan?" Farid olhou para Karrak, que deu de ombros. "Perfeito," disse Farid. "Aiman, você vai buscar o jovem Ehsan."
Aiman assentiu e tocou a testa. Ele se arrastou para longe da vela e saiu do abrigo. Farid e Karrak ouviram o som de suas botas marchando pela trincheira. Quando o som desapareceu e eles ficaram sozinhos, Karrak finalmente falou.
"Podemos confiar em Aiman?"
Farid olhou para a aba de lona que cobria a entrada do abrigo.
"Eu confio que ele quer viver," disse Farid. "Igual a você e a mim e a todos os outros que a guerra ainda não matou."
"Tanto faz," grunhiu Karrak em um tom que Farid sabia significar concordância. "Aiman sabe quem é o verdadeiro inimigo."
Uma confusão do lado de fora quebrou o longo silêncio que se seguiu. Botas batendo no chão de tábuas da trincheira, murmúrios animados e pragas. Um grito.
Karrak levantou-se de um salto, a mão na faca longa em seu cinto. Farid disparou por ele, irrompendo na trincheira a tempo de colidir com um grupo de soldados correndo. Todos caíram no chão, praguejando e culpando uns aos outros por sua desajeiteza. Trocando empurrões, eles se ajudaram a levantar e se separaram. Farid gritou pragas para os soldados enquanto eles se apressavam pela trincheira; eles gritaram pragas de volta, mas continuaram pela linha.
"O que está acontecendo?" perguntou Karrak, colocando a cabeça para fora do abrigo. Não era um ataque — se fosse um ataque, seria muito mais barulhento. Isso era outra coisa.
"Não sei," disse Farid. Ele deu um passo para o lado enquanto mais soldados passavam correndo. "Algo naquela direção, talvez uma briga, talvez alguma nova máquina de guerra." Farid estendeu a mão para Karrak. "Você vem?"
Karrak riu e se abaixou de volta para dentro do abrigo, fechando a cortina atrás de si. Um não, então. Farid abotoou seu casaco contra o frio da noite e juntou-se ao fluxo de soldados curiosos que seguiam pela trincheira, arrastando-se com eles através dos zigue-zagues e quebra-explosões. Embora o sol tivesse acabado de se pôr e o mundo acima da trincheira ainda se apegasse à luz do dia, o ventre das obras de batalha já estava mergulhado na noite profunda. As luzes da trincheira zumbiram e brilharam fracas, banhando a escuridão sombria com uma luz quente e vermelho-sangue. Para Farid, aquela luz — destinada a salvar sua visão em caso de um ataque noturno — sempre fazia tudo parecer mais escuro. A este momento, ela adicionava um horror especial.
Murmúrios filtravam-se através dos soldados aglomerados à frente. Um par de soldados agachou-se na borda da trincheira, estendendo as mãos para ajudar a puxar quem quisesse subir. O que quer que atraísse essa multidão acontecia atrás de sua linha; não eram os argivianos.
Quando chegou a vez de Farid, ambos os soldados o puxaram para cima. Eles estavam silenciosos, com rostos sombrios e pálidos. Farid não fez perguntas. Os últimos dedos de luz sumiram abaixo do horizonte. Dezenas de soldados estavam a uma curta distância, suas respirações soltando fumaça branca no céu noturno que escurecia. Luzes vermelhas e verdes brilhavam e deslizavam através das brechas nesta parede de corpos.
Farid foi sozinho juntar-se a eles.
O fedor atingiu Farid primeiro. Como um poço de latrina aberto antes do corpo sanitário chegar a ele, ou um campo de batalha repleto de mortos. Um peso no ar frio da noite. Ele empurrou a multidão, que parecia mais do que disposta a se abrir. Alguns dos soldados até se viraram e começaram a voltar para a trincheira, orações escapando de seus lábios.
O som de correntes e marcha. O estalo do chão gelado pisado por centenas de pés descalços. As luzes noturnas vermelhas e verdes fracas no topo de varas carregadas por seus vigias, luzes de marcação que as criaturas acorrentadas seguiam. Os mortos. Farid sentiu o sangue esvair de seu rosto. Transmograntes. Coisas hediondas e dignas de pena que outrora foram humanas, agora um amálgama apodrecido de carne e máquina.
Sussurros espalharam-se pela linha de soldados que observavam enquanto os transmograntes passavam marchando a menos de dez metros de distância. A obra do protegido de Mishra, aquelas coisas. O destino de qualquer um que morresse na linha, ou daqueles que falecessem por doença, ou daqueles que não quisessem lutar quando as gangues de recrutamento viessem buscá-los.
Os transmograntes estavam acorrentados uns aos outros pelos tornozelos com alguma distância permitida entre eles, mas moviam-se em um passo uniforme, mais perfeito do que qualquer linha treinada de soldados humanos que Farid já vira. Na luz agonizante, ele não conseguia distinguir muitos detalhes daqueles horrores, mas o que viu gravou-se em sua memória. Ele viu pele morta e acinzentada, escoriada pelo frio e pelo sol, esticada e tecida através de metal escuro. Eles caminhavam sem preocupação aparente com o frio. Não carregavam armas, mas garras perversas brotavam de tocos úmidos. Retalhos sem sangue com tufos mortos de cabelo esticados sobre cúpulas de metal polido. Véus de corrente escondendo a ruína de rostos, mas não a respiração quente bufando entre os elos.
O estômago de Farid embrulhou, mas ele não vomitou. O horror do que vira fazia sentido. Era o campo de batalha que ele conhecia, personificado em uma legião decadente de máquinas de matar. Farid teve pena das pessoas que aquelas coisas haviam sido. Teve pena de si mesmo. Ele virou-se para voltar. Quando chegou à trincheira a uma curta distância, oficiais já haviam começado a gritar e berrar para que os soldados voltassem aos seus postos, sob o risco de serem voluntariados para o serviço mecânico.
A noite estava fria. Fora do abrigo de Farid, a trincheira estava viva com movimento. Soldados apressavam-se silenciosamente com caixas de bombas manuais, pontas de lança de reposição, pontas de lança-bomba, virotes perfurantes de armadura, cortadores de arame, pedras de poder sobressalentes e vários outros armamentos.
Um ataque estava chegando. Farid adivinhou que seriam ordenados a subir a trincheira dentro de uma semana. Ele não dormiu, nem Karrak ou Aiman. Em vez disso, com Ehsan sentado confuso, mas silencioso com eles, os quatro lanceiros amontoaram-se sobre uma vela fraca e planejaram uma longa noite.
Farid, Karrak e Aiman, com Ehsan entre eles, moveram-se silenciosa e rapidamente pela trincheira, tomando cuidado para não perturbar nenhum dos soldados adormecidos. Carregavam apenas suas facas, sem lanças, e deixaram seus capacetes de latão para trás, preferindo roupas escuras e quepes de lã macios. Ehsan não fez perguntas, embora Farid pudesse dizer que ele tinha muitas. O rapaz era tão silencioso quanto Aiman prometera, pequeno e rápido, provavelmente não tendo mais que catorze anos.
Farid carregava uma das luzes noturnas com lente vermelha. Ela era alimentada por um fragmento de pedra de poder e brilhava fraca o suficiente para não chamar a atenção, mas brilhante o suficiente para dissipar parte da escuridão profunda da trincheira.
"Esperem aqui," disse Farid, apontando a luz noturna para uma placa de madeira. Aiman colocou as mãos nos ombros de Ehsan para acalmá-lo — ele tinha idade para ser o avô do rapaz, pensou Farid. Karrak segurava um rolo de trincheira entre os lábios, mas não o acendeu.
"Sargento Usman," Farid sussurrou ao entrar nesta seção da trincheira. Ele bateu baixinho nas tábuas do lado de fora de cada abrigo, chamando o nome do sargento. "Sargento Usman, é o Farid da Companhia D, Terceiros Lanceiros de Tomakul."
Um farfalhar, e uma das abas do abrigo se abriu. "Você está atrasado, Farid," disse o sargento Usman, saindo de seu abrigo. "Eu esperava você há uma hora." Ele bocejou, puxou seu quepe em volta das orelhas e cruzou os braços para se aquecer. "Onde estão seus homens?" "Aqui," disse Farid. Ele olhou para trás, para Karrak, Aiman e Ehsan, e fez um sinal para que se aproximassem. Os três moveram-se silenciosamente para se juntarem a eles.
"Bom, quatro, bom," disse Usman, contando o pequeno grupo. "Aqui, um momento." Usman assobiou entre os dentes, um som curto e cortado que se dissipou rapidamente na noite. Outro soldado emergiu de um abrigo com os braços cheios de bolsas macias. Usman pegou-as e passou-as para Farid, que as entregou uma a uma aos seus companheiros.
"Uma bolsa cheia para mim e para os meus rapazes, lembra-te," disse Usman, apontando o dedo a Farid. "Ou eu falo, e tu juntas-te às máquinas."
"Tio, vais estar a torcer quando eu voltar," disse Farid, com um sorriso rápido no seu rosto magro. "Tens a guia de ordem?"
Usman levou a mão ao casaco e tirou um anel de abas finas de estanho. Ele destacou uma e estendeu-a a Farid.
"Vais precisar de pensar numa desculpa para estares atrasado e longe da tua unidade," disse Usman. "But essa guia tornará a tua história credível para qualquer oficial que te possa parar."
"Excelente," disse Farid, estendendo a mão para a guia. Usman não a soltou.
"Uma bolsa cheia," disse Usman. "Se não estiver a rebentar pelas costuras—"
"Tu falas," disse Farid. "Não é a minha primeira vez, sargento, não te preocupes. Terás uma bolsa cheia ao amanhecer."
Usman soltou a guia. Farid guardou-a no bolso e Usman acenou em direção ao degrau de fogo, onde uma escada tinha sido construída na parede da trincheira. "Cortámos o arame esta manhã. Sobe por aqui e mantém-te baixo. Assobia quando voltares."
"Ouvirás uma melodia tão bonita como as flores de Tomakul," disse Farid, afastando-se do sargento. "Rapazes, vamos." Farid atravessou a trincheira e testou a escada. Achando-a resistente, começou a subir. Karrak seguiu-o, com Ehsan e Aiman logo atrás.
Enquanto Ehsan via as botas dos outros homens desaparecerem sobre o parapeito da trincheira, ele hesitou. O rapaz olhou para trás para Aiman, a quem tinha seguido de perto até agora.
"Tio," sussurrou Ehsan para Aiman. "Para onde vamos?"
"Silêncio," sussurrou Aiman.
"Vamos lutar?"
"Não," disse Aiman. "Agora, para cima, pelo topo — e sê rápido, não queremos que nenhum oficial nos veja," disse ele. Deu a Ehsan um empurrão suave, encorajandoo a subir. "Estarei logo atrás de ti."
A guerra tinha arruinado a fé de Farid, mas ele ainda considerava o mundo acima da trincheira como o inferno. Era um lugar desequilibrado. O Paraíso era todas as coisas distribuídas em harmonia e proporção adequada: os equilíbrios de pedra, fogo, céu e água, imbuídos no corpo e na alma de alguém, na terra e nos sonhos.
A terra de ninguém, então, era o oposto, um cadinho no qual as pessoas eram alimentadas e fantasmas emergiam. Era um inferno do corpo, da alma, dos sonhos e da terra. Estava mais frio aqui em cima do que nas trincheiras: cada superfície estava exposta ao vento cortante do vale e aos olhos vigilantes dos soldados de ambos os lados. Nada restava da floresta que outrora preenchia este vale. As árvores que não tinham sido colhidas antes de este vale se tornar um campo de batalha eram agora tocos enegrecidos pelas cinzas. O rio que outrora corria aqui fora represado algures perto de Tomakul para negar aos argivianos qualquer uma das suas riquezas. Das cidades que outrora pontilhavam o vale, restava apenas um único muro de pedra baixo e irregular. Era um ponto de referência para os soldados: quão longe do muro se moveu alguém num ano? Quão perto dele?
Arte de: Sergey Glushakov
Farid liderou o seu pequeno grupo através desta paisagem alienígena, movendo-se tão rápida e silenciosamente quanto podia enquanto rastejava, com a barriga rente ao chão, guiando o seu grupo contornando o pior dos mortos e as crateras inundadas com água azeda. Atravessava-se esta paisagem infernal saltando entre crateras e ao longo de passarelas de tábuas velhas e decadentes, colocadas por forças em avanço em ataques há muito esquecidos. Uma passarela tinha os cadáveres dos seus construtores a apodrecer ao lado, adornados com guias de ordem deixadas sobre eles por soldados de ambos os lados, gratos pelo seu sacrifício em tornar este lugar mais navegável.
Eles alcançaram o seu primeiro ponto de referência sem incidentes: um tóptero bombardeiro abatido, uma pesada embarcação voadora argiviana que se assemelhava a um pássaro de barriga gorda. Os quatro rastejaram para dentro através de uma fenda na sua fina fuselagem de metal.
"Tosse maldita," disse Karrak. Ele chiou, lutando para respirar.
"Tira um momento," disse Farid. "Todos vocês, tirem um momento para descansar aqui."
"Como uma gaivota errante," disse Aiman, espreitando através do vidro empoeirado do compartimento da tripulação do tóptero. "Grandes pássaros que voavam ao lado do navio do meu pai." Ele falava em voz alta, mas para Farid parecia que falava apenas consigo mesmo. Aiman olhou através dos destroços em direção às linhas argivianas. "Eu nunca os vi aterrar. Nunca pensei que pudessem."
"Onde estamos?" disse Ehsan. A sua voz ainda era aguda e suave, muito a de uma criança.
"Mais baixo do que os Nove Infernos," resmungou Karrak. Ele pousou a sua mochila pesada no chão húmido do tóptero, gemendo de alívio com o peso fora dos seus ombros. Com uma mão a esfregar a garganta, ele subiu até Aiman e tocou-lhe no ombro. "Deixa-me ver."
Farid ofereceu a Ehsan um gole da sua água. O rapaz aceitou, bebeu e devolveu-a.
"A cerca de cinquenta metros naquela direção — para onde Aiman e Karrak estão a olhar — está a linha argiviana," disse Farid.
Ehsan olhou de olhos arregalados em direção às linhas inimigas.
"Não te preocupes," disse Farid. "Não vamos atacar" — ele indicou as mochilas que Karrak e Aiman carregavam — "Vamos negociar. Tudo o que temos de fazer é pendurar esta bandeira aqui," disse ele enquanto tirava um pequeno pedaço de pano branco de um bolso do seu casaco. "E esperar."
"Acho que nunca vi um argiviano antes," disse Ehsan. "Estava a perguntar-me como mataria um sem uma lança — os oficiais disseram que eles são feitos de metal, e tudo o que tenho é esta faquinha."
"Não é com as pessoas que te deves preocupar," disse Karrak.
"Eles morrem tão rápido quanto flores cortadas," disse Aiman, concordando. "Tal como nós."
"Não vamos matar ninguém," disse Farid, silenciando o grupo. "Podes manter essa faca escondida, Ehsan. Não vais precisar dela, a menos que seja para cortar chocolate ou salsicha."
Ehsan sorriu à menção de chocolate. Farid percebeu que tinha passado muito tempo desde a última vez que Ehsan sorrira. Na verdade, tinha passado muito tempo desde que Farid sorrira. Era preciso humanidade para sorrir e ser sincero, e Farid não tinha nenhuma. Isso não era uma condenação; era uma admissão, um ato necessário de sobrevivência. Concentra a tua visão na tarefa em mãos e sobrevive.
Farid, rapidamente, pendurou a tira de pano no exterior do tóptero despenhado, virada para as trincheiras argivianas. Depois, acomodaram-se para esperar.
A noite fria antes do amanhecer era interminável, estendendo-se por este vale destruído de Tomakul a Kroog e mais além. Ela penetrava nos corações e desejos de cada senhor adornado de joias e imperador faminto de poder, inundava os seus olhos como sangue no leite. Ansiosos, eles ergueram-se e enviaram um milhão dos seus filhos para alimentar o apetite da noite, que era agora indistinguível do seu próprio.
Farid era apenas um entre milhões. Os príncipes do mundo veriam a alma de Ehsan adicionada à contagem do carniceiro e, imperturbáveis, pediriam mais um milhão.
Ele olhou para Ehsan, estendeu a mão e deu um tapinha na sua bochecha.
"Não precisas de te preocupar," disse ele. "Vais ficar bem."
E então uma explosão ecoou algures à distância, seguida por uma série de estalos agudos e assobios longos e sibilantes. Sinalizadores de localização lançados de ambos os lados iluminaram uma seção da trincheira e da terra de ninguém a uma milha e meia de distância, longe o suficiente para que a luz da ignição dos sinalizadores brilhasse um batimento cardíaco antes do som da sua detonação. Eles podiam ouvir os ecos de gritos distantes algures pelo vale, mas não conseguiam distinguir de que lado vinham os clamores.
"Abaixo," sibilou Farid. Ele moveu a palma da mão para baixo e pôs um dedo nos lábios. "Abaixo, agora!"
Os quatro caíram na barriga sombreada do tóptero despenhado, com as mãos sobre as cabeças, e esperaram. A luz dura e constante dos sinalizadores de paraquedas lançava sombras nítidas e pesadelares através do vidro rachado e sujo do compartimento da tripulação do ornitóptero e das janelas de bombardeio. Aquela luz era implacável, branca e furiosa, o olhar de um deus que só conhecia o fogo.
O trovão silenciou-se. Não era uma batalha, apenas uma luta sem importância. Farid soltou um suspiro longo e trémulo. Ele contou enquanto a luz dos sinalizadores se desvanecia e a noite regressava.
"Eles vêm aí," disse Aiman. Ele espreitou através da cúpula de vidro empoeirada do tóptero. "Vejo pelo menos quatro deles, a trinta metros de distância."
Farid olhou para Ehsan, que se tinha rastejado para um canto, de rosto pálido e a tremer. O seu sorriso esperançoso tinha desaparecido. O rapaz sabia que nunca ficaria bem. Mesmo que por algum milagre Farid pudesse ressuscitar este ornitóptero e voá-lo para casa, Ehsan nunca voltaria a ser uma criança. Nenhum deles poderia recuperar o que lhes tinha sido arrancado. Era fácil tornar-se um do próximo milhão, mais difícil resistir ao ímpeto de senhores e imperadores. A menos que—
"Karrak," disse Farid. "Vai saudar os nossos amigos."
Os argivianos falavam um pouco de Fallaji, e da mesma forma Farid, Karrak e Aiman sabiam um pouco de argiviano. Quatro argivianos subiram para os destroços do bombardeiro. Um deles tirou um cantil cheio de algum licor acre, Karrak tirou os seus rolos de trincheira, e os soldados começaram a conversar, a brincar e a trocar pequenas coisas. Embora hesitante no início, Ehsan logo se juntou aos outros, e os oito soldados juntos fizeram uma fuga calorosa da guerra. Nos destroços do ornitóptero abatido, este pequeno grupo bem poderia ser de conhecidos confortáveis num café em Tomakul ou numa casa de chá em Argive; se Farid fechasse os olhos, quase poderia imaginar um mundo fora deste.
"Quero pedir desculpa por estar atrasada," disse a líder argiviana num Fallaji com um sotaque leve. Era uma mulher castigada pelo vento que lembrava Farid da sua mãe. Severa, mas ele conseguia ver as linhas de riso marcadas no seu rosto. Laria, Farid lembrou-se do nome dela.
"Atravessar a nossa linha foi difícil," disse Laria. "Muitos oficiais. Muitos novos." Ela apontou para os olhos e depois para o seu grupo. "Eles não confiam em nós, por isso vigiam."
Karrak resmungou. "Parecem oficiais," disse ele, falando o seu próprio argiviano rústico. "Sempre à procura de usar as suas espadas."
Os argivianos riram discretamente. Laria sorriu. Ela olhou para além de Farid e Karrak para Aiman e Ehsan, que, embora fizessem parte do grupo, se tinham mantido calados. "E quem são eles?"
"Este é o Ehsan," disse Aiman, falando antes que Farid pudesse fazê-lo. O argiviano do velho, embora com sotaque, era perfeito; ele falava com o conforto de quem tinha ouvido uma língua jovem e crescido com ela por perto. "Ele é novo na linha, de Tomakul. O meu nome é Aiman. Não sou novo na linha, embora me considerasse reformado da guerra há muitos anos, depois de ter sido ferido."
"Fala bem a nossa língua," disse Laria. Ela mudou para o argiviano e apresentou-se. Farid apenas captou algumas palavras enquanto ela e Aiman mantinham uma conversa rápida e gregária. Farid observou os dois a falar e sentiu uma espécie de esperança distante. Aiman, tal como Ehsan, ainda conseguia inflamar-se na pessoa que era antes da guerra — a única diferença era que ele já tinha passado por isso antes. O velho tinha sido empurrado para o inferno, quase reduzido a farrapos pelas máquinas de morte ali presentes, e ainda sabia como fazer alguém rir. O seu sorriso não era doce; faltavam-lhe muitos dentes e as cicatrizes que se estendiam do seu olho arruinado puxavam o canto da sua boca. Mas era um sorriso lindo. O riso suave de Laria era o som das irmãs e da mãe de Farid a amassar massa.
Este momento era bom. A guerra não fez este momento acontecer; ele aconteceu apesar da guerra. Farid olhou do sorriso quebrado de Aiman para o cabelo grisalho de Laria, do rosto cadavérico de Karrak para a testa enfaixada do soldado argiviano com quem comparava e trocava facas. Farid não era um poeta, mas a beleza deste momento ficou com ele. Ele confiou à memória a tragédia desta pequena paz: o sangue deles era a tinta com que senhores e imperadores reescreviam as fronteiras do mundo.
"Está a aproximar-se o amanhecer," disse Laria depois de passarem algumas horas agradáveis. Os oito estavam agora bastante confortáveis, com os elmos de lado e as mochilas empilhadas, carregadas com os bens que todos trouxeram para trocar. "Devemos voltar."
Agora , pensou Farid. Os poderosos não podiam escrever sem tinta; rouba-lhes o seu meio. "Vem aí um ataque," disse Farid. "Os nossos oficiais têm estado a preparar um assalto. Em toda a frente."
Laria levantou uma sobrancelha. Ela olhou para os seus soldados, que pararam enquanto ajustavam as suas mochilas.
"Farid," disse Karrak, falando em Fallaji. "Isto pode matar-nos."
"Silêncio," retorquiu Farid.
Karrak calou-se, de olhar carrancudo. Farid ignorou-o e continuou, mudando novamente para o argiviano.
"Os nossos generais trouxeram um regimento inteiro de transmogras — os mortos do qadir," disse Farid. "Aquelas sedas e kits que vos demos? Entregaram-nos a nós há apenas alguns dias. Deram-nos vinho e carne. Trouxeram milhares de substitutos de todo o Império," disse ele, gesticulando para Aiman e Ehsan.
Laria assentiu. Qualquer soldado há tanto tempo na linha sabia o que rações extras e movimentos de tropas significavam. "Obrigada, Farid," disse ela. Olhou para Aiman e falou com ele em argiviano, demasiado rápido para Farid compreender. Aiman respondeu, Laria sorriu e, com uma saudação, ela e as suas tropas deixaram o ornitóptero.
"O que é que ela disse?" perguntou Farid a Aiman.
"Estátuas de argila," disse Aiman.
"O quê?"
"O general deles," disse Aiman. "Um homem chamado Tawnos. Ele é um artífice ao serviço do seu Lorde Urza. Trouxe consigo uma dúzia de unidades dos seus Soldados de Argila." Aiman acenou em direção à linha argiviana. "Laria disse que eles sabem que o nosso ataque está a caminho. Têm estado a preparar-se há semanas. Vai ser um massacre de ambos os lados," disse Aiman. "But se ficarmos para trás, disse ela, será apenas um massacre de máquinas."
Farid expirou. Tinha estado a suster a respiração durante todo o tempo sem se aperceber. Olhou para Karrak, que estava pálido.
"Temos de guardar isto para nós," disse Karrak. Olhou para Aiman e Ehsan. "Não podemos contar a ninguém."
"Eu sei," disse Farid.
"Se mais alguém descobrir que sabemos disto," sussurrou Karrak, "seremos enforcados como traidores, se não morrermos primeiro."
"Sim," Farid assentiu. Fechou os olhos e suspirou. Apertou a testa. "Tudo bem. Mantemos isto entre nós, de acordo?"
"Sim," disse Aiman. Murmurou uma oração rápida.
"De acordo," disse Karrak.
Ehsan não disse nada, mas assentiu.
"Bom," disse Farid. Estava longe de ser bom, mas era o suficiente.
Enquanto rastejavam, silenciosos e sobrecarregados, através da lama fria de volta à sua trincheira, Farid lutava com a esperança. Que outra escolha têm as pessoas descartáveis do mundo? Os homens acima deles tinham armas, ouro, bênçãos dos deuses — tudo o que Farid tinha era o seu corpo. Tudo o que podia fazer era recusar ser tinta e tentar salvar aqueles que ainda podiam ser retirados da noite.
A ordem de ataque veio dois dias depois.
Os apitos do oficial lançaram a manhã fria numa clareza ofuscante. Um único propósito agora: sobreviver e avançar. Farid estremeceu quando outra barragem de feixes de energia e obuses retumbou no ar, assobiando e gritando pelo céu. A terra tremeu, o seu coração batia contra a sua couraça.
A primeira vaga já tinha passado pelo topo, apenas um punhado da seção de Farid voltando a cair na trincheira, cravejado de virotes. A segunda vaga estava pronta no degrau de fogo; Farid, Karrak, Aiman e Ehsan estavam na última vaga do dia, ombro a ombro com os outros soldados da Companhia D, Terceira lanças de Tomakul. O medo fétido e a respiração superficial anuviaram o ar acima deles. Alguém vomitou, como alguém sempre faz. A perna de Farid não parava de tremer.
Um som como um trovão ecoou no ar, constante e de fazer estalar os ossos. Pesados lançadores de bombas, catapultando obuses por cima das cabeças de algum lugar bem atrás da linha. Farid já tinha visto aquelas máquinas antes: pareciam-lhe besouros com chaminés eriçadas nas costas — canhões, chamavam-lhes os engenheiros e artífices. Estavam a disparar há quase uma hora agora, fustigando a linha argiviana com explosões e estilhaços. Fumo acre flutuava de volta. Embora não pudesse ver de dentro da trincheira, Farid conseguia cheirar o fogo furioso e terrível. Eles continuariam aquele bombardeamento até a primeira vaga estar quase em cima das linhas argivianas.
Arte de: Campbell White
Um oficial estava diretamente atrás de Farid, de espada desembainhada, e berrava sobre glória e honra e empurrar os cães argivianos de volta ao Mardun. Prometeu ao primeiro soldado da sua companhia a chegar à trincheira argiviana um saco de moedas de ouro, uma recomendação a qualquer um que capturasse uma bandeira argiviana. Se restassem cobardes para trás, prometeu fazê-los provar o aço de Tomakul.
As vidas da Companhia D estavam empacotadas nas suas costas. Se este ataque fosse bem-sucedido — o que os oficiais exigiam e lhes asseguravam que seria — então eles mudariam para a trincheira limpa. Se morressem, então seria fácil para os intendentes e oficiais de mantimentos fazerem a recolha. A Companhia D usava os seus casacos, as suas facas longas, gorros de latão se os tivessem ou coberturas de campanha macias se não tivessem. Carregavam as suas lanças curtas e bandoleiras de pontas extras com bombas, maças, pregos de trincheira. Tudo para os tornar melhores assassinos.
Os lançadores de bombas silenciaram-se, os últimos relatos de obuses ecoando pelo vale.
Outro apito. O latir dos sargentos e o gritar dos oficiais conduziram a segunda vaga para cima, a partir do degrau de fogo, pelas escadas, por cima do parapeito da trincheira e para o fumo rodopiante. Nenhuma terra além do parapeito da trincheira, pensou Farid enquanto subia para o degrau de fogo. Ele gritou junto com o resto dos homens, gritou até a garganta doer para que os oficiais não se virassem contra ele. Aiman berrou, a voz de Ehsan falhou e vacilou. Karrak praguejou vezes sem conta.
Eles eram os próximos.
"O que fazemos?" Ehsan olhou para Farid, agarrando a sua lança com os nós dos dedos brancos.
"Vamos devagar," sussurrou Farid. Não era seguro falar ali. "Fica comigo. Sê a minha sombra. Não vás a lado nenhum onde eu não vá. Se eu morrer, procura o Karrak ou o Aiman." Farid olhou para Ehsan. "Se não conseguires encontrar nenhum de nós, baixa-te e fica em baixo até à noite. Não lutes, apenas mantém-te vivo."
Ehsan assentiu. Aproximou-se de Farid, que lhe pôs um braço sobre o ombro.
"Prepara-te, lanceiro!" gritou o oficial atrás deles, batendo no braço de Farid com o plano da sua espada. Farid praguejou e retirou o braço do ombro de Ehsan.
Shouts up and down the line. Runners hurrying with last-second orders. Officers clenched whistles between their teeth but did not blow, reading the small scrolls.
O vento mudou. O fedor podre de decomposição lavou a trincheira vindo de trás, enquanto os oficiais gritavam aos seus soldados para colocarem as suas máscaras. Farid e o resto da companhia puxaram as suas máscaras de murça das suas bolsas e amarraram-nas. O tecido era macio e pouco fazia para banir o fedor de fazer chorar os olhos dos transmogras. Libertos das suas correntes, eles caminhavam num passo cadenciado e arrastado sobre pontes de tábuas estreitas colocadas sobre a trincheira. Exceto pelo som dos seus pés nus de carne e metal a bater na madeira ou a chapinhar na lama fria, estavam silenciosos.
Farid, felizmente, não estava debaixo de uma das pontes. Arriscou um olhar para a passagem mais próxima e assistiu com horror ao avanço dos transmogras; embora produzidos em massa em alguma fábrica de carniça, cada um parecia um corpo único, um casamento singular de carne morta e ferro. Eram cada um um pesadelo.
Farid apertou mais a sua máscara de pano e fixou os olhos diretamente na escada à sua frente. Quando o apito soou, ele subiu, empurrado por aqueles que vinham atrás dele. Perto do topo da escada, estendeu a mão e pegou na mão de Karrak, puxando-se para cima do parapeito da trincheira. Virou-se e ajudou Ehsan a subir, e depois deixou o oficial para trás a valer-se por si próprio.
Arte de: Daarken
A carga era lenta apesar do grito dos apitos dos oficiais e do clamor rouco da terceira vaga. O fumo flutuava sobre tudo, encolhendo o seu mundo a um anel nebuloso de uma dúzia de metros de diâmetro. Farid, Aiman, Karrak e Ehsan moviam-se lentamente para a frente, com as lanças niveladas, espaçados apenas por alguns pés, marchando em vez de correr em direção à linha argiviana. Uma dúzia ou mais de lanceiros caminhavam em formação ao lado deles, desaparecendo no fumo de ambos os lados. Um oficial caminhava atrás deles, de espada desembainhada.
"Calma rapazes," disse Farid. "Calma. Cuidado onde pisam." Uma chuva quente caía, lama e água despencando do poderoso bombardeamento da manhã. Aqui e ali, deparavam-se com os corpos caídos dos seus camaradas, despedaçados e queimados. Vítimas dos obuses que falharam o alvo e caíram entre as suas próprias fileiras.
A carga através da terra de ninguém era um lento tombar de equilíbrio e recuperação. Escorregavam e deslizavam por crateras lamacentas e usavam as suas lanças como cajados. Gritos ecoavam por toda a linha, vindos do fumo ao longo do avanço. Juntos, atravessaram o campo de crateras e passaram pelo ornitóptero em ruínas. À frente estava silencioso, sem o som habitual de batalha. Nenhuns gritos de dor ou medo, nenhuns brados, nenhum choque de metal em metal, nenhuns grandes estrondos e relatos de bombas ou as armas massivas das máquinas. Apenas o crepitar do fogo, o tilintar suave do seu equipamento e o encorajamento silencioso dos oficiais atrás.
Alcançaram a trincheira argiviana e encontraram-na vazia. O seu bombardeamento tinha sido eficaz e terrível, transformando as fortificações bem projetadas numa confusão de arame, madeira queimada e equipamento abandonado. Alguns soldados Fallaji ligeiramente feridos da primeira e segunda vaga estavam sentados a fumar ou a descansar em caixotes capturados de equipamento argiviano. Saudaram a terceira vaga com acenos exaustos e vivas sardónicos.
"Onde estão os argivianos?" gritou um tenente para os soldados feridos. "Onde está o inimigo?"
"A frente moveu-se," disse uma cabo ferida. Ela apontou com o polegar por cima do ombro, pelo vale abaixo em direção ao distante Mardun. "O resto do Terceiro seguiu para a próxima trincheira. Parece que os argivianos estão a fugir de volta para Kroog."
O oficial bateu com os pés e espumou de raiva, depois ordenou à Companhia D que verificasse a trincheira enquanto ele ia descobrir o que deveria fazer. Farid, Karrak, Aiman e Ehsan foram juntos, os quatro vagueando por uma seção da trincheira que estava em grande parte intacta.
Descobriram que era um espelho da sua própria. Abrigos e pequenas câmaras para os soldados se agacharem e dormirem. Prateleiras vazias onde teriam guardado armas para acesso rápido caso um ataque ocorresse. Muitas pequenas coisas deixadas para trás na pressa de fugir. Nem uma única alma restava. Farid e Ehsan encontraram um transmogra que tinha caído na trincheira e se partira ao meio. Farid espetou-o com a sua lança, pensando em acabar com a miséria da besta, mas esta apenas agarrou a arma e virou o seu olhar sem olhos para ele. Farid soltou a sua lança e recuou cambaleante. O transmogra estremeceu, como se tentasse levantar-se, mas não emitiu som algum. Aiman puxou Ehsan para longe do transmogra, conduzindo-o sem palavras antes que o rapaz pudesse tentar usar a sua própria lança na criatura caída.
"Ei, Farid," chamou Karrak. Estava a meio de um abrigo, com a lança debaixo do braço. "Vê o que eu encontrei." Ele ergueu um pequeno pacote de papel, preso com um retalho de tecido familiar. Farid aproximou-se e viu que era uma tira de seda Fallaji — um dos cintos que tinham trocado com Laria e os seus soldados.
"O que é?" perguntou Farid.
"Nem ideia," disse Karrak, oferecendo-lho.
Farid pegou no pacote. Por um momento, temeu que fosse uma armadilha, mas esse momento passou. Karrak, Aiman e Ehsan rodearam-no, curiosos. Farid puxou a seda, guardou-a no bolso e desembrulhou o conteúdo, revelando um pequeno pedaço de chocolate e uma nota.
A nossa gratidão , escrita em escrita Fallaji por uma mão argiviana.
Farid sorriu. Uma coisa pequena e humana. Tinta, manchando a página.
Os apitos dos oficiais recomeçaram. Em frente, a ordem.
A onze milhas das cúpulas douradas de Tomakul, a frente estava em movimento mais uma vez.
44 AR
Teferi apareceu à noite num lugar muito parecido com o inferno. O fogo ardia baixo em todos os lados do local onde ele surgiu em coerência. Estava grato por, como espírito, não poder cheirar o que via: os mortos estavam tão densamente amontoados que em alguns lugares não havia chão visível, apenas corpos sobre corpos. Máquinas arruinadas estalavam e arrefeciam. Obras de terraplenagem, outrora poderosos testemunhos de engenharia e brilhantismo humano, estavam vazias e abandonadas. Um campo de batalha à noite, após algum preço sangrento pago. Teferi olhou em volta, com o rosto sombrio, e tentou orientar-se; os últimos dois saltos tinham-no abalado.
A Última Batalha teve lugar em Argoth, uma ilha despedaçada e enterrada pela explosão do sílex. Histórias registadas por sobreviventes noutros locais de Terisiare falavam dela como uma joia verdejante, o último lugar verde onde os irmãos lutaram. Este lugar não era isso. Um pedaço de muro erguia-se sozinho num vale despojado de árvores e vegetação, reduzido a lama e cruzado por trincheiras bordeadas de arame. Fogos ardiam em qualquer superfície que pudessem consumir. Não era Argoth; provavelmente algures no continente.
O nó do tempo em torno da Última Batalha era um pântano confuso de laços recursivos, potencialidades e caminhos ramificados. Navegá-los, mesmo com a ajuda da brilhante Âncora Temporal de Saheeli, era um pesadelo. Ou Teferi pensava que era, até se realinhar aqui neste campo de batalha. Este era o verdadeiro pesadelo. Pior até do que as ruas em chamas de Kroog. Tinha regressado abalado dessa experiência, mas o tempo — mesmo para ele, e mesmo com a âncora à sua disposição — estava a esgotar-se. Tinha de regressar, rapidamente.
Teferi adivinhou e, contra as objeções de Kaya e Saheeli, tinha acionado a âncora mais uma vez, procurando a Última Batalha no emaranhado múltiplo de tempo que era a Guerra dos Irmãos. No papel, a sua busca era bastante simples: encontrar o que ele passou a pensar como "tempo manchado", onde dezenas de milhares de vidas se encontraram e chegaram ao fim. O tempo manchado parecia a Teferi como buracos roídos numa cortina pendurada, ou estrelas no céu noturno. A sua causa era a grande morte — as infinitas possibilidades de todas aquelas vidas terminarem num momento, levando consigo um pedaço da grande tapeçaria do tempo.
O tempo estava a esgotar-se; o momento que Teferi procurava era difícil de encontrar. Ele era apenas um observador; não era um deus. Todas as outras possibilidades estavam a fugir dele.
O que sabia ele da Última Batalha? Urza trouxe um colosso de pedra e ferro, e este lutou contra um titã de madeira e resina e os mortos de Argoth. Depois, Urza e o sílex mataram o mundo.
Teferi deslizou sobre o chão, dando a si mesmo alguns minutos antes de voltar e tentar novamente. Não viu um colosso de pedra ou uma criatura florestal titânica, como o poema de Kayla mencionava. Não havia oceano. Apenas lama e os mortos.
E os saqueadores.
Teferi não os viu quando chegou, mas via-os agora. Figuras solitárias espreitavam pelo campo, curvando-se de vez em quando para examinar um corpo. Sozinhos ou em pequenos grupos, arrastavam corpos atrás de si, empilhandoos em carroças que outros levavam para a noite. Alguns recolhiam as partes arruinadas de autómatos caídos, arrancando pedras de poder das tomadas e retirando articulações de corpos despedaçados.
Arte de: Peter Polach
"Quem és tu?"
Se Teferi tivesse sangue, este teria gelado. Ele virou-se, lentamente, e olhou para o rosto horrivelmente aumentado de um dos saqueadores de túnica preta.
"És tu o do nosso sonho?" sussurrou a pessoa. Deram um passo em frente, um zumbido e um clique profundos emanando deles. Os seus olhos eram lascas negras de vidro inseridas profundamente em órbitas inchadas e vermelhas. A sua boca não tinha lábios, não tinha dentes, substituída por um cilindro cravejado e rotativo que clicava finas tiras de metal enquanto girava. O som era plano, suave e horrível.
Eles não pareciam estar com dores. Em vez disso, parecia que estavam a sorrir.
Teferi derivou para trás, evitando o saqueador enquanto este se estendia em direção a ele. A bainha da sua manga caiu, revelando um braço que terminava num aglomerado de dezenas de pequenos manipuladores de preensão.
"Irmãos," gritou o saqueador. "Estão a vê-lo?"
Teferi tinha visto o suficiente. Esta não era a Última Batalha, apenas uma nota de rodapé perdida no grande vazio na tapeçaria do tempo que foi a Guerra dos Irmãos.
Era hora de ir.
Capítulo 2: Antiguidades
24 de outubro de 2022 • Reinhardt Suarez
Depois que Kroog foi destruída enquanto a maioria de seus defensores estava ao seu lado, Urza jurou que nenhum de seus aliados precisaria temer novamente por sua própria defesa, mesmo enquanto sitiavam uma cidade longe de seus lares.
—De uma anotação anônima em A Guerra das Antiguidades , de Kayla bin-Kroog, Edição Fólio
Dominária, Dias Atuais
Saheeli havia perdido a conta de quantas vezes testara a Âncora Temporal, começando logo após sua chegada a Dominária há apenas algumas semanas. Aquela primeira iteração, baseada pesadamente em plantas dadas a ela por Jodah, fora um desastre total. Aparentemente, os planos pertenciam a um velho amigo artífice de Teferi, que ele insistia ter feito sua engenhoca funcionar. Saheeli não via como. Em cinco minutos, ela detectara falhas gritantes no design, muitas orientadas em torno de uma alarmante falta de proteção para o ocupante. Então, ela o descartou e começou de novo. Infelizmente, sua sorte não mudou muito com seu próprio design.
Mas ela não podia desistir. Isso não era uma opção.
Saheeli recuou de sua versão mais recente da Âncora Temporal, em forma de espiral como os redemoinhos de éter que dançavam no alto dos céus de Kaladesh. Ela acionou o interruptor em seu painel de controle, completando o circuito da pedra de energia — outrora a fonte de energia de uma lendária nau voadora chamada Bons Ventos — até a junção central da âncora. A pedra de energia, pulsando com uma intensa luz branca, oscilou enquanto enviava energia através de bobinas de cobre firmemente enroladas para cada subsistema.
A atenção de Saheeli permaneceu no subsistema principal no coração da âncora, um artefato que Teferi brincando chamava de "caixão" que preservava as operações corporais de uma pessoa enquanto em estase. Em contraste com o dispositivo original detalhado nos planos de Jodah, a Âncora Temporal de Saheeli não transmitia matéria através do fluxo temporal. Em vez disso, projetava o espírito de uma pessoa para trás no tempo, uma função na qual Teferi insistira para impedir que o crononauta — ele mesmo — interferisse em eventos passados.
Separar com segurança um corpo e uma alma era uma tarefa difícil, com a qual Saheeli não tinha experiência. Felizmente, ela tinha Kaya no grupo. Ao estender sua forma fantasmagórica sobre o caixão com Teferi dentro, Kaya podia torná-lo inteiramente incorpóreo, perfeito para a âncora realizar seu trabalho.
"Pronta?" disse Saheeli.
Kaya assentiu e entrou no átrio onde o caixão estava suspenso. Ambas as Planeswalkers mantiveram os olhos fixos na rede de antenas no topo da âncora, um conjunto que focava energias temporais em outro dos artefatos de Teferi, um que ele chamava de Chave de Prata Lunar. Nenhum desses nomes importava para Saheeli. Os artefatos eram simplesmente componentes que contribuíam para um todo maior.
A temperatura da sala subiu e a umidade aumentou conforme a energia fluía pela âncora. Um aroma doce e pungente encheu o ar, como após uma tempestade. Pequenos traços de eletricidade dançavam nas bordas de filigrana da âncora, subindo em direção à rede de antenas como um enxame de vaga-lumes. Um condutor de energia, como um feixe de luz através da fumaça, começou a se formar entre a rede e a Chave de Prata Lunar.
Aquela era a deixa de Kaya. Sua forma tornou-se nebulosa enquanto gavinhas violetas de energia mágica a envolviam, estendendo-se sobre o caixão e tudo o que estaria contido lá dentro. Um momento depois, um fino feixe de energia vermelha disparou da chave para o caixão, preenchendo-o com um eflúvio carmesim.
"Está estável!" gritou Saheeli. Mas ela falou cedo demais. Uma chuva de faíscas jorrou de um banco de circuitos onde os fios da pedra de energia se conectavam à âncora. Não, não, não! De novo não!
Saheeli desligou o interruptor para desativar a âncora, mas era tarde demais para parar a reação em cadeia. Kaya saltou para fora da âncora e se protegeu atrás de um antigo pedaço de destroços que Saheeli remodelara em um escudo térmico.
"Saheeli!" gritou Kaya. "Afaste-se daí!"
Saheeli não a ouviu. Ainda havia uma chance de salvar este teste. Se ela pudesse descobrir rapidamente o que deu errado, poderia consertar e consolidar a viabilidade da âncora. Alcançando com suas habilidades de metalurgia, ela deixou sua consciência percorrer os fios dentro da máquina, a corrente como um corcel espirituoso, para encontrar o local exato onde a interrupção começou.
O que é isso? . . .
Os acoplamentos de energia não haviam simplesmente estourado. Eles haviam sido rasgados. Energia bruta jorrava dos circuitos, ignorando os resistores que garantiam o fluxo de energia adequado. Tudo bem. Tudo o que preciso fazer é reparar o circuito. Ela correu para a seção danificada e focou seus poderes em consertar os fios.
De repente, um pulso de luz branca envolveu toda a área. No mesmo instante, Saheeli sentiu todo o seu corpo ficar gelado. Ela não conseguia respirar, mas percebeu que não precisava. Ela olhou para baixo para ver Kaya segurando sua mão, estendendo sua forma fantasmagórica para proteger as duas da explosão. Uma vez que seu espanto inicial passou, Saheeli notou outra coisa, alguma coisa pairando a apenas alguns metros de distância. Ela não a viu tanto quanto a sentiu — uma presença que inspirou uma melancolia profunda nela.
Então Kaya a soltou, deixando Saheeli tonta e ofegante. Ela sentou-se no chão em frente à âncora tentando processar o que acabara de vivenciar. Nada fazia sentido. Ela verificara todos os sistemas da âncora antes de ligá-la. Não havia como um mau funcionamento como aquele ter acontecido. E então havia aquela coisa .
"Kaya, você vai achar que eu enlouqueci —"
"Você não enlouqueceu," disse Kaya. "Eu também vi."
"Viu? O que você acha que era?"
"Eu sei o que era, e sei o que causou." Ela conduziu Saheeli, cuidadosa para desviar dos estilhaços de metal que antes faziam parte da âncora, até um caixote de aparência inócua empurrado para debaixo de uma das bancadas de trabalho. "Ali."
Saheeli puxou o caixote e o descobriu para revelar um orbe de cristal negro envolto em uma gaiola de prata. Isso apenas a confundiu mais. "Teferi me deu isso junto com os outros artefatos para criar a âncora. Ele insistiu que era importante, mas eu não consegui descobrir o que fazia ou mesmo o que era. Então o guardei."
"Vamos encontrá-lo," disse Kaya. "Porque eu quero saber por que esta coisa está criando fantasmas."
Kaladesh, Anos Atrás
Saheeli reconheceu uma peça de Shanti Makam no canto oposto da sala, uma escultura do tamanho de um gato feita de metal vivo que mudava de forma em resposta aos sons ao seu redor. No centro da fina mesa de madeira de ébano onde ela estava sentada, havia um modelo protótipo do cadinho de éter de Jitya Reyath, um fluxo constante de éter azul bruto borbulhando de seu centro. Ambas as peças únicas haviam sido roubadas do Instituto de Arte e Ciência de Ghirapur um mês antes. Outros badulaques de opulência semelhante decoravam a sala, todos marcados pelo fato de terem sido libertados de seus legítimos donos por toda a cidade.
Os bandidos a haviam levado no momento perfeito — para eles, pelo menos. Como a maior parte da população da cidade, ela comparecera ao festival de primavera, repleto de dançarinos em trajes fluidos e padronizados enchendo as ruas com espirais de musselina roxa, rosa e laranja. Todas as camadas da sociedade inundavam as praças públicas para compartilhar comida e fofocas enquanto frotas de pipas esvoaçavam acima. Seus sequestradores apenas tiveram que esperar em meio ao caos barulhento até que ela passasse em frente ao beco certo.
A próxima coisa que soube foi que acordou amarrada a uma cadeira neste lugar. A luz era mínima — pequenas lanternas adornavam os tampos das mesas ao lado de sofás luxuosos que provavelmente custavam mais do que sua casa. Os dois homens que a haviam agarrado estavam de cada lado dela, e do outro lado da mesa sentava-se o anfitrião desta soirée privada, vestido todo de preto, exceto por uma placa facial de ouro finamente incrustado. Com um único movimento de mão, o anfitrião ordenou que os homens saíssem. Saheeli virou a cabeça para ver para onde estavam indo quando o anfitrião a interrompeu.
"Oh, não olhe para trás," disse o anfitrião em um barítono profundo e ecoante. "Não importa o problema, você nunca deve se desviar do que é mais importante."
"Ou mais perigoso."
"Saheeli Rai, a artífice mais jovem a ser convidada para o Instituto. Filha de Aarav e Ruby, irmã de Sheela, Amika e Sahil. Uma cidadã decente e cumpridora da lei de Ghirapur com algumas pequenas infrações comuns entre os jovens. Tudo isso está correto?"
"Você sabe muito sobre mim."
"Não, eu sei tudo sobre você," disse o anfitrião. "Mas meus modos... tal disparidade entre nós é incivil. Deixe-me apresentar-me. Eu sou —"
"Gonti, lorde do Mercado Noturno."
"Ha. Eu sabia que escolhi a pessoa certa para este trabalho. Mas então, quem eu sou dificilmente é um teste para o seu intelecto. Deixe-me dar-lhe um melhor." Recostando-se, Gonti desabotoou os botões de sua camisa, de cima a baixo, expondo seu peito para Saheeli ver. Ela já vira a pele de um etéreo de perto antes, achando-a com a aparência e a sensação de giz liso. Mas não foi isso que ela viu sob a camisa de Gonti. Sua "carne" tinha a aparência de pedra rachada, dura e forte, e incrustado em seu peito estava um dispositivo de metal feito de engrenagens giratórias. "Pensamentos?"
Sim, ela tinha pensamentos. Sempre houve conjecturas sobre quem exatamente Gonti era, já que seu reinado sobre o submundo de Ghirapur durara bem mais do que o tempo de vida de um etéreo. Agora ela tinha a resposta. "Estou aqui para ficar olhando?"
"Dificilmente." Gonti tateou sob a mesa e produziu uma pequena bolsa, que deslizou para Saheeli. Ela olhou para dentro para descobrir um conjunto de ferramentas que qualquer artífice invejaria: pinças com ponta de diamante, uma variedade de lupas, alicates, cortadores e tornos otimizados para tarefas delicadas. "Meu coração," disse Gonti, batendo no mecanismo em seu peito. "Começou a falhar. Não creio que possa descrever adequadamente como é sentir-se definhando em tempo real. Você está aqui para consertá-lo."
Ali estava o mentor criminoso da cidade, responsável por roubos, corrupção e assassinatos — e eles a trouxeram aqui para salvar sua vida? Não. Isso não ia acontecer. Saheeli poderia trazer mais paz a Ghirapur do que o Consulado jamais trouxera apenas não fazendo nada. "Acho que está além do meu conhecimento ajudar," disse ela. "Sinto muito."
"Você me decepciona. Achei que estaria ansiosa para explorar uma invenção tão rara. Mas não posso dizer que isso não era esperado." Gonti enfiou a mão no bolso frontal da camisa, puxou uma fina corrente dourada e a deslizou pela mesa. Saheeli a pegou e a segurou para olhar. Ouro moldado em hera com flores de ametista. Este era o bracelete de sua mãe. Ela o reconheceria em qualquer lugar.
"Qual o significado disso?"
"Não se faça de tola," disse Gonti. "É bem óbvio. Meus associados já reuniram os membros de sua família dentro de sua residência. Se eu não enviar notícias no tempo estipulado, suas instruções são executar a todos. Começando por sua mãe."
Saheeli agarrou o bracelete de sua mãe e o pressionou contra a testa. "Você é um monstro."
"Um com pouco tempo de sobra. Muito parecido com você."
Dominária, Dias Atuais
Teferi não estava em lugar nenhum, mas Saheeli e Kaya conseguiram rastrear Jodah em uma das muitas câmaras não utilizadas dentro da torre. Ele estava sentado no chão com as pernas cruzadas, falando para o que parecia ser uma nuvem de mercúrio cintilante pairando no ar.
"Você é tão protetora," disse ele à pessoa que aparecia dentro da nuvem, uma mulher com pele bronzeada e cabelos escuros com mechas vermelhas. "Teferi está bem. Melhor que bem, considerando tudo."
"Ele ainda está decidido a voltar?" perguntou a mulher.
Jodah ergueu os braços. "Não há muita escolha."
"Viagem no tempo," disse ela, balançando a cabeça. "Espero que ele saiba o que está fazendo."
"Poderia ser pior. Ele poderia ter decidido voltar e falar com —"
Parada na porta com Kaya, Saheeli limpou a garganta ruidosamente. Jodah ergueu os olhos de sua conversa. Ele exibiu um sorriso inquieto e levantou a mão em um gesto de "um momento".
"Jhoira, tenho que ir," disse ele, levantando-se. "Dê meu amor a Adeliz."
"Você mesma poderia entrar em contato com ela, sabe."
"Sim, mas então teríamos que nos atualizar e explicar nossos projetos atuais. Algo inevitavelmente surgiria, interrompendo nossa conversa, e quando pudéssemos retomar, tanta coisa teria acontecido que teríamos que fazer tudo de novo."
"Vocês dois são tão parecidos. É irritante."
"Você quer dizer encantador, certo?"
"Não," disse ela enquanto a nuvem começava a se dissipar. "Cuide-se, Jodah."
"Você também." Jodah virou-se para as Planeswalkers que esperavam à porta. "Minhas desculpas. O que posso fazer por vocês duas?"
Saheeli não mediu palavras: "Acreditamos que um espírito tem sabotado a Âncora Temporal e que ele está sendo criado por seja lá o que for este orbe negro que Teferi me deu."
"Espere, espere. Devagar," disse Jodah. "Exatamente como se cria fantasmas? Quero dizer, além da maneira óbvia de, você sabe, matar pessoas."
"Talvez 'criando' seja a palavra errada," disse Kaya. "Mais como fortalecer um espírito que já está lá. Quanto mais tempo um espírito é deixado em um plano físico, mais indistinto ele se torna, como uma névoa na brisa, a menos que algo surja para dar-lhe energia suficiente para se formar plenamente de novo. Vi um cordão prateado estendendo-se do orbe até o espírito. Um canal direto de energia psíquica."
"Assumindo que você esteja certa," Jodah começou, "você não poderia simplesmente tirar o orbe da oficina? Até mesmo levá-lo para outro plano?"
"Ele está por aqui há semanas," disse Kaya. "O espírito tem se banqueteado todo esse tempo. Poderiam levar séculos antes que ele se dissipasse o suficiente para nos deixar em paz."
Jodah acompanhou-as de volta à cena do incidente para dar suas próprias impressões. Quando chegaram, Saheeli conduziu Jodah cautelosamente entre os escombros afiados para mostrar-lhe o orbe misterioso de Teferi. Ele tocou a gaiola de prata com os dedos e cutucou o orbe de cristal em seu interior com a ponta de seu cajado. Luzes suaves dentro do orbe piscavam e desapareciam. Ele cutucou um pouco mais antes de pegar o orbe e virá-lo para olhar sua parte inferior. Passou os dedos sobre o mesmo pequeno pedaço de prata repetidas vezes.
"Droga, Urza," disse ele, baixando a cabeça. "O que você fez agora?"
"Quem?" perguntou Kaya.
"Urza," respondeu ele. "O homem que construiu esta torre. O Planeswalker que derrotou os phyrexianos quando eles invadiram este plano há um milênio. O mestre de Teferi. E meu ancestral."
"E você não disse nada sobre isso porque...?"
"Porque assuntos de família raramente são simples." Jodah colocou o orbe sobre a mesa, proferiu um feitiço e reuniu as outras ao redor para ver parte da gaiola de prata do orbe começar a brilhar em vermelho. "Suponho que você não tenha notado a escrita escondida na malha de prata."
Saheeli não notara. Mas com o feitiço de Jodah, ela podia ver claramente uma inscrição tênue. Mesmo se a tivesse visto antes, teria descartado a série de formas geométricas sobrepostas — quadrados, triângulos e círculos repetindo-se e sobrepondo-se sem padrão discernível — como a assinatura de um artífice.
"É a linguagem escrita dos Thran, uma civilização antiga neste plano," disse Jodah. "Poucas pessoas vivas nos últimos cinco mil anos conseguem ler sua língua. Eu consigo. Urza e os tolarianos sob sua tutela também conseguiam. Tenho poucas dúvidas de que este orbe seja obra dele."
"O que diz a mensagem?"
"Volte ao começo e cumprimente-me adequadamente. "
"O que isso significa?" perguntou Saheeli. "Poderia ser Urza perturbando a âncora?"
"Por muitas razões, estou confiante de que Urza não é o espírito em questão," respondeu Jodah. "Quanto ao significado da mensagem, tudo o que sei com certeza é que, se Urza está envolvido, provavelmente é problema."
Outra resposta evasiva, Saheeli notou. Embora ela não conhecesse Jodah há tanto tempo quanto Teferi ou certamente membros das Sentinelas, gostaria de pensar que as últimas semanas juntos haviam gerado algum tipo de relacionamento entre eles. Haviam comido juntos, conversado tomando chá, trocado histórias. Estavam em Dominária ostensivamente trabalhando em direção a um propósito comum de frustrar os phyrexianos — uma ameaça que colocava em perigo inúmeros planos, incluindo o dela. Não havia espaço para esconder informações tão importantes.
"Razão a mais para cuidar desta coisa rapidamente," disse Kaya. "E permanentemente."
"Espere," disse Saheeli. "Aquele espírito já foi um ser vivo, certo? Não seria melhor se pudéssemos descobrir o que ele quer?"
Kaya afundou em seu assento. "Espíritos remanescentes só querem algumas coisas — a maioria delas ruins. Mas vou ouvi-la. O que você propõe?"
"O jeito que você falou deles antes — era como se fossem seres de energia."
"Claro," disse Kaya. "O que é a alma senão energia impulsionada pela vontade?"
"Exatamente. Acho que tenho algo que pode nos ajudar a lidar com nosso visitante."
Kaladesh, Anos Atrás
"Incrível," Saheeli deixou escapar antes que pudesse se conter. A última coisa que queria dar a Gonti era a satisfação de estar certo sobre ela. Apesar das circunstâncias, uma parte dela estava emocionada por examinar tal maravilha da engenharia tão de perto. O coração não apenas prolongava a existência de Gonti — um feito, com certeza, mas nada comparado ao que constituía. No centro do coração havia um módulo em forma de colmeia que extraía éter diretamente da atmosfera. Éter bruto fresco circulava continuamente através de Gonti, renovando seu corpo. Para sempre.
Em suma, Gonti era imortal.
"Quanto tempo mais?" perguntou Gonti. Eles permaneciam imóveis, um modelo de paciente, sobre sua cara mesa de reuniões. Gonti nem sequer se mexeu enquanto ela os sondava e examinava.
"É um processo delicado," disse Saheeli, levantando membranas semitransparentes e leves como penas dentro do coração com pinças cônicas. "Exige toda a minha concentração."
"Não toda," disseram. "Sua dedicação — ao seu ofício, à sua família — é certa. Mas também posso sentir sua rebeldia, um aroma como cravo cortado." Saheeli amaldiçoou silenciosamente. Como todos os outros etéreos que ela encontrara, Gonti tinha a habilidade de ler emoções e interpretá-las como vários aromas. Ali, sem mais ninguém por perto, era impossível esconder até mesmo seus pensamentos mais profundos. "É compreensível. O conflito é o estado natural das coisas, mesmo dentro de um indivíduo."
"Fácil para você dizer, quando vive de roubar e matar."
"Quão divertido e ingênuo."
Ingênuo? Onde estavam eles quando as varreduras do Consulado reuniam os desabrigados para satisfazer os aristocratas que buscavam bodes expiatórios para crimes que Gonti e seus comparsas cometiam? Quantos inocentes foram pegos no fogo cruzado entre facções em guerra do próprio povo de Gonti brigando por lucros? E quantos mais viviam com medo de perder suas casas e meios de subsistência para sua ganância? Ela voltou-se para o coração, mas, como antes, não conseguiu conter o que estava em sua mente. "Eu gostaria que pudéssemos viver em paz sem você destruir nossas vidas."
O tom de Gonti tornou-se sombrio. "Lembro-me de um tempo em que os da minha espécie eram caçados como animais. As pessoas sabiam o que éramos; elas apenas ficavam muito irritadas porque éramos. Não fale de vidas destruídas quando você não tem ideia do que isso significa."
Saheeli queria refutar Gonti, mas o que poderia dizer? Eles estavam certos. Os primeiros etéreos foram perseguidos e mortos por engenheiros que os descartaram como um efeito colateral do refinamento do éter. Um erro. Sim, as coisas haviam mudado para melhor, mas e quanto ao passado? Como uma sociedade repara esse tipo de dano?
Ela não tinha as respostas, e não era seu lugar naquele momento buscá-las. Tudo o que podia fazer era proteger sua família da melhor forma possível. Mergulhando fundo no peito de Gonti, ela localizou o problema. O núcleo do coração de éter era composto por um filamento giratório de prata não maior que uma unha. O movimento do filamento governava a cadência com que as engrenagens agitavam o éter, tal como um coração humano bombeava sangue em intervalos regulares. Uma pequena fratura no filamento se desenvolvera com o tempo — o mais simples dos reparos a ser feito. Saheeli tocou com o dedo no filamento, sua superfície ondulando como água até que a rachadura fosse curada.
"Consertei o dano," disse Saheeli. "Você se sente diferente?"
A princípio, Gonti ficou em silêncio. Lentamente, sentaram-se e viraram-se para ela. "Sinto-me magnífico."
"Então diga aos seus homens para recuarem."
"Eu já disse," disse Gonti enquanto abotoava a camisa. "Aqueles dois que enviei antes de começarmos a conversar transmitiram a mensagem. Sua família nunca esteve em perigo. Considere isso um ato de fé. Em você."
Saheeli começou a tremer — não de raiva, mas de um alívio alegre.
Gonti saltou da mesa, parando para lamentar uma marca de arranhão na superfície. Estenderam a mão para Saheeli pegar, o que ela fez, não querendo irritar Gonti o suficiente para colocar sua família em perigo novamente. Conduziram-na a uma janela no fundo da sala. Afastando as cortinas, Gonti revelou uma vista deslumbrante de Ghirapur, suas altas torres decoradas com luzes para o festival de primavera. Lá embaixo, milhares festejavam nas ruas. "Minha cidade. Linda, não é? Somos aliados agora, mas não se engane, ela trouxe sua guerra para mim primeiro, como fez com todos os etéreos. Em vez de desmoronar, abracei seu couro grosso e espinhoso. Para vencer uma guerra, você deve tornar-se a guerra. Assim são as coisas."
Dominária, Dias Atuais
Saheeli acionou o interruptor de energia na Âncora Temporal pela segunda vez naquele dia. O aparato carregou-se da maneira normal — a energia roteando da pedra de energia para o resto da âncora, Kaya no lugar esperando sua parte para atuar. Olhando ao redor da oficina, ela se perguntou se o espírito estaria espreitando invisível, observando cada ação sua.
Ela esperava que sim.
"Kaya, você está pronta?" Saheeli chamou.
"Sim," disse ela, colocando as mãos no caixão. "Espero que isso funcione."
O condutor de energia começou a se materializar entre a rede de antenas e a Chave de Prata Lunar. Saheeli permaneceu imóvel, seu olhar fixo em Kaya. O único movimento que ousou fazer foi deslizar o dedo do interruptor de energia em seu painel de controle para um segundo interruptor. Kaya tornou-se incorpórea, preenchendo o átrio da âncora com fiapos violetas de magia. Tudo tinha que parecer que estavam apenas tentando outro teste. Essa era a isca.
Onde você está? Saheeli se perguntou.
"Está aqui!" gritou Kaya. "Faça agora!"
Saheeli acionou o segundo interruptor, desviando a energia das operações normais da âncora para um subsistema recém-construído. Em vez de absorver e direcionar o sinal da antena, a Chave de Prata Lunar começou a girar, fazendo com que o ar na sala parecesse espesso. Uma névoa esverdeada subiu do chão enquanto uma náusea repentina borbulhava em seu estômago, forçando-a a apoiar-se em sua bancada de trabalho.
Lá em frente à âncora, uma forma cinzenta começou a tomar forma como geada em uma vidraça. Membros se definiram, assim como cabeça e torso. Então mais — o rosto de um homem, desgastado e cansado, sua barba por fazer e selvagem; uma armadura pesada brasonada com a cabeça de um leão.
"Quem é você?" gritou Saheeli, forçando-se a ficar de pé.
O choque atravessou o rosto do espírito. Ele virou-se para fugir, mas sentiu-se lento, incapaz de dar mais do que alguns passos vacilantes para longe da âncora. A armadilha de Saheeli funcionou! Ao replicar a cadência de energia bombeada através do coração de éter de Gonti, Saheeli conseguira dar ao espírito uma aparência de solidez. Sem sua habilidade de se dissolver ou passar por barreiras sólidas, ele não teria escolha senão comunicar-se com ela.
"Não pretendemos feri-lo! Diga-nos o que você quer!"
O espírito hesitou, permitindo que ela estendesse a mão em sinal de amizade. Ele respondeu empurrando-a ao chão, seu toque gélido, como terra recém-removida de uma sepultura. Desfivelando uma lâmina fantasmagórica de seu cinto, o espírito ergueu a arma acima da cabeça. Kaya entrou em ação, mergulhando no chão para tirar Saheeli do caminho. Mas Saheeli nunca fora seu alvo. A lâmina atingiu a âncora, abrindo um corte profundo em sua lateral. Kaya arremessou uma lâmina no espírito, mas ele já havia fugido pela porta da oficina.
"Você está bem?" perguntou ela a Saheeli. A preocupação de Kaya não escondia totalmente sua frustração. Ela duvidara da tentativa de comunicação de Saheeli e acabara tendo razão.
"Não estou ferida."
"Bom. Certifique-se de que a âncora esteja bem. Vou atrás dele."
Kaya disparou pela porta, deixando Saheeli para avaliar a âncora. Embora o dano fosse grave — o subsistema de estabilização de energia fora cortado em pedaços — a chave e o caixão estavam intocados. Reparos seriam extensos, mas factíveis. Saheeli suspirou, mas o alívio durou pouco. Ela correu pela porta para rastrear Kaya, esperando alcançá-la antes do assassino fantasma. Ele a entendera. Se a situação estivesse mais calma, um diálogo seria possível.
Saheeli correu pelos túneis que conectavam a oficina à torre propriamente dita, emergindo no corredor que circundava o salão principal. Ela avistou Jodah do outro lado. Enquanto ela e Kaya trabalhavam para modificar a âncora, ele se isolara com o Orbe do Campo Estelar para obter quaisquer respostas que pudesse.
"Onde está a Kaya?" chamou ela.
"Eu a vi subir!" disse Jodah. "Siga-me!"
Saheeli e Jodah correram para o segundo andar do ornitário, onde viram Kaya, adagas em punho, frente a frente com o espírito parcialmente sólido, sua própria lâmina grossa e quadrada empunhada.
"Ele está se desintegrando rápido," disse Kaya. "Se não cuidarmos dele agora, será muito mais difícil de prender." Kaya estava certa se o objetivo fosse destruir o espírito. Mas Saheeli apegava-se à noção de que uma paz poderia ser alcançada. Sabia que era tolice. Sabia que lhes custara um tempo precioso. Mas o pensamento de infligir dano desnecessário não lhe caía bem.
"Meu nome é Saheeli Rai," disse ela. "Qual o seu?"
"Sharaman," disse o espírito, mantendo sua arma erguida.
"General Sharaman," disse Jodah. "O líder dos exércitos de Urza."
"Você está aqui em nome daquela cobra?" disse Sharaman, sua forma oscilando.
"Sua guerra acabou há quase cinco mil anos," disse Jodah. "Se isso é sobre vingança —"
"Não vingança. Preservação. Você reiniciaria a máquina de guerra de Urza."
"Sinto muito pelo que aconteceu com você," disse Saheeli. "Mas os inimigos que combatemos — eles são uma ameaça a todo o povo de Dominária e aos planos além."
"Servi fielmente a Urza por décadas... Meus sobrinhos. Bons meninos. Eu embalei seus cadáveres partidos ao meio pelos motores dracônicos de Mishra." Sua forma tornou-se mais nebulosa à medida que os efeitos da armadilha de Saheeli enfraqueciam. "Fiquei parado enquanto ele ordenava o saque de Sardia e outras províncias que não entregavam seus recursos. Achei que a história nos perdoaria porque éramos os justos." Ele olhou diretamente para Saheeli. "Não deixarei ninguém repetir os erros que cometi. Se isso significa detê-los, eu o farei."
"Eu..." Ela não sabia o que fazer. Sharaman não era apenas um espírito temperamental. Ele perdera tanto — sua família, sua vida. Ela tinha que convencê-lo de que nossos esforços eram necessários. "Sharaman, deve haver algum jeito —"
Kaya não esperou Saheeli terminar. Enquanto Sharaman desaparecia de vista, ela ativou sua forma fantasmagórica e lançou-se sobre o espírito, sua forma etérea inchando em uma onda de morte. Golpeou com sua adaga, aparando um golpe que apenas ela podia ver, então girou com uma estocada para trás. Saheeli observou enquanto Kaya soltava sua arma e se ajoelhava. Os lábios de Kaya se moveram, mas Saheeli não ouviu som algum. Caminhou até onde Kaya estava ajoelhada e esperou que ela se rematerializasse.
Kaya levantou-se, visivelmente abalada. "Sinto muito. Ele não nos deu muita escolha."
Teferi encostou a cabeça no estofamento dentro do caixão, seu rosto sorridente visível através de uma pequena escotilha. Ele estivera em um estado de espírito surpreendentemente bom quando veio para o teste, muito diferente de sua melancolia durante a visita matinal. Saheeli esperava que pudesse encontrar o consolo que ele de alguma forma encontrara. Uma caminhada tranquila pelos arredores da torre, talvez. Sim, isso poderia ajudar.
Saheeli fez sua revisão final da Âncora Temporal. Todos os subsistemas foram verificados, tanto os antigos quanto os novos. Ela assentiu para Kaya, dando-lhe o sinal verde para entrar na âncora para o que esperava ser uma jornada bem-sucedida. Desde o confronto com Sharaman, a arrogância habitual de Kaya desaparecera.
"Você tem certeza de que está bem para fazer isso agora?" perguntou Saheeli.
"Isso é importante demais para adiar."
"Essa não foi minha pergunta."
Ela sorriu. "Eu gostaria de ser mais como você — uma pessoa boa."
"Você é uma pessoa boa, Kaya," disse Saheeli.
Ela balançou a cabeça. "Sharaman nunca iria ceder. É assim que os espíritos são. Suas obsessões são o que os prende ao mundo físico. Aqueles com quem lidei antes — eram tiranos, vilões, o pior do pior. Eu podia justificar dar-lhes a punição que mereciam. Mas ele?"
"Ele disse algo para você no final?"
"Ele queria saber se veria sua família novamente," disse Kaya. "Eu disse que veria." Com isso, Kaya entrou na âncora e colocou-se em posição. "Vamos fazer isso."
Saheeli ligou a âncora. Ela zumbiu ao ganhar vida. A energia canalizada para cima em direção à antena, então através da Chave de Prata Lunar e, finalmente, para o caixão contendo Teferi dentro da forma fantasmagórica de Kaya.
A âncora ia funcionar. Saheeli já sabia disso. Desviando o olhar por apenas um momento, Saheeli permitiu que seus pensamentos vagassem. Lembrou-se daquela noite em Kaladesh anos atrás, entrando em casa após deixar a propriedade de Gonti. Mesas de comida quente e bebidas geladas, mantidas por constructos servos. Um grupo de seus primos mais jovens que, pela aparência de seus trajes, haviam participado das danças de primavera pela primeira vez. O calor que sentiu no abraço de sua família... Um calor que a envolvia como o toque de um único dedo nas costas de uma mão, como passos medidos sobre as pedras de Ravnica, como os lábios de Huatli — os mais perfeitos em todo o Multiverso — formando as palavras, Eu virei dançar com você.
Diferente de Gonti, Saheeli não desistira da paz. Mas se aqueles que amava precisassem que o fizesse, ela se tornaria a guerra.
Epílogo
Teferi mencionara o Orbe do Campo Estelar a Jodah uma vez, explicando como o obtivera em um dos esconderijos ocultos que Urza deixara para trás em algum momento durante a Invasão Phyrexiana. Mas ele minimizara a importância do orbe. Talvez o tivesse confundido? Não, era mais provável que Teferi errasse para o lado da sabedoria ao presumir que o orbe era perigoso demais para se mexer. Jodah teria feito o mesmo, especialmente após detectar o uso de energia da alma nos encantamentos do orbe. Não admira que afetasse espíritos como fizera. Urza realmente caíra em práticas sombrias em seus dias finais.
Jodah lamentava não ter sido franco com os outros sobre o orbe — ou sobre Urza e a torre, nesse caso. Fizera isso para protegê-los, mas ainda não gostava de guardar segredos de seus aliados, especialmente de Saheeli. Na estimativa de Jodah, ela era a colaboradora perfeita que Teferi recrutara para seus esforços. Adepta, porém compassiva. Diferente de tantos Planeswalkers com quem ele lidara ao longo dos séculos — mesmo os que ele estimava, como Freyalise (eventualmente) — a humanidade de Saheeli sempre brilhava.
Ela era uma pessoa melhor do que ele ou Teferi haviam sido em sua juventude.
Horas após a meia-noite, Jodah sentou-se na base de uma das torres de vigia externas, o Orbe do Campo Estelar no chão à sua frente. Se alguém iria se colocar em risco para investigar um dos muitos esquemas de Urza, seria ele.
Ele começou a conjurar um feitiço.
Era mágica de criança. Jhoira fora a primeira a mostrá-la a ele lá atrás, quando eram mais do que os amigos distantes que eram hoje. Ela cansara, como costumava acontecer, de suas queixas pedantes sobre este ou aquele professor em Tolaria Ocidental. Então, ela lançou um feitiço nele, chocando-o até o silêncio. Entre acessos de riso, ela explicou que fora o primeiríssimo feitiço que aprendera com Teferi, um que sacudia a pessoa com um choque elétrico consideravelmente forte. Era infame entre os estudantes da Academia Tolariana; os professores também acabaram aprendendo a evitar apertar a mão de Teferi. Sim, isso incluía Urza.
Volte ao começo e cumprimente-me adequadamente.
Jodah estendeu a mão, direcionando o choque ao orbe. Em um clarão azul, o mundo desapareceu, substituído um momento depois pelo interior de uma cabana austera. A sala estava iluminada, mas não parecia haver nenhuma origem para a luz. Jodah encontrou-se sentado à uma mesa grandiosa. No topo, uma vasta gama de estatuetas de brinquedo quase impossivelmente pequenas — soldados, alguns a cavalo, contra um esquadrão de dragões mecânicos — estavam em uma batalha simulada.
"Urza, seu velho patife," disse ele suavemente. "Uma dimensão de bolso." E não uma qualquer. Esta dimensão de bolso fora feita para se assemelhar à cabana em que Urza vivera mais de mil anos antes. Fora localizada nas Montanhas Ohran, na ilha de Gulmany, fato que Jodah conhecia porque fizera uma visita lá há muito tempo.
Ele levantou-se para examinar uma estante alta repleta de manuscritos grossos, reconhecendo os nomes de vários volumes que se pensavam perdidos há muito tempo. Um chamou sua atenção. Ele o tirou da prateleira e inspecionou a capa, afundando a ponta dos dedos nos sulcos gastos do couro. Pele de bezerro brasonada com uma cabeça de leão — o símbolo de Argívia , notou. Folheando as páginas, parou em um diagrama de um ornitóptero, apontando o pequeno T maiúsculo no canto da página. Xilogravuras carimbadas de ilustrações originais do artífice, Tawnos. Então ele virou para a página de título.
"A Guerra das Antiguidades de Kayla bin-Kroog," anunciou uma voz atrás dele. Jodah girou para ver uma mulher em armadura acolchoada, o cabelo puxado para trás de seu rosto angular. "Essa é a edição fólio," disse ela. "Produzida para comemorar a primeira reunião dos Sábios de Minorad. Há várias cópias desta obra na prateleira, todas edições diferentes, de pergaminho a tomo."
"Eu conheço você," disse Jodah. "Xantcha. Você era a companheira de Urza."
"Em meus sonhos, eu sou Xantcha," disse a mulher. "Mas não sou ela. Tudo o que ela foi está contido dentro do golem, Karn."
"O que você é, então?"
"Um constructo, como tudo o que vê aqui."
Jodah conhecera a verdadeira Xantcha brevemente. Ela era curiosa, quase como uma criança, e fazia a ele todo tipo de perguntas sobre a história dominariana e terras distantes. Jodah lembrava-se de pensar que par estranho ela e Urza formavam, mas também que a presença dela parecia suavizar as partes mais abrasivas da personalidade dele.
Uma porta no lado oposto da sala abriu-se, e entrando estava outro indivíduo, este um homem, robusto e severo, com cabelos escuros e uma testa preocupada. Folheando A Guerra das Antiguidades novamente, Jodah chegou a um retrato que correspondia ao homem.
"Mishra," disse Jodah. "Você também é um constructo."
"Você não corresponde à descrição de Teferi," disse Mishra antes de desembainhar uma espada curta e apontá-la para Jodah. "Você é um intruso."
"Pare," ordenou Xantcha, então virou-se para Jodah. "Quem é você e qual seu propósito aqui?"
"Meu nome é Jodah, amigo de Teferi e descendente de Urza," disse Jodah. "De que outra forma eu teria obtido acesso a este lugar?"
Isso pareceu satisfazê-los. Eles relaxaram, permitindo que Jodah continuasse examinando a estante. Ele colocou A Guerra das Antiguidades de volta e escolheu um arquivo de páginas rudemente encadernadas na prateleira inferior. Esta era uma coleção de esquemas, planos — todas as instruções necessárias para reconstruir os exércitos de soldados yotianos e estátuas de argila de Urza. A pasta menor dentro do arquivo continha informações ainda mais arcanas sobre linhagens familiares, junto com um grande projeto de objetos díspares todos unidos em uma única arma.
"O Legado," disse Jodah. "Este lugar todo — é o plano de reserva de Urza caso ele perecesse antes de poder implantá-lo contra os phyrexianos." Ele riu, lembrando-se do que Teferi dissera sobre a obtenção do orbe. Foi como se Urza tivesse como alvo cada fraqueza minha. Mas eu o venci! Não, ninguém jamais venceu Urza nesse tipo de jogo mental. Ele colocara obstáculos quase impossíveis na frente do orbe porque sabia que apenas Teferi teria o brio e a audácia para superá-los.
Jodah fechou o arquivo e manteve a mão na capa. Xantcha e Mishra o observavam o tempo todo, suas expressões vazias nunca mudando.
"Teferi está com as mãos ocupadas agora," disse ele a eles. "Mas quando tudo isso passar, e quando ele estiver pronto, falarei a ele sobre este lugar. Enquanto isso, seu mestre deixou alguma palavra final?"
"Sim," disse Mishra. "'Que cessem nossos conflitos. Não podemos mais nos dar ao luzo de divergir.'"
Capítulo 3: Nêmesis
25 de outubro de 2022 • Reinhardt Suarez
O sangue é imundo, a carne é escória. Minha ascendência tem sede da própria vida.
—Crovax, Evincar de Rath
Karn não falou, não reclamou enquanto ganchos e navalhas — os apêndices exploratórios preferidos dos Bispos de Sutura — cutucavam seu corpo mutilado em busca de costuras que facilitassem sua dissecção. O golem de prata ainda estava vivo, da maneira que um indivíduo tão único poderia ser considerado vivo, mas o mais importante, ele ainda estava consciente — consciente de onde estava, do que estava acontecendo com ele e de quem estava realizando a terrível tarefa de desmantelar seu corpo. Detectar a cognição de Karn não era uma questão simples de verificar a respiração ou observar movimentos oculares sutis.
Era preciso sentir uma centelha para saber que ela estava lá.
Tezzeret esperou por qualquer tipo de movimento de Karn. Ele meio que esperava, meio que desejava que o golem se levantasse da laje branca como osso, despedaçasse o Phyrexiano mais próximo e caminhasse pelos planos. Mas Karn não ofereceu resistência à equipe de aspirantes enquanto eles o prendiam no lugar com braçadeiras nos pulsos e tornozelos, tomando cuidado para não tocar no machado de lâmina dupla ainda cravado no peito do golem. Assim que a tarefa foi concluída, os aspirantes se afastaram, com as cabeças curvadas em súplica, para permitir que os Bispos de Sutura retomassem suas análises. Em Dominária, Sheoldred descobrira uma maneira de interferir na transposição de planos de Karn. Tezzeret supunha que era isso que mantinha o golem preso agora também: a laje branca como osso estava cheia de minerais que faziam a pouca carne que Tezzeret ainda tinha coçar, embora ele estivesse a uma boa distância. Por que Karn estava tão dócil, no entanto~
Uma visão perfeita.
Tezzeret odiava tudo aquilo. Odiava tudo na Basílica Reluzente. Odiava qualquer coisa relacionada à Ortodoxia da Máquina. Em Esper, os Buscadores de Carmot também se envolviam em baboseiras santimoniosas, exercendo poder sobre os segredos da forja de etérium em toda Vectis. Embora fosse um deles, ele também fora enganado pelo estratagema deles. Carmot, o reagente sagrado e a chave para criar etérium, não existia como nada além de uma farsa elaborada para manter a plebe não iluminada sob o calcanhar dos Buscadores. Assim também era a promessa de "iluminação" de Elesh Norn.
Entrando na câmara fria estava outro rosto familiar, Ajani Juba de Ouro. Ele estava acompanhado por um líder entre os sacerdotes, um alto exarca, que guiava um conjunto flutuante de braços parecidos com os de uma aranha até o altar onde Karn jazia prostrado. Os sacerdotes, como seus aspirantes antes deles, pareciam reconhecer intrinsecamente a hierarquia — curvar-se diante de seus superiores — e se afastaram do altar com uma graça sobrenatural.
"Renascimento", disse Ajani. "As dores da destruição dão lugar à perfeição gloriosa."
Tezzeret não respondeu. A própria presença de Ajani o perturbava grandemente, e não apenas por sua inclinação a citar passagens e versículos das Gravuras Argênteas, o hino de Elesh Norn à sua própria vaidade. Não, era mais do que isso. Durante o tempo em que servira a Nicol Bolas, havia períodos de silêncio em que o dragão ancião contemplava seus próximos passos. Ajani nunca era deixado de fora dos planos de Bolas. Ele elaborava estratagemas especiais para ocupar o leonino enquanto os outros esquemas de Bolas avançavam. Para Tezzeret, a verdade era evidente: Nicol Bolas — Planeswalker, dragão ancião, deus-faraó — era obcecado por Ajani Juba de Ouro. O que quer que tivesse acontecido na batalha deles durante o confluxo de Alara inspirara uma hesitação em Bolas que ele tinha por poucos outros.
E, no entanto, os Phyrexianos o haviam quebrado facilmente. Tão facilmente. Tamiyo fora a primeira a passar pelo processo especial de completação de Jin-Gitaxias, enriquecendo-a com óleo cintilante enquanto mantinha os poderes de sua centelha. Animado por esse avanço, o mestre do Engenho do Progresso submeteu ansiosamente os Planeswalkers cativos a procedimentos cada vez mais eficazes — e dolorosos. Agora, Tezzeret e alguns de seus adversários mais odiados estavam ostensivamente "do mesmo lado".
Abandone suas memórias e renasça.
Como o regente de uma grande sinfonia, o exarca começou a tecer padrões no ar com seus seis braços, os apêndices em sua plataforma de dissecção movendo-se de acordo com os comandos silenciosos do exarca. Suas pontas quitinosas brancas se abriram, revelando instrumentos sintonizados com a tarefa em mãos: serras, lâminas, pinças, fórceps.
Enquanto os braços iniciavam seu trabalho, Karn ainda não dizia nada. Mesmo quando dentes de metal trituravam seu corpo e cortavam seus membros, ele permanecia em silêncio.
"Somente em sua graça somos salvos", disse Ajani, sua voz tremendo em exultação. "Nossas formas antigas são gaiolas que a Mãe derrete e reforja no destino."
"Nós fazemos nossas próprias gaiolas", murmurou Tezzeret enquanto se virava para sair. Ele encontrou seu caminho bloqueado por um dos guardas angelicais de elite de Elesh Norn, suas asas serrilhadas enroladas em seu corpo. Ele tentou contornar o anjo, mas este usou seu cajado para barrar seu caminho.
"O ritual não terminou", o anjo proclamou. "Sair é proibido."
"Eu não devo nada a você", disse Tezzeret. "Mova-se."
"Você deve testemunhar. Então você receberá o que lhe foi prometido."
Sem pensar, Tezzeret colocou a mão no peito, o local de repouso da Ponte Planar. Por baixo de sua couraça, ele podia sentir o avanço do artefato comendo-o vivo. Um pouquinho de cada vez, mas inexoravelmente. Se não fosse pelas cauterizações periódicas nas forjas de Kuldotha, ele talvez já tivesse sucumbido às energias debilitantes do portal. Mas isso era apenas um paliativo. Sua vida dependia de ele receber o que lhe fora prometido, o que ele merecia — um novo corpo feito de açocuro, muito mais forte que o etérium e livre da maldita Ponte Planar. Então ele poderia abandonar este plano desolado e tudo o que ele acarretava. Para sempre.
"Como recebo minha recompensa? Diga-me agora."
"Quando nossos fiéis profundos terminarem, você levará as peças do Pai para nossa Mãe."
Outra tarefa maldita?! Ele respirou fundo e se acalmou. Embora estivesse furioso por ter sido relegado a mais uma tarefa servil, uma indignidade final valia seu novo corpo. Além disso, se havia algo que a Ortodoxia da Máquina valorizava acima de tudo, era a propriedade. Ele tinha que jogar com delicadeza.
"Você seria um mensageiro mais apropriado", ele objetou.
"Não se recusa o convite da Mãe", o anjo respondeu. Nisso, ele estava correto. Já faziam várias semanas que Tezzeret não via a pretora, desde que ela deixara seu trono para residir em tempo integral entre o Micossintetizador. Embora ele tivesse desfrutado de liberdade total para visitar as camadas mais profundas do plano durante suas estadias anteriores em Nova Phyrexia, esse não era mais o caso. Ela proibira todos de visitar os níveis inferiores, até mesmo os outros pretores.
"Deve haver outras tarefas que exijam minha atenção", disse ele, rangendo os dentes. "Aquelas com algum grau de importância?"
"Não." O anjo abriu suas asas, expondo uma cota de malha feita do que pareciam ser dentes humanos. "Você recebeu suas ordens."
Tezzeret percebeu de repente que, apesar de seus esforços para cair nas graças do anjo, ele se tornara objeto de escrutínio. Ele olhou ao redor, primeiro para o anjo que o encarava de cima com uma fisionomia composta de tendões vermelhos sem feições, depois para os aspirantes e os sacerdotes momentaneamente distraídos por seus protestos, e finalmente para Ajani, que o encarava com olhos que brilhavam em um vermelho profundo e ardente.
Tezzeret forçou um sorriso através de sua mandíbula cerrada. "Minhas vestes são lamentavelmente inadequadas para tal honra. Acabo de ajudar Sheoldred a voltar para seu covil, e minha armadura ainda carrega~ restos de carregá-la de volta para os Poços de Escória."
"Aqui", disse Ajani, tirando seu manto branco, ainda manchado de sangue e fuligem dos eventos em Dominária. "Limpe-se com isto."
Tezzeret pegou o manto, branco com bordas douradas, exceto por manchas desbotadas nele, de cor diferente, rosa como tecido cicatricial. Ele não havia percebido até agora que era o mesmo manto usado outrora por Elspeth Tirel. Interessante. Ele sabia que eles haviam sido aliados em Alara, mas não o quão próximos eram. Tezzeret estudou o leonino, sabendo que, bem no fundo daquele corpo completado, o espírito do verdadeiro Ajani ainda existia. Suprimido. Ele estava ciente do que estava acontecendo? Seria o manto algum tipo de pedido enigmático de ajuda vindo dos recessos da mente do leonino? Se sim, Ajani era um tolo maior do que Tezzeret pensara. Este não era o momento nem o lugar para se expor de maneira tão ostensiva.
Não cometa erros.
Tezzeret deu um passo para trás e curvou a cabeça para imitar o gesto que os aspirantes faziam para seus Bispos de Sutura. Realizar tais sinais de obediência o corroía por dentro, mas a oportunidade de dar voz à sua indignação viria em breve. Paciência, paciência.
"Como nossa Mãe deseja", disse ele. "Assim será feito."
Quando Nova Phyrexia ainda era Mirrodin, uma rede informal de lacunas conectava todas as partes do plano ao próprio coração onde o Micossintetizador crescia. Algumas dessas passagens existiam desde que Karn as criou, enquanto outras — mais artérias doentes do que passagens intencionais — formaram-se muito mais tarde como resultado da praga Phyrexiana. Antigamente, Tezzeret conseguia navegar até um destino apenas pelo tato e pelo cheiro.
Não havia mais necessidade. Liderado pelo anjo, ele caminhou pelos pátios abertos da Basílica Reluzente até a grande ponte coberta de espinhos que levava às camadas mais internas de Nova Phyrexia. Tais construções opulentas eram uma das muitas maneiras pelas quais Elesh Norn afirmava seu domínio. Embora permitisse que seus colegas pretores personalizassem suas camadas residentes, essa benevolência tinha um limite. A ordem governaria — devoção, dever e unidade seriam mantidos como primordiais sobre a análise científica implacável ou as leis ferozes de predador e presa. A harmonia substituiria a loucura que havia tomado o plano sob mestres anteriores — a harmonia dela .
Dois regimentos de aspirantes esperavam por Tezzeret ao pé da ponte, todos murmurando a mesma oração. Seus olhos — alguns encravados em cabeças, mas a maioria como órgãos sanguíneos sensíveis à luz implantados nas pontas de fêmures afiados como chifres ou em colunas que margeavam vértebras irrompendo através de pele fina como papel — estavam voltados para o céu perpetuamente cinzento. Nenhuma luz do sol de mana branco de Nova Phyrexia penetrava nas camadas sobrepostas acima. Em vez disso, as estruturas da própria camada forneciam iluminação. As paredes da basílica, compostas de cadáveres Phyrexianos ossificados e honrados na morte, emitiam uma luz branca pálida; capilares carmesins gravados no chão de mármore exalavam um brilho vermelho-sangue.
Siga sempre em frente.
Tezzeret caminhou em direção à multidão que esperava empurrando seu valioso tributo: uma plataforma flutuante contendo as peças desmontadas de Karn. Mesmo tendo estendido o manto de Ajani para esconder o golem de prata, os aspirantes ainda tagarelavam diante da presença de seu Pai caído, abrindo caminho ou caindo de joelhos em reverência.
Bufões de mente fraca , pensou ele ao se aproximar de um único Phyrexiano que o esperava na ponte, abrindo seus seis braços como se convidasse Tezzeret para seu abraço. "Quem é você?"
"Seu guia", expressou ele, apesar de não ter boca. "O submundo pode ser traiçoeiro."
"Estou familiarizado. Não preciso de guia."
"É o decreto de nossa Mãe."
Tezzeret fez uma careta, mas mais uma vez conteve seu temperamento. "Prossiga, então."
O guia virou-se e liderou o caminho através da ponte, o miasma que os cercava escurecendo conforme se aventuravam mais fundo nas entranhas do plano. Tezzeret seguiu, a plataforma de Karn pairando entre eles. Logo, a Basílica Reluzente estava fora de vista, os monumentos de tendão e osso que definiam a Ortodoxia da Máquina substituídos pelas colunas imponentes do Micossintetizador, o crescimento único que corria desenfreado pelo núcleo do plano. Tezzeret via o Micossintetizador com medidas iguais de temor e cautela. De certa forma, era o organismo supremo — vivo e abundante, sua treliça metálica uma estrutura cristalina tão perfeita quanto qualquer artífice poderia conceber. Mas o Micossintetizador escondia um perigo: a exposição prolongada a ele transformava metal em carne e vice-versa, explicando a natureza parcialmente metálica dos poucos Mirrianos restantes, bem como a incapacidade dos Phyrexianos de atingir formas totalmente metálicas.
Assim que saíram da ponte e entraram no próprio Jardim do Micossintetizador, Tezzeret tornou-se agudamente consciente do som — ou melhor, da falta dele. Estava estranhamente silencioso neste nível inferior, sem dúvida devido à forma como Elesh Norn havia bloqueado as camadas centrais que ficavam abaixo da basílica.
"Você fala com a Mãe?" Tezzeret chamou o guia. Sua voz ricocheteou nos tetos altos e nas paredes distantes do núcleo, ecoando em todas as direções. He baixou o volume e falou novamente: "Você sabe com que frequência ela ascende do núcleo do plano?"
"A Mãe das Máquinas age sem prestar contas. Não me cabe saber."
"Quando foi a última vez que ela recebeu um visitante?"
"Obedeça e aprenda", disse o guia. "Essa é a totalidade da minha existência."
Tezzeret não gostou nada disso. Tanta pompa para o que equivalia a uma tarefa de entrega servil. Um pensamento repentino enviou um calafrio por seu corpo. Por que he estava conseguindo uma audiência, e por que agora? Desde que se aliara a Urabrask — uma parceria frouxa, com certeza, mas em que ambos os lados sabiam onde o outro estava — Tezzeret vinha transmitindo informações sub-repticiamente para o pequeno grupo de Jace em Ravnica. Ele até conseguira contratar anonimamente o mago fantasma para rastrear Vorinclex, apesar de tudo. Teria Elesh Norn descoberto a traição deles? Estaria Tezzeret marchando para uma armadilha? Havia uma maneira de descobrir. Não era sem risco, mas era superado pelo risco da inação, de aceitar os termos de engajamento de Elesh Norn.
"Pare", chamou ele, mas o guia não deu atenção. Tezzeret soltou a plataforma e estendeu seu braço de etérium, desenrolando-o para longe dele como uma massa de tentáculos que ele então enrolou no pescoço do guia. "Eu lhe dei uma ordem."
"Não sou seu lacaio", guinchou o guia.
"Não." Tezzeret reformou sua mão em uma lâmina e a encostou no pescoço do guia. "Mas você sente medo, não sente?"
"Não há medo no abraço de nossa Mãe." Os ombros do guia giraram, enviando dois de seus braços para trás para afastar a lâmina de Tezzeret. Felizmente para ele, a essa altura ele já vira muitos Phyrexianos em batalha. O poder deles estava no choque e na surpresa — membros torcendo-se de maneiras impossíveis, mandíbulas irrompendo de lugares estranhos no corpo. Distração, tudo isso. Tezzeret chutou a plataforma flutuante para derrubar o guia no chão. Então ele circulou para ficar sobre o Phyrexiano prostrado e, com um único golpe bem colocado, atravessou-o.
Depois de rolar o corpo para uma área de vegetação rasteira, Tezzeret segurou a plataforma, saiu do caminho que vinha seguindo e adentrou o Micossintetizador.
A ira conquista a ira.
Fazia vários anos que Tezzeret não se aventurava pelo Jardim do Micossintetizador de Nova Phyrexia. Ele presumira que ele estivesse protegido de mudanças ambientais mais recentes, evidentes em outras partes do plano; a Treliça do Micossintetizador sempre fora deixada para se espalhar por conta própria, com operações ocasionais para minerar os crescimentos em busca de material para construir novas estruturas. Infelizmente para ele, as coisas haviam mudado. A paisagem era diferente. Reorganizada.
"Onde diabos está isso?" Tezzeret resmungou. Em todas as direções, tudo o que ele conseguia ver eram as espirais que abrangiam toda a altura da camada como árvores maciças com copas extensas. Ele abriu caminho pelos espaços mal navegáveis do jardim, esforçando-se para permanecer vigilante. Fazer contato físico real com os crescimentos poderia transmitir a mácula Phyrexiana devido à fusão da treliça com o óleo cintilante.
A criação gera destruição que possibilita a criação.
Espremendo a plataforma através de uma abertura entre duas colunas que cresciam uma na outra, Tezzeret emergiu em uma extremidade de uma vasta planície. Lá ele avistou uma torre solitária que poderia ter sido confundida com mais uma parte da treliça, exceto por seu brilho dourado.
"Finalmente", disse Tezzeret.
Ele dirigiu-se à torre, uma fortaleza extinta usada por um senhor anterior do plano, uma divindade que os Vedalkens chamavam de "Memnarch". Ele nunca conseguira uma explicação satisfatória sobre quem ou o que era esse Memnarch, fosse por contatos em Lumengrid ou por qualquer um da atual liderança Phyrexiana. Surpreendentemente, Jin-Gitaxias fora o mais direto ao descrever Memnarch como "um erro, mas valioso para nossos propósitos". Qualquer que fosse a natureza desse Memnarch, seu antigo refúgio ainda estava intacto. Na verdade, parecia em condições muito melhores do que os destroços tombados de que Tezzeret se lembrava.
Tanto melhor , pensou Tezzeret. Se a torre foi reparada, talvez o que procuro lá dentro também tenha sido totalmente restaurado. Quando chegou à base da torre, a princípio não viu nenhuma forma de entrar. Ele deixou de lado a plataforma que vinha empurrando e começou a tatear todos os lados da base da torre, encontrando apenas metal sólido — açocuro, para dizer a verdade. Ele lançou um feitiço para borrifar uma névoa fina de pó luminescente na base da torre, destacando o contorno de uma porta, uma sem maçaneta, sem método de acesso. Formando uma garra com seu braço de etérium, ele tentou forçar a abertura da porta. Mas o açocuro resistiu a todas as tentativas de mordê-lo, dobrá-lo ou arrancá-lo de sua posição.
"Isto é loucura!"
"É", uma voz chamou, ecoando nas superfícies metálicas do Micossintetizador, "um vestígio da mais traiçoeira loucura."
Tezeret virou-se bruscamente, com a garra estendida e pronta para golpear a qualquer sinal de movimento. Mas havia apenas ele~ e a plataforma coberta que ele trouxera. Ele alongou seu braço em uma pinça e puxou o manto da plataforma, revelando os membros desmontados e o torso de Karn presos no lugar com fechos de açocuro tingidos de ouro. Tezzeret aproximou-se da plataforma, onde viu os olhos prateados de Karn abertos e brilhando suavemente.
"Pai das Máquinas", disse Tezzeret. "Estou estranhamente satisfeito que sua morte tenha sido exagerada."
"Fuja, então. Você ainda tem sua mente. Reconstrua seu corpo em outro plano."
"Eu tentei, mas os Phyrexianos ligaram algum tipo de material a mim, impedindo a viagem interplanar. Estou preso aqui."
Então, seu palpite estava correto: a laje restringia a transposição de planos de Karn. Tezzeret fez uma careta diante da possibilidade de Elesh Norn poder amortecer sua habilidade de escapar do plano, embora duvidasse que ela pudesse prejudicar tanto suas próprias habilidades quanto a função da Ponte Planar ao mesmo tempo. Mesmo assim, ele apreciou ter sido alertado sobre as possibilidades.
"Então, estamos presos juntos, por assim dizer."
"Por que você deseja entrar no Panóptico?" Karn perguntou.
"Isso é assunto apenas meu." Tezzeret olhou para o topo da torre, onde ela se alargava em uma grande câmara pentagonal, cada lado com um conjunto de portilhos de observação. "A menos que você queira me dizer como posso obter acesso."
Karn fechou os olhos e permaneceu em silêncio por um tempo. Então, abrindo os olhos, disse: "Eu posso levá-lo para dentro. Este já foi o meu reino, afinal."
"Você dificilmente está em posição de ir a qualquer lugar", disse Tezzeret com uma risada.
"Apenas uma parte é necessária", disse Karn. "Minha cabeça — ela pode ser separada do meu corpo."
Tezzeret inclinou-se e agarrou as laterais do pescoço de Karn. Ele tateou e, com certeza, seus dedos localizaram um mecanismo de trava bastante simples, não muito diferente de uma fivela, que mantinha a cabeça do golem no lugar. Desfazendo a trava, ele deu meia volta na cabeça de Karn, libertando-a do resto de seu torso. Tezzeret segurou a cabeça para olhar para ela.
"Não é uma escolha de design que eu teria feito", disse ele. "Um elo mágico é mais seguro."
"Meu criador confiava mais em sua habilidade de artifício do que em qualquer feitiço."
Ele nunca havia pensado no indivíduo que criara Karn. Para ter construído tal ser, seu criador deve ter sido alguém de talento e importância — não como seu próprio pai, um lixo inútil que manipulou Tezzeret para catar etérium sem compartilhar os lucros.
"Vamos acabar com isso." Tezzeret recolheu o manto e o estendeu de volta sobre o resto do corpo de Karn. Então, como Karn instruíra, ele tocou a cabeça do golem na porta de açocuro. Tezzeret começou a sentir um formigamento estranho nos dedos, uma pressão estranha que se espalhou por seu braço.
"Não se assuste", disse Karn. "Estou redirecionando as energias naturais do metal em seu corpo para se sintonizarem com a porta. Só mais alguns instantes." Fiel à sua palavra, os esforços de Karn fizeram a porta deslizar para abrir. Tezzeret colocou a cabeça de Karn debaixo de um braço e, com o outro, puxou-se para dentro da entrada. Uma vez lá dentro, Tezzeret lançou um feitiço fazendo seu braço de metal brilhar em um azul elétrico frio, iluminando seu caminho pelos degraus curvos até a câmara no topo.
Tezzeret notou as diferenças da última vez que esteve aqui. Haviam sumido as marcas de queimadura nas paredes, assim como o trono mecânico e as orbes flutuantes rachadas. Tudo estava limpo. Em duas das paredes pendiam o que pareciam ser suportes de metal dimensionados perfeitamente para prender humanos, e no centro da sala estava o objeto da jornada de Tezzeret — um monólito alongado em forma de diamante que lhe permitiria ver qualquer parte de Nova Phyrexia.
"O Olho de Açocuro", disse ele para Karn. "Só consegui usá-lo algumas vezes quando estava espionando para Nicol Bolas. Mas quando o fiz, mesmo estando meio quebrado, ele se mostrou bastante perspicaz."
"Se Elesh Norn restaurou o olho", alertou Karn, "ele só mostrará o que ela quer que você veja."
"Eu serei o juiz disso." Tezzeret colocou a cabeça de Karn no chão e tocou a superfície do Olho de Açocuro. Uma das facetas abriu-se e ele entrou. Como o Panóptico, o olho fora restaurado à funcionalidade total. Cada uma de suas telas de visualização espelhadas estava imaculada e, quando ele tocou o painel de controle, elas se acenderam, inundando-o com visões das várias camadas de Nova Phyrexia.
Busque apenas a certeza.
Tezzeret observou imagens de cada camada do plano. Legiões estavam sendo reunidas e equipadas para a guerra. Ele conhecia a escala das operações. Os pretores não tinham vergonha de se gabar. Mas, ao testemunhar o tamanho colossal das forças que estavam sendo reunidas, ele começou a se perguntar sobre como tal exército seria implantado em outros planos. Ele presumira que a Ponte Planar seria a chave para os esforços de invasão de Elesh Norn, mas ele nunca poderia transportar uma força tão grande, que superava em muito o exército de eternos de Bolas.
Então, como ela vai fazer isso? ele se perguntou. Enquanto girava os botões no painel de controle para mudar as visões e os ângulos visíveis na tela, ele descobriu que dois locais conseguiam desafiar a intrusão do olho. Um, ele deduziu, era o domínio de Urabrask. Não era surpresa que o pretor mal-humorado da Fornalha Silenciosa tivesse se esforçado para impedir o monitoramento externo. O outro local evasivo era o santuário de Elesh Norn.
Tezzeret bateu com o punho no painel de controle, fazendo as telas se desligarem e a porta se abrir novamente. Karn estava certo. Teria sido tolice de Elesh Norn permitir que qualquer dispositivo — especialmente um dela — traísse seus segredos. Uma precaução sensata, mas não menos enfurecedora. Ele voltou para a câmara principal do Panóptico.
"Você viu o que desejava?" perguntou Karn.
Tezzeret franziu o cenho diante da insolência de Karn, reprimindo o impulso de golpear o outrora poderoso Planeswalker. "Vi a aniquilação", disse ele, encostando as costas no Olho de Açocuro e deixando-se cair no chão. "O destino que aguarda a todos nós."
"O destino que você ajudou a construir."
"Não me dê sermão", disse Tezzeret. "Eu estava lá, lembra? Quando o óleo tinha você sob seu controle? Balbuciando incoerentemente em um segundo e ordenando a execução de prisioneiros Mirrianos no seguinte. Esta é a sua loucura!"
"O que você diz não é mentira", disse Karn em um tom penitente. "Outrora, acreditei que minha responsabilidade — a responsabilidade de todos os Planeswalkers — era criar, acolher novas vozes para o ser e guiá-las. Eu queria que Argentum fosse um refúgio livre de guerra e dor."
"Eles o encontrariam eventualmente", disse Tezzeret. "Guerra e dor~ Elas são insaciáveis. Imparáveis. Com mil rostos e mil nomes."
"Como Nicol Bolas."
"Eu o odiava, sabe", disse Tezzeret, tocando as tatuagens em forma de chifre em sua testa — marcas destinadas a lembrá-lo de onde suas lealdades deveriam estar. "Ele nunca me deixou esquecer a dívida que eu tinha com ele — a vida que ele me devolveu depois que Beleren me deixou como uma casca vazia e sem mente. Deixe-me agradecer oficialmente por me livrar dele."
"Não tivemos escolha", disse Karn. "Ele ameaçava todo o Multiverso."
Com isso, Tezzeret soltou uma gargalhada. "Oh, Pai das Máquinas, essa é boa! Sabe, depois que você deixou este plano, eu voltei para Bolas. Ele queria saber se os Phyrexianos haviam alcançado a viagem interplanar, e eu lhe disse a verdade: Eles não haviam. Mas, se algum dia o fizessem, seriam uma força de caos, um perigo para qualquer um que buscasse governar. Sugeri que seu precioso plano fosse eliminado antes que isso acontecesse e, para minha surpresa, ele concordou. Seu primeiro ato como deus-imperador teria sido obliterar Nova Phyrexia da existência."
"E em troca, tudo o que precisávamos fazer era morrer, deixando todos os outros serem seus súditos leais."
"É sempre tão simples para você — todos vocês, tolos fingidos, fingindo que suas mãos estão tão limpas! Os heróis brilhantes que vêm para erradicar o imundo, o profano, o mal !" Tezzeret sentiu sua máscara de amabilidade queimar. "Você fala de nossas responsabilidades? Você poderia ter assumido a responsabilidade por suas escolhas — aceitado sua posição como senhor de Nova Phyrexia. Com certeza, teria sido melhor do que o 'paraíso' prometido por Elesh Norn!" Ele levantou-se cambaleante e pegou a cabeça de Karn. "Cada dia que vivo é mais um pelo qual lutei! Cada respiração que dou é uma mais próxima da~"
"Da quê?"
Liberdade. Era o que ele queria dizer. Mas, na mesma respiração, outra palavra surgiu em seus lábios. Completação. Sua mente saltava de uma ideia fugaz para a seguinte. Desde sua chegada inicial a Nova Phyrexia, ele fora protegido da influência do óleo cintilante graças a uma inoculação fornecida por Nicol Bolas. Mas e se~ E se a proteção tivesse diminuído sem o dragão vivo para reforçá-la? Ou pior, e se os tratamentos nas forjas de Kuldotha tivessem introduzido algo pior do que a Ponte Planar em seu corpo? Algo mais insidioso?
A pele é a prisão dos abençoados.
"Você os ouve, não ouve?" disse Karn. "Preste atenção. Não questione. Siga. Torne-se e pertença. As mesmas vozes que ouvi quando o óleo tinha o comando do meu coração."
"Cale a boca!" Tezzeret puxou a mão para trás, transformando-a em uma ponta de lança, e com o braço tremendo de raiva, encostou sua ponta na testa de Karn. Ele encarou o rosto de Karn, a expressão do golem tão plácida quanto quando os sacerdotes de Elesh Norn o despedaçaram. "Você teme o seu próprio fim, Karn?"
"Sim", disse ele. "Fiz tudo o que pude para evitá-lo. Mas não foi o suficiente. Não o suficiente."
Tezzeret baixou a mão. "Ela suspeitará de algo se você for ferido." Ele fez o caminho de volta pela torre, prendeu a cabeça de Karn de volta ao seu corpo e partiu para encontrar Elesh Norn.
Tezzeret deu voltas pelo Jardim do Micossintetizador seguindo o declive do terreno conforme ele diminuía, imaginando que estava procurando o ponto mais baixo possível no plano. Sua aposta provou estar certa, pois ele deparou-se com uma escadaria recém-construída bem no centro do jardim. He não se lembrava da escadaria nem dos estranhos brotos pontiagudos que superavam o Micossintetizador de suas visitas anteriores tão profundamente no plano.
Tezzeret lembrava-se do que estava sob seus pés. O próprio coração de Nova Phyrexia. A antiga sala do trono de Karn. Descendo os degraus e entrando em um túnel escuro, ele preparou um feitiço em caso de ataque. Se a memória não falhasse, ele acabaria chegando a uma porta de metal com a largura e altura de um gigante, adornada com engrenagens e rodas dentadas. Mas não havia tal porta. Em vez disso, a boca do túnel dava para o que fora a câmara semelhante a um abismo onde ficava o trono de Karn. Apenas o trono não era mais visível sob um emaranhado de cabos grossos e blindados que se enrolavam ao redor dele, espiralando até o teto da câmara. A cena estava banhada por um brilho vermelho pulsante.
Um batimento cardíaco.
Tezzeret seguiu as raízes da estrutura semelhante a uma árvore até sua base, ao lado da qual havia um peristilo, no centro do qual estava um lago de reflexão. Sentada ao lado do lago estava Elesh Norn, seu corpo de porcelana coberto por um capuz da cor do sangue.
A Mãe das Máquinas olhou para cima com sua aproximação.
"Tezzeret", disse ela, sua voz suave cortando o ar espesso. "Sua jornada até aqui foi agradável, confiamos."
"Sem incidentes", disse Tezzeret. Ela parecia estar de bom humor. Um mau sinal no geral , ele presumiu. Mas a curto prazo, era bom para ele. Ele estava pronto — pronto para receber seu corpo de açocuro e deixar os Phyrexianos se matarem. O Multiverso era um lugar quase infinito. Havia lugares para se esconder, para desaparecer. Para sobreviver. "Fiz como você pediu." Ele puxou o manto das peças do corpo de Karn, fazendo Elesh Norn se levantar e fazer uma reverência.
"Pai", disse ela. Os suportes de açocuro soltaram-se ao toque dela, permitindo que ela tomasse o torso de Karn em suas mãos. "Seja bem-vindo ao nosso grande trabalho."
Karn não disse nada.
"As coisas têm sido difíceis entre nós", disse ela. "Mas quando você souber como temos levado adiante o seu sonho, entenderá por que fizemos o que fizemos com você — o que faremos com você. Não como punição, não. Mas como penitência, para mostrar que ninguém, nem mesmo nosso amado patriarca, está acima de qualquer reprovação."
"Seu trabalho é de fato grande, Mãe", disse Tezzeret. "But creio que também temos assuntos inacabados. Minha recompensa."
"Pelo serviço fiel, sim", disse ela. "Você nos mostrou tamanha graça, Tezzeret. Não poderíamos ter nosso Rompe-reinos sem você."
Tezzeret lembrou-se de estar na sala do trono de Elesh Norn na Basílica Reluzente quando ela lhe sinalizou para abrir um portal para Kaldheim. A matriz de energia da Ponte Planar irrompeu de seu peito, banhando seu corpo em um vórtice de fogo elétrico. Saindo do portal vermelho estava o endosqueleto escaldante de Vorinclex, uma garra arranhando o chão e a outra segurando uma garrafa, que um dos aspirantes de Elesh Norn levou embora. Aquela garrafa — ela devia conter a essência da Árvore do Mundo de Kaldheim. E agora, os Phyrexianos tinham a sua própria.
Rompe-reinos. Isso era obra dele. Ele era diretamente responsável.
Elesh Norn sorriu. "Decidimos que você será nosso arauto em Dominária. Restam intrusos no plano conspirando contra nós — Planeswalkers de seu conhecimento. Você liderará o esforço para iluminá-los sobre o erro de seus caminhos."
"De volta a Dominária?"
"Paciência, paciência."
Paciência? Quantas vezes ele ouvira essa palavra ser passada a ele em vez do que ele merecia? Foi então que ele compreendeu — Elesh Norn não tinha intenção de cumprir sua promessa. O plano dela para ele era usá-lo até não poder mais ser usado, então descartá-lo ou, pior, esfolá-lo e reconstruí-lo para ser outro cachorrinho de colo como Ajani. Fossem os Buscadores, Nicol Bolas ou os pretores de Phyrexia, ninguém que o traísse dessa maneira jamais seria poupado de sua ira. Nem agora. Nem nunca.
Ele fixou os olhos em Elesh Norn, despejando todo o seu desprezo, toda a sua raiva, toda o seu ódio na imagem dela para que nunca esquecesse este momento — este momento em que tudo ficou claro. Se era uma guerra que Urabrask queria, ele teria tal guerra. Tezzeret se certificaria disso.
Na extremidade oposta do lago de reflexão, Elesh Norn colocou o torso de Karn sobre um pedestal envolto em vinhas de hera branca de porcelana. Ela inclinou a cabeça.
"Você realmente não tem nada a dizer? Depois de todo este tempo? Somos família, afinal de contas."
Foi então que Karn finalmente falou: "Jhoira~ Jhoira é minha amiga~ minha melhor amiga. Nós nos conhecemos na academia original, antes que o acidente nos expulsasse de Tolária. Ela me deu o nome. Karn~ de um antigo nome Thran. Ela disse~ Ela disse que significava —"
"Chega", disparou ela. "É óbvio que as tensões deste dia o deixaram perturbado."
Bem jogado, Karn , pensou Tezzeret. Em uma posição enfraquecida, sim, mas permanecendo no tabuleiro.
"Descanse sua mente, Pai." Elesh Norn acariciou o rosto de Karn como uma mãe faria com um filho doente. "Quando nosso grande trabalho for alcançado, você desfrutará da alegria da perfeição com o resto do Multiverso." Então ela olhou para Tezzeret. Desaparecera a fachada de amabilidade, substituída pelo tom frígido de sua voz. "Você ainda está aqui. Por quê?"
Com um rosnado, Tezzeret virou-se e foi embora.
Arte de: Camille Alquier
Tezzeret entrou no complexo de cavernas escondido nas profundezas da Cratera Cometia de Shiv. Antes do ataque ao Equipamento de Mana, esses túneis fervilhavam com tropas Phyrexianas. Agora, não restava mais do que uma pequena companhia de centuriões e negadores em qualquer tipo de condição de combate. Um bom número entre eles sofria ferimentos graves — apêndices cortados, seções inteiras de seus corpos queimadas ou espancadas até virarem geleia — exigindo que vasculhassem corpos do local da batalha para usar como material orgânico. Por mais prejudiciais que tenham sido essas perdas, o custo real para os Phyrexianos fora a escassez de liderança deixada pela detonação do Equipamento de Mana. Tezzeret compreendia que tais contratempos eram a verdadeira morte de uma busca, nobre ou não.
Nada de desperdício, nada de falta.
"Rona", disse Tezzeret à nova chefe de operações em Shiv. "Relatório de status."
"Eu não respondo a você", disse Rona. "Sheoldred me deixou no comando."
"Você vê Sheoldred aqui?" Com sua paciência para o discurso há muito esgotada, Tezzeret imediatamente atacou com seu braço de metal e perfurou o ombro dela com uma farpa longa e fina. Rona agarrou-o, forçando Tezzeret a se afastar. He tropeçou para trás, impressionado. Rona implementara suas próprias ampliações desde o último encontro deles. Bom saber. Em vez de prosseguir com o ataque, Rona chamou seus tenentes — um, um centurião equipado com um par de asas escamosas, e o outro, um design mais carnudo com bobinas de cabos anudados no lugar dos braços — para intervir na batalha. Esse foi o erro dela. Sob os Senhores do Aço, demonstrações de força e poder eram a totalidade da lei. Seus tenentes não iam interferir.
Ela os chamou novamente, e Tezzeret usou essa distração momentânea para lançar um feitiço multiplicando a massa do metal no corpo dela, esmagando-a contra o chão. Ele colocou a mão — a orgânica — com a palma voltada para cima no ombro dela. "Disseram-me que a carne desprotegida leva alguns segundos para vaporizar nas Eternidades Cegas. Nesse pequeno espaço de tempo, imagino que a pessoa sentiria~ uma dor indescritível. Mas, como eu disse, acaba rápido. Supostamente. Quer ver?"
"Não."
Tezzeret inclinou-se perto do rosto dela. "Relatório de status", rosnou ele, e então dissipou sua magia.
Rona fulminou Tezzeret com o olhar enquanto recuperava o equilíbrio. "Sofremos perdas."
"Isso é altamente óbvio. Você pediu reforços?"
"Sim, mas nossos quadros já estão destacados em suas posições. Exércitos inimigos reuniram-se em Benália, Corondor e Krosa. Restam poucas forças disponíveis."
"Hmph. Quanto tempo levará para nossas tropas serem totalmente restauradas?"
"Algumas semanas. Um mês no máximo."
Ora, ora , pensou Tezzeret. He franziu a testa, fingindo estar preocupado. Veremos qual de nós é mais paciente, amada Mãe.
"Seus espiões. Eles mantiveram vigilância sobre os Planeswalkers?"
"Sim. Eles deixaram Shiv", disse Rona. "Mas conseguimos rastreá-los de volta a Nova Argive."
Nova Argive? O que os traria de volta para lá? Pelo que ele sabia, Nova Argive fora totalmente infestada por forças Phyrexianas. Seria suicídio buscar refúgio dentro das muralhas de Argívia ou de qualquer outro assentamento importante. A menos que eles não estivessem tentando obter ajuda de seus antigos aliados. Curioso.
"E quanto às tropas especiais deixadas sob seus cuidados? A elite da Mãe?"
Um sorriso surgiu no rosto de Rona. "Recém-restauradas e aguardando ordens."
"Excelente", disse Tezzeret. "Uma grande família feliz."
Capítulo 4: O Escuro
25 de outubro de 2022 • Reinhardt Suarez
Banhados em luz sagrada, os infiéis olharam para as impurezas de suas almas e desesperaram-se.
—O Livro de Tal
Querida Elspeth,
É perfeitamente natural esquecer. A sobrevivência reside no esquecimento. Lembrar-se de todas as coisas em ordem perfeita exige tanta atenção e energia. Demais. Esse é o objetivo desta missiva para você — aliviar o fardo de esquecer ou de lembrar, pois cada um rouba de você os benefícios do outro. Em vez disso, deixe que estas palavras permaneçam próximas ao seu coração.
O sono não viera fácil para Elspeth desde que chegara a Dominária há quase uma semana. Ela havia descansado, reservado um tempo para se banhar nas instalações desta torre solitária e meditado recitando seus antigos votos de cavalaria. Mas nem mesmo o tamborilar constante da chuva conseguia conduzi-la através dos portões dos sonhos.
Para preencher as horas inquietas entre o crepúsculo e o amanhecer, ela treinava no salão principal da torre, movendo-se através das posturas de batalha que aprendera como escudeira em Valeron. Quando chegou pela primeira vez ao plano, o salão estava vazio, permitindo-lhe todo o espaço que desejava para brandir sua espada. Mas em questão de dias, o salão tornara-se cada vez mais lotado com os soldados de metal de Saheeli. Elspeth aceitara o comando desta guarnição mecânica a pedido de Teferi. Fazia sentido — ela tinha a maior experiência em campo de batalha de qualquer Planeswalker na torre. Ainda assim, esses constructos eram substitutos medíocres para cavaleiros reais. O que eles sabiam de ferimentos sofridos na defesa de outrem, de preces proferidas em nome de outro para~ bem, algum ser divino?
Nada. O aço só conhecia o aço.
Elspeth posicionou a lâmina em forma de espada de um dos soldados, um constructo que se assemelhava a um besouro bípede e blindado. Então, ela se estabeleceu na primeira guarda, segurando um broquel que arrancara do braço de um dos soldados. Da primeira guarda para a segunda. Ela desferiu um golpe de revés pela esquerda, sua lâmina tinindo contra seu adversário silencioso, retornando então para sua têmpora. Da segunda guarda para a terceira. Elspeth golpeou novamente, trazendo sua espada de volta para baixo, a lâmina tão próxima de sua orelha que ela a ouviu cantar. Da terceira guarda para a quarta. Arqueando sua espada para o alto mais uma vez, ela tocou a cabeça do soldado de metal. Da quarta guarda para a quinta. Finalmente, ela desceu sua espada em um golpe seco, varrendo a ponta de sua lâmina para trás de si.
Aceitável. Agora faça de novo.
Um~ dois~ três~ quatro~ cinco.
De novo. Mais rápido.
Um, dois, três, quatro, cinco.
Não rápido o suficiente! Faça de novo!
Umdoustrês—
Elspeth tropeçou, sua espada caindo de suas mãos e retumbando no chão. Exasperada, ela arremessou o broquel o mais forte que pôde através da sala. Houve um tempo em que ela não precisava pensar em como lutar. Os movimentos estavam enxertados em seus músculos, gravados em seus ossos. Nenhum pensamento extra necessário, nenhuma hesitação concedida. Mas depois de todas as suas experiências em Nova Capenna, seus movimentos pareciam lentos, seu braço da espada, trêmulo.
"Seu adereço", disse uma Wrenn encharcada, entrando vinda da chuva. Sete, a árvore parceira da dríade, também pingando água, estendeu o escudo de Elspeth para ela.
"Obrigada", disse Elspeth secamente. Ela pegou o broquel e recuperou sua espada, então retomou sua postura diante do soldado de metal para começar a sequência novamente. Wrenn pairava, observando-a.
"Precisa de algo?" Elspeth perguntou.
"Você habita duas melodias. Como isso é possível?"
"O que você quer dizer?"
"Todo ser faz parte de uma canção", disse Wrenn. "Uma melodia que contribui para o todo. Mas você — há duas melodias em você. Uma é uma nota única, constante e certeira. A outra está fendida, uma ária interrompida no meio."
"Eu~", ela começou. "Você deve estar enganada."
"Não há erro. É como se você vivesse duas vidas separadas. Uma na luz, outra na sombra."
"Você está errada", retrucou Elspeth, batendo sua espada de volta na bainha.
"Muito bem", disse Wrenn, com Sete obedecendo ao se afastar para dar espaço a Elspeth.
Elspeth fez uma careta. Ela não pretendera ser tão ríspida, mas não gostava da maneira como a dríade proclamava coisas sobre ela, como se um punhado de dias fosse suficiente para dissecar sua alma.
"Wrenn, perdoe-me. Eu—"
"Espere", disse Wrenn. "Há uma perturbação no ritmo da chuva. Alguém está lá fora."
Elspeth desembainhou sua espada e aproximou-se da entrada maciça na frente da torre. Ela lamentou a existência de uma passagem tão aberta para o interior da torre. Uma ponte levadiça teria sido taticamente superior. Uma barbacã com um fosso, melhor ainda. Qualquer coisa para barrar o caminho de um exército em avanço.
"Pode dizer quantos?" Elspeth perguntou.
"Dois. De tamanho humano."
Duas pessoas não eram uma força de invasão. No entanto, Elspeth optou pela cautela.
"Acorde os outros, Wrenn. Eu vou investigar."
"Nós iremos juntas. Suspeito que o barulho servirá como um alarme adequado."
Elspeth e Wrenn marcharam sob a chuva, passando pelo pátio, descendo os degraus rasos e ondulados até a trilha de pedra que fora reclamada pela grama e pela terra.
"Mostre-se!" Elspeth gritou. "Quem está aí?"
Sem resposta. Se houvesse perigo, Elspeth não queria arriscar.
"Fique perto de mim, Wrenn", disse Elspeth, lançando um feitiço de luz em seu escudo. Então, com a ponta de sua espada, ela riscou um círculo ao redor de Wrenn e de si mesma, proferindo uma palavra de poder. Ao primeiro sinal de agressão, ela poderia fortalecer o círculo para proteger contra qualquer magia hostil.
Ela apontou a luz de seu escudo para a escuridão, revelando duas figuras se aproximando. Elas avançaram sem armas em punho, sem um andar ameaçador. Não apenas isso, mas Elspeth podia sentir a presença de magia — evidenciada pelo tênue brilho verde que cercava as figuras — bem como o puxão sutil das centelhas de Planeswalker.
Mas seriam amigos ou inimigos?
Elspeth segurou firme sua espada. Ela estaria pronta de qualquer forma. Quando as figuras estavam a apenas alguns passos do círculo, uma delas — uma mulher com cabelos ruivos flamejantes — ergueu a mão e gritou: "Você é Elspeth?"
Sólido. Constante. Leal. Comprometimento em um escudeiro é louvável, especialmente quando falta habilidade. Mais de uma vez, você repreendeu Aran por seu manejo da lâmina. Você sabia que ele jamais poderia ser um verdadeiro cavaleiro de Bant. Forte de braço, bom para alguns golpes de espada bem colocados em uma arena. Mas um membro da casta dos Sigilos? Ele nunca seria digno.
Você o deixou ir para o campo de batalha de qualquer maneira. Não é de admirar que ele tenha caído, o menino brincando de ser homem. Quando você o trouxe de volta com sua magia de cura, ele olhou para você como uma deusa oculta. Você nos deu esperança, ele lhe disse quando você visitou seu leito de recuperação. Eu confio em você. E por que não? Mentores não abandonam seus protegidos quando eles mais precisam de orientação.
Mas você o fez. Você jogou fora sua espada, descartou sua armadura, negou seu dever. Hoje em dia, ele passa suas manhãs mancando pelos belos caminhos de jardim do monastério onde serve. A dor que atormenta seu corpo não é nada comparada ao vazio em sua alma. Ele finalmente aprendeu sua verdadeira lição: Não tenha esperança. Ela não é para você.
Nissa Revane e Chandra Nalaar caminharam em direção à luz. Mais duas pessoas na lista daqueles que sabiam mais sobre Elspeth do que ela sobre eles, graças a Ajani. Ela e Wrenn as receberam na torre, permitindo que se secassem e se situassem. Para seu crédito, elas foram gentis, emanando tanto calor quanto qualquer pessoa já lhe demonstrara. Mas elas não eram suas amigas, por mais que parecessem desejar isso. Talvez com o tempo, mas esse tempo ainda não havia chegado.
Então, Elspeth sorriu. Ela sorriu, não disse nada e, após entregá-las a uma Kaya de olhos sonolentos para uma sessão de relatório, não olhou para trás para se despedir. Ela tinha seus deveres, afinal, que não incluíam sentar-se em reuniões bebericando chá. Ao sair da torre, o local fervilhava de atividade, grande parte concentrada no salão principal, onde uma equipe de autômatos servos brilhava e polia as fileiras de guerreiros mecânicos.
Lá fora, o temporal de antes cedera o suficiente para Elspeth viajar até as torres de vigia localizadas ao longo do perímetro do vale, os remanescentes de uma antiga rede de defesa. Ela vinha realizando melhorias nos últimos dias em nome de Saheeli, que estava feliz por ter a ajuda extra para poder se concentrar em trabalhar com Teferi, Kaya e a Âncora Temporal. O trabalho servia bem a Elspeth. Estar longe dos ruídos e discussões na torre permitia-lhe ruminar sobre tudo o que lhe acontecera em curta sucessão — abrindo caminho para fora do Mundo Inferior de Theros, encontrando seu plano natal, perdendo Ajani.
Não. Not simplesmente losing him.
Ele é um deles — um Phyrexiano , Teferi dissera. Sinto muito.
Afastando o pensamento de sua mente, Elspeth jogou seu saco sobre o ombro e escalou o afloramento rochoso na base da torre de vigia. Ela descansou brevemente quando alcançou os degraus de pedra esculpidos na lateral da própria torre, então subiu todo o caminho e saltou o parapeito para uma pequena borda no topo. No centro da plataforma coberta estavam os remanescentes de uma torre que outrora disparava projéteis semelhantes a arpões em quaisquer intrusos dentro do alcance. Agora apenas sua base restava, um monte de pedra em ruínas.
Elspeth puxou um cilindro revestido de aço de seu saco, então se virou para dar alguns chutes rápidos na antiga torre, derrubando-a facilmente. Ela colocou o cilindro de Saheeli em seu lugar e inseriu um pequeno cristal amarelo em uma depressão em seu topo. Em poucos instantes, o cilindro rolou por conta própria e se desdobrou duas vezes, formando uma base de tripé e um cano curto de onde disparos de energia podiam ser descarregados.
"É isso", ela disse para si mesma, e recostou-se contra a parede da câmara da torre. Fechou os olhos, respirou o ar frio e limpou a mente. Por hábito, começou a recitar a Oração de Asha, o anjo guardião de Bant.
"Não se desvie para o pecado", Elspeth começou. Então ela parou. Não importa o quanto praticasse, não importa quantos mantras Elspeth recitasse, Asha não tinha obrigação de ouvi-la. Elspeth jogara fora seu juramento quando desertara de Alara. Então, o que dizer de seu outro patrono, Hélio? Um tirano mesquinho, um malfeitor e assassino indigno de sua devoção, agora merecidamente acorrentado a uma rocha no Mundo Inferior de Theros. Outros deuses aguardavam nos bastidores — Serra bem aqui em Dominária, para citar uma — todos prometendo favores em troca de fé.
E esse era o problema. Que fé eu tenho para dar? Tudo o que eu amo se foi. Todos se foram. Nada em que acreditar. Então ela se lembrou de que isso não era totalmente verdade. Restavam alguns. Koth estava vivo. Vivien provara ser uma verdadeira amiga. E havia Giada. Ela se perguntava se Giada podia vê-la agora, de alguma forma. Se houvesse qualquer chance~
"Você me disse que eu tinha tudo o que precisava", disse Elspeth suavemente. "Mas os Phyrexianos — tudo o que fazem é tirar. Tirar, e distorcer, e destruir até que não reste nada de você além de ódio e desespero. E eu os odeio tanto pelo que fizeram com Ajani. Você disse que meus fracassos não me definem, mas quando deito minha cabeça para dormir, tudo o que vejo são aqueles que não fui capaz de proteger."
Se Giada heard her, she didn't answer. Elspeth didn't expect she would.
Quanto você sacrificaria por amor? Pergunte a Daxos de Meletis, pois ele abriu mão de tudo. Quem ele era, o que defendia, aquilo que adorava — nada disso está mais ao seu alcance. Para ele, existe apenas Hélio, seu senhor caído cuja punição não livrou Daxos de seu dever. Durante o dia, ele é forçado a cumprir a vontade do sol, sua vida restaurada um jugo eterno. Mas à noite, em seus sonhos, ele vaga desacorrentado, gritando seu nome nos prados infinitos de asfódelos de seis pétalas de Érebo, feitos do vidro mais afiado. Enquanto as bordas cortam suas pernas, fazendo-as verter sangue, he pauses to feel the pain, for in his waking life, he feels nothing at all.
Uma vez por lua, sua mente é ainda mais libertada para atravessar mais profundamente o reino de Crufix. E o que seus olhos de oráculo lhe mostram? Eles o levam até você — uma cópia, sem dúvida, mas real o suficiente para Daxos — de pé sobre o cadáver de múltiplas cabeças de Polucranos, o Devorador de Mundos, seu sangue negro ainda fresco em suas mãos.
"Por que você merece uma vida sem sofrimento?", ele exige saber. Você responde zombando de suas lágrimas, então enterra sua lâmina em seu peito, em seu coração.
Daxos acorda logo depois e se prepara para a aurora.
A chuva retornou no momento em que Elspeth chegou de volta à torre. Ela passou pelos olhares fixos dos silenciosos guerreiros de metal de volta para seu quarto, mas parou de súbito ao ouvir vozes vindas do corredor do lado de fora de sua porta. Espreitando pela esquina, ela reconheceu duas pessoas sentadas no chão do corredor. Chandra. Jodah. Uma jarra de vinho entre eles.
"Ela estava tão brava", disse Chandra. "Ameaçou me afogar! Eu nem queimei a floresta inteira! Apenas uma parte pequenininha. Quero dizer, as árvores crescem de novo~ eventualmente. Ah, e não conte nada disso para a Nissa."
"Afogar. Ela roubou essa ameaça de mim", disse Jodah. "Ah, Jaya. Sempre boa em destruir. Não tão adepta da criação." Ele deu um longo gole na jarra. "Céus, você não provou a comida dela, provou?"
"Ugh." Chandra arrancou a jarra de Jodah e engoliu vários goles. "Nem me fale da quiche."
Jodah caiu na gargalhada. "Ela fez a quiche? De novo?! "
"Depois disso, ovos foram proibidos em um raio de cinco milhas da Fortaleza de Keral. Não estou brincando — pagamos um sacerdote de Zinara para lançar uma proteção para manter as galinhas longe do lugar."
"Deixe-me ter uma vez na máquina do tempo da Saheeli, e eu voltaria~" Uma tristeza abrupta o dominou, e ele permaneceu em silêncio por um tempo antes de falar novamente. "Eu voltaria e comeria aquela coisa toda."
Elspeth observou enquanto Chandra colocava o braço em volta do ombro de Jodah e o segurava firme, tentando inutilmente evitar que suas próprias lágrimas corressem. Não era necessário saber quem era essa tal de Jaya para apreciar o que ela significava para Chandra e Jodah. Os amigos mais próximos.
Agora, enquanto eles estavam distraídos, Elspeth fez seu movimento. Ela esperava aparecer num lampejo, passar, chegar à sua porta e desaparecer atrás dela antes que Chandra ou Jodah percebessem que ela estava lá. Uma expectativa tão boba.
"Elspeth!" Chandra gritou, limpando o resto de suas lágrimas na manga. "Hey, quer se juntar a nós? Acredite em mim, você estaria nos fazendo um favor."
Elspeth soltou a maçaneta da porta e esboçou um meio sorriso. "Não, obrigada. Preciso estudar o mapa da área, garantir que tudo esteja sob controle."
"Estudar?" perguntou Chandra. "Do que você está falando?"
"Elspeth tem desenvolvido ações defensivas para o caso de sermos atacados", disse Jodah. "É uma estratégia bastante ousada, se me permite dizer."
Ousada? Ela não tinha tanta certeza. Desesperada parecia mais preciso. Além de configurar as torres de vigia, ela estivera trabalhando com Jodah, Kaya e Saheeli em medidas a serem tomadas no caso de um assalto à torre. Isso aconteceria eventualmente — era certo. Portanto, era imperativo ter um plano em ação. Mesmo um plano que tivesse uma chance remota de sucesso era melhor do que não ter nenhum.
"Obrigada." Ela pressionou a trava e sentiu o trinco de sua porta ceder. "De qualquer forma, sinto muito por interromper."
"Espere", disse Jodah, subitamente sério. "Eu sei que as coisas têm sido~ estranhas para você aqui." Ele apontou para o espaço vazio no lado oposto do corredor. "Você está entre amigos. Por favor."
Havia algo em Jodah que ela não podia negar — uma estranha familiaridade que ela não conseguia identificar, mas que, no entanto, a atraía. Talvez fosse algo tão simples quanto sua gentileza para com ela quando chegou à torre, o mero ato de dizer que ela era bem-vinda não importa o que acontecesse, que quaisquer dificuldades que estivesse enfrentando, ela tinha o espaço para lidar com elas conforme precisasse. Por isso, Elspeth cedeu. Ela fechou a porta e sentou-se no chão à frente dele.
"Sinto muito por sua amiga", disse ela. "Com toda essa loucura acontecendo, deve ser difícil estar de luto."
"Não estamos em luto", disse Chandra, oferecendo um pouco de vinho a Elspeth. "Estamos celebrando quem ela foi. É assim que Jaya gostaria que fosse."
Elspeth afastou a jarra. "Eu não a conhecia."
"Então nos conte sobre alguém que você conheceu", disse Chandra. "Alguém que se foi cedo demais."
Elspeth pensou nos nomes. Eram muitos. Alguns ela não suportava considerar mortos. Outros cujo destino não conhecia. E ainda outros no nebuloso meio-termo. Um nome emergiu dos recessos de sua mente, um que ela não pronunciava desde antes de Hélio derrubá-la.
"Eu conheci um homem", disse ela. "Um artífice de Urborg que lutou ao meu lado em Nova Phyrexia. Ele era exasperante e pretensioso." Ela não pôde evitar sorrir ao pensar nele. "Mas ele também era brilhante, corajoso e leal — o tipo de pessoa que se aventuraria através dos planos com a mais precária das informações porque achava que seus amigos estavam em perigo."
"Venser", disse Jodah, pegando o vinho e dando um gole.
"Você o conhecia?"
"Há muito tempo, quando ele era muito jovem e eu era~ um pouco mais jovem. Tenho vergonha de dizer que lhe dei um soco no rosto por circunstâncias que não eram culpa dele. Eu disse a ele que sentia muito, mas isso não tornou as coisas certas. Eu gostaria que ele estivesse aqui para contar suas piadas idiotas. Eu até fingiria rir."
"Você pensaria que, após décadas de luta~ tanta morte~ eu estaria acostumada com a perda", disse Elspeth. "Mas não consigo escapar dos nomes daqueles que caíram para me salvar. Daqueles cujo sangue está em minhas mãos por causa do meu fracasso. Seus fantasmas assombram meus sonhos."
"Bem, para mim já se passaram séculos, e mal consigo aguentar."
"Séculos?"
"Ninguém te?~" Jodah empertigou-se e limpou a garganta. "Você está na presença de um homem de quatro mil anos de idade. Eu sei, eu sei — não pareço ter um dia a mais que dois mil e quinhentos."
Dois mil e quinhentos? Ele não parecia ter mais de vinte e cinco! "Como isso é possível?"
"Ah, você sabe — o de sempre. Uma história muito, muito, muito longa para a qual não temos tempo e que eu não tenho paciência para contar." Jodah olhou para ela com nostalgia. "Em meu tempo, perdi pessoas que estimei. Tantas agora. Como você, posso fechar os olhos e ainda vê-las."
"Então, não fica mais fácil."
"Não", disse ele. "Não se você se permitir amar."
Chandra arrancou a jarra de vinho de Jodah e a ergueu. "Esta é uma celebração, certo? Então, um brinde! A Venser! A Jaya! A Gideon e~" Sua boca permaneceu aberta com o último nome, um que Elspeth nem precisou adivinhar. Ajani.
"Tudo bem", disse Elspeth. "Você pode dizer."
"Não. Não, não está", disse Chandra. "Nós vamos salvá-lo. E depois que o fizermos, vamos incendiar cada um daqueles bastardos Phyrexianos em qualquer plano em que os encontrarmos. Você tem minha palavra quanto a isso."
Elspeth assentiu e pegou a jarra de vinho de Chandra. "A Venser, Jaya e Gideon. Àqueles que perdemos e aos corajosos que ainda hão de cair. Até que todos tenham encontrado seu lugar."
Podem constructos sonhar? Calix, se conhecesse a palavra "sonho", diria a você que pode. Mas com o que sonha a marionete quando seus fios são cortados, quando as mãos que direcionam suas ações são retiradas? A resposta é simples. Ele sonha com sua presa ditada por Clótis, sua vida consumida pela perseguição a Elspeth Tirel. De plano em plano. De refúgio em refúgio. Ele nunca parará de caçar você — nem quando estiver acordado, nem quando estiver dormindo.
Veja você, Calix precisa dormir para recuperar suas forças, e quando dorme, ele sonha. Ele sonha com as batalhas que você lutou, estudando cada movimento que você usou contra ele para conceber o contra-ataque perfeito. O homem que não é homem pode aspirar a isso — ser perfeito, realizar seu propósito. Mas ele é mais do que um fantoche, veja você. Ele também teme seu próprio sucesso. Uma vez que ele tenha você, uma vez que a arraste de volta para compartilhar a perdição de Hélio como dita o destino, o que resta para ele? Qual é a essência de Calix uma vez que seus objetivos sejam cumpridos?
Ele sabe a resposta e está apavorado com ela. Nem mesmo um agente do fado pode escapar do destino.
O ataque phyrexiano veio no meio da noite.
Elspeth ainda estava prendendo as tiras de sua armadura enquanto corria pelos corredores da torre. A cada dois segundos, uma explosão ecoava, reverberando nas paredes de modo que cada estrondo parecia estar bem em cima dela. Chegando à porta da oficina de Saheeli, ela entrou impetuosamente sem se anunciar.
A Âncora Temporal sibilava e chacoalhava. Saheeli movia-se rapidamente de um lado para o outro, dobrando e torcendo partes de sua máquina com suas habilidades de metalurgia para se manter um passo à frente dela se despedaçando. Lançando uma névoa violeta sobre toda a cena estava Kaya, lutando para manter sua magia de forma fantasmagórica sobre si mesma e sobre a câmara em forma de caixão que abrigava Teferi.
"Estamos sob ataque!" Elspeth gritou. "Por favor, diga-me que você conseguiu o que precisa."
"Ainda não", disse Saheeli, mal conseguindo fôlego. "Mas Teferi está tão perto. Se desligarmos agora, não teremos outra chance de voltar. Por favor~ Só precisamos de um pouco mais de tempo."
Estava acontecendo. Elspeth fechou os olhos e, por um momento, todo o som se dissipou. Ela se lembrou do que disse a Teferi: Se os phyrexianos ainda estiverem neste plano, é apenas uma questão de tempo até encontrarem este lugar. Você precisará de alguém para defendê-lo se isso acontecer — se eles nos rastrearem. Agora eles haviam feito exatamente isso. Ela apertou seu broquel no braço e soltou o fecho que prendia sua espada na bainha. Procurou o pequeno frasco de Halo enfiado em sua algibeira. Então, ela respirou fundo.
É hora.
"Tranque a porta quando eu sair", ela ordenou, e então correu de volta pelo caminho por onde veio, gritos fracos e ruídos acentuando cada estrondo ensurdecedor. Quando chegou ao salão principal, Wrenn e Nissa já estavam lá, observando por uma das janelas semelhantes às de uma catedral as torres de vigia disparando raios de energia azul-branca em uma forma escura flutuando abaixo das nuvens de tempestade.
"O que é aquilo?" Elspeth perguntou.
"Um navio voador", disse Jodah, saindo de um portal mágico para dentro da câmara. "Olhem ali, nossos ornitópteros."
Os ornitópteros — visíveis apenas por suas luzes de navegação — surgiram em vista indo em direção ao navio voador. Todos observaram enquanto os ornitópteros zumbiam ao redor da sombra como tantos mosquitos, lançando cargas explosivas que apenas conseguiram revelar com o que estavam lidando. Não tanto um navio, mas uma monstruosidade flutuante de chifres afilados e espinhos denteados, a embarcação mantinha-se no ar por velas que lembravam asas de morcego escamosas. Lentamente, mudou sua trajetória para apontar a quilha para baixo, alinhando-se com a torre central. O fogo das torres intensificou-se conforme o navio descia, apenas para as torres de vigia pararem de atirar uma por uma.
"A rede de defesa", disse Jodah, com a voz oca. O navio baixou-se ao chão para repousar sobre um conjunto de espinhos que se estendiam de seu casco como as pernas de um inseto gigante.
Elspeth já tinha visto o suficiente. "Eles estão a caminho", disse ela. "Wrenn e Nissa, protejam Teferi a todo custo." Entre os soldados, ela avistou um par de dromedários mecânicos, corcéis de filigrana construídos por Saheeli para este exato momento. "Jodah, você está pronto?"
Jodah lançou um olhar para Elspeth. "Suponho que seja tarde demais para pedir que seu plano seja um pouco menos ousado."
"Você teve sua chance", disse Elspeth. "Agora cavalgamos para encontrá-los. Ganhe tempo para Teferi."
Eles montaram e se armaram com lanças de pedra de poder, também preparadas por Saheeli. Jodah tinha razão em ter dúvidas. Em um cerco, a vantagem dos defensores vinha de suas muralhas. A doutrina exigia que eles se abrigassem dentro da estrutura principal, posicionassem arqueiros ou outras unidades de ataque à distância para atacar de longe e quebrassem qualquer ataque por atrito. Mas havia dois problemas com isso neste cenário. Primeiro, a torre não era um castelo — sua natureza aberta tornava impossível defendê-la contra intrusão se o inimigo a invadisse. E segundo, os phyrexianos não eram um exército normal. Sua moral não seria abalada por um ataque fracassado. Em algum lugar na escuridão, eles estavam espreitando e tramando. O que Elspeth precisava fazer era enganá-los para que obedecessem às regras da guerra convencional, oferecendo uma oportunidade irresistível de semear a discórdia e espalhar o medo.
"Levantem-se!" gritou Elspeth. De repente, os cerca de cem soldados mecânicos ganharam vida, balançando seus braços afiados em uníssono como um conjunto de lâminas de debulhadora. Atrás de suas fileiras, um grupo de dez brutos cobertos de argila ergueu os braços em posição de boxe, preparando os punhos para esmagar quaisquer inimigos para os quais Elspeth os direcionasse. Os olhos imóveis dos constructos, todos fixos em Elspeth, pulsavam com uma suave luz dourada.
"Agrupar!" A companhia marchou em ritmo perfeito para fora da câmara e para o pátio, formando três arcos côncavos de ponta a ponta.
"Marchar!" Os soldados avançaram e se espalharam, descendo os degraus centrais e parando na extremidade distante do caminho principal. As estátuas de argila ficaram para trás no pátio para absorver quaisquer inimigos que passassem pela linha de frente. Tudo estava pronto.
Arte de: Carlos Palma Cruchaga
"Agora temos que nos apressar", disse ela a Jodah. Os dois cavalgaram em passo acelerado pelo lado sul da torre, mantendo-se próximos à parede até chegarem a um ponto de observação predeterminado de onde monitorariam a linha de cerco. Elspeth segurou sua lança, seu coração acelerado.
"Saheeli disse que estas lanças só têm um disparo", ela lembrou a Jodah. "Temos que fazer valer a pena."
"Artífices", ele resmungou. "Custaria muito a eles fazer com que essas invenções fantásticas fossem utilizáveis mais de uma vez?"
Elspeth abriu a boca para dizer algo, mas um ruído roubou sua atenção. O som veio como sussurros, seguidos pelo sorvo silencioso de coisas rastejando pela lama. Depois veio o bater de asas e um estrondo baixo e trovejante que rugiu em um grito agudo — um grito de guerra phyrexiano. O exército aglutinou-se no limite da luz da torre, dobrando a membrana da escuridão até que ela se rasgasse.
As fileiras da frente estavam repletas de guerreiros humanoides blindados com placas de metal negro, seus aglomerados de braços afinando-se em lâminas, bordas serrilhadas e pontas de lança em forma de agulha. Atrás deles caminhavam unidades montadas — ou o que Elspeth primeiro pensou serem cavaleiros em criaturas lupinas gigantes. Mas eles se moviam rápido demais, navegavam pelo terreno escorregadio bem demais para serem montaria e cavaleiro; cada inimigo montado era um único ser, cavaleiro e montaria fundidos.
Apesar de seus números e armas temíveis, as tropas terrestres phyrexianas não gelavam Elspeth tanto quanto o que ela viu a seguir. O céu noturno moveu-se, e cavaleiros alados mergulharam na luz. Eram pavorosos, seus corpos feitos de lâminas negras em forma de foice unidas por fios de tendão. Enquanto alguns mantinham uma forma vagamente humana, outros substituíram suas metades inferiores por um conjunto de pernas de aranha ou abriram mão totalmente de pernas em favor de uma bola de espinhos que podiam usar para abalroar inimigos de cima.
"Droga", disse Elspeth. She hadn't counted on aerial troops, but it was too late to adjust plans; the advancing horde marched ever closer to their siege line. Os phyrexianos montados dispararam em galope, fluindo pelos flancos do corpo principal. Era uma estratégia simples, mas eficaz: uma manobra de pinça para esmagar os defensores entre ondas de feras de metal.
"Espere."
"Elspeth, é agora ou nunca."
Ela sabia, mas era vital fazer cada parte do plano valer a pena. Um segundo a mais poderia significar mais inimigos pegos em sua armadilha. Calma, calma. A massa contorcida quase alcançara a linha de cerco. Mais um momento e eles estariam sobre os defensores da torre.
"Faça agora, Jodah!"
Com um movimento da mão e a pronúncia de uma única sílaba mística, Jodah desfez o feitiço de terreno fantasmagórico que lançara no dia anterior, revelando a trincheira de estacas que se estendia desde a extremidade norte do complexo da torre até o local onde Elspeth e Jodah se posicionaram. Tarde demais para parar seu ímpeto, a vanguarda phyrexiana empalou-se em uma treliça cruzada de toras afiadas. Com outra palavra de poder, Jodah fez com que toda a barricada explodisse em chamas, lançando o inimigo no caos.
As primeiras fileiras da infantaria phyrexiana tiveram o mesmo destino que os cavaleiros, o que a princípio animou as esperanças de Elspeth. Mas sem hesitação, a fileira seguinte usou os corpos em chamas de seus irmãos como apoios para escalar a barricada para o outro lado. Os voadores seguiram, avançando até as fileiras da frente para carregar combatentes que, de outra forma, estariam presos, em segurança por sobre as chamas.
Felizmente, eles tinham mais um truque reservado.
"Vamos!" gritou Elspeth. Ela esporeou sua montaria por um caminho perpendicular à força de invasão, então virou bruscamente em direção à horda em uma carga de flanco. Ela ergueu sua lança, com a ponta brilhando em branco incandescente devido à pedra de poder nela incrustada, para sinalizar a Jodah que iniciasse sua própria carga. Enquanto galopava em direção aos phyrexianos, ela posicionou sua lança apontando para o inimigo e guiou seu polegar para um cristal inserido na haste. Até então, Saheeli provara seu gênio mais do que o suficiente. Mas agora era o momento em que Elspeth precisava que a artífice superasse tudo o que criara antes.
Elspeth pressionou o cristal quando estava a meras jardas de distância da linha phyrexiana. Uma sensação de queimação tomou conta de sua mão enquanto a pedra de poder da lança tornava-se intoleravelmente brilhante. Então ela se estilhaçou, seu poder acumulado explodindo como uma faixa de energia que cruzou o campo de batalha para se conectar ao seu par — a pedra de poder na lança de Jodah. Elspeth impulsionou seu corcel adiante, ganhando tanta velocidade quanto podia antes de chocar-se contra a horda, a faixa de energia rasgando os phyrexianos como uma foice através do trigo. Ela continuou a avançar, sem ousar diminuir a velocidade por medo de uma lâmina inimiga passar por suas grevas ou uma mão gredosa agarrá-la e puxá-la da sela.
Elspeth alcançou o outro lado da multidão, deixando phyrexianos dizimados em seu rastro. Ela deu meia-volta, esperou o sinal de "tudo limpo" de Jodah no outro lado do campo e então investiu de volta na briga para abrir caminho através de mais inimigos. Ela parou um momento para olhar por cima do ombro para a linha de cerco. Os autômatos estavam resistindo, cercando pequenos grupos de inimigos e despedaçando-os antes que pudessem contra-atacar. Os poucos phyrexianos que romperam a linha de frente cometeram o erro de atacar as estátuas de argila diretamente, resultando em seus membros presos dentro dos exteriores maleáveis das estátuas.
Elspeth voltara sua atenção para acabar com mais soldados da infantaria phyrexiana quando avistou um cavaleiro alado mergulhando de cima. Ela desviou o golpe de sua cabeça, mas ele ainda conseguiu derrubar sua montaria na terra. Ela se levantou da terra encharcada, apenas para uma pesada bota de metal chutá-la no estômago, lançando-a de costas. Enquanto seu atacante caminhava pesadamente em sua direção, erguendo seu braço em forma de machado para desferir um golpe mortal, Elspeth viu que nenhuma cabeça repousava sobre seu pescoço. Em vez disso, parecia ver e sentir através de um crânio despojado de carne incrustado em seu torso.
Aquela era a distância exata para um chute rápido dela. Ele recuou cambaleante, dando a Elspeth tempo suficiente para girar sobre os pés e desembainhar sua espada, liberando um pulso de luz branca — Halo puro — que fez seu adversário cambalear para trás, cegado. Com sua abertura clara, Elspeth afastou a cabeça do machado e cravou sua espada diretamente em sua seção média. Ela empurrou o corpo do phyrexiano para fora de sua lâmina com o pé e olhou por cima do caos para ver o inimigo cambaleante e desorganizado.
Agora era a hora de aproveitar a vantagem.
"Carga!" ela gritou, sua voz ressoando sobre o estrondo. Ao ouvir a palavra de comando, a legião de metal que defendia a fortaleza transformou-se em agressora, avançando sobre a barricada em chamas e para o campo de batalha. Embora não estivessem assustados, os phyrexianos restantes recuaram para restabelecer uma linha de cerco. Aqueles que chegavam ao alcance de Elspeth caíam sob seus golpes como se fossem bonecos feitos de trapos e estopa. Ela não foi a única a perceber isso — os phyrexianos comenzaron a retroceder à aproximação de Elspeth.
Ela não lhes deu trégua enquanto lutava pelo campo de batalha, desviando lâminas e garras à procura de Jodah. Ela o avistou encurralado contra a barricada por mais dois phyrexianos voadores. Segurando sua espada com as duas mãos, Elspeth partiu em uma investida e pronunciou um feitiço. Um momento depois, uma hélice de luz envolveu seu corpo, lançando-a alto o suficiente para abater um dos atacantes de Jodah. Ela girou ao pousar na frente do outro phyrexiano, arqueando sua lâmina para cima para cortá-lo no ar.
"Eles estão minguando", disse Jodah.
Elspeth examinou o campo de batalha. Os últimos phyrexianos alados foram derrubados no chão pelas estátuas de argila e despedaçados. Soldados mecânicos perseguiram a infantaria phyrexiana restante na lama e os abateram. Bem acima de suas cabeças, esquadrões de ornitópteros perseguiam bandos de skirges, explodindo-os no céu. A vitória estava firmemente em mãos. Elspeth virou-se e abraçou Jodah, seus joelhos cedendo levemente pela súbita onda de fadiga que a percorreu. Tudo o que ela queria era dormir, sonhar com terras de possibilidades e então acordar para lutar por um novo dia.
Nada disso aconteceria.
"Pelas calças salgadas de Urza~" disse Jodah, seus ombros relaxando.
Elspeth soltou-o e virou-se. Lá, emoldurado pelas nuvens verde-negras, a silhueta do navio voador phyrexiano estremeceu e começou a se mover — a crescer, a se desdobrar como uma fera surgindo de um longo descanso. Várias outras pernas gigantescas brotaram da parte inferior do casco do navio voador, elevando seu corpo acima do topo da torre. Sigilos arcanos vermelho-sangue tornaram-se visíveis em sua forma negra, símbolos que Elspeth conhecia de vista mesmo que não pudesse lê-los. Era a língua de Phyrexia, estampada no behemoth para proclamar a chegada de uma nova ordem.
Ele começou a avançar, estremecendo o chão a cada passo colossal.
"Não podemos deixar aquela coisa chegar perto da torre", disse Elspeth.
"Concordo", disse Jodah, uma resolução ardente substituindo sua alegria anterior. "Mas preciso saber — o quanto você acredita em seu próprio poder?"
"O quê?"
Ele enfiou a mão em sua túnica e tirou uma pequena bolsa de couro que usava no pescoço. Ele a retirou e a estendeu para Elspeth ver.
"O que é isso?" ela perguntou.
"Algo que Jaya preparou", disse ele. Jaya — a amiga por quem ele e Chandra choraram. "Você é poderosa, Elspeth. Não pela força do seu braço de espada, e não porque você é uma Planeswalker. É algo mais profundo — seu desejo de conexão, de ser a mão que se lança às chamas para resgatar outro. De ter paz, família, um lar. De pertencer."
Como ele sabia essas coisas sobre ela? Uma semana antes, eles nunca tinham se encontrado, nem sabiam que o outro existia. Mas, como Wrenn, ele retirou suas várias máscaras com pouco esforço. Não, ela não era uma cavaleira de Bant, nem era a campeã de Heliode ou a vingança de Nova Capenna. Ela era apenas o que restava: Elspeth Tirel.
"Eu~ eu não entendo."
"Eu lhe disse — estou por aqui há um bom tempo. E no meu tempo, lidei com muitos magos, some with more affinity for certain magic than others. Olhar para você~ é como observar um sol branco incandescente tentando se esconder. Chega de se esconder, Elspeth." Ele fechou a mão em volta da bolsa, segurando-a com força. "Um presente final de Jaya para Phyrexia. Chandra seria a escolha natural, mas a primeiríssima coisa que aprendi sobre magia é que fogo e luz não estão tão distantes. Você pode me ajudar a lançá-lo."
"O que devo fazer?" ela perguntou.
"Siga minha liderança."
Eles controlaram o corcel de Jodah, saltaram sobre ele e aceleraram em direção à fera phyrexiana. Conforme se aproximavam dela, parecia que eles e o mundo inteiro estavam encolhendo sob a sombra opressora do monstro. A euforia que ela sentira apenas minutos antes evaporara. O que eles eram para aquilo senão grãos de poeira? O que ela e Jodah poderiam fazer até mesmo para atrasá-lo?
Eles continuaram cavalgando até estarem quase embaixo dele. Jodah saltou da sela e estendeu a mão para ajudar Elspeth a descer. O brilho vermelho dos sigilos phyrexianos iluminava fracamente o local de terra lamacenta e viscosa onde estavam. Olhando para a monstruosidade, Jodah abriu os braços e elevou-se no ar, suas túnicas enfunando ao vento sujo.
Ele começou a recitar palavras em uma língua que Elspeth não conseguia entender. Enquanto ela ouvia, uma enxurrada de imagens começou a infiltrar sua mente — uma bela mulher de cabelos escuros; Jodah parecendo não ser mais velho do que agora; o som de vidro se estilhaçando; e então fogo. "Desapegue-se", disse ele, sua voz conectada à mente dela. "Liberte-se de sua raiva, de sua dor. Deixe seus fantasmas — eles a assombrarão, mas permita que seus apelos não sejam ouvidos por agora. Estenda sua consciência além deles, além do chão, além do céu, além de todas as fronteiras de sua vida desperta."
Elspeth fez como Jodah instruiu. Ela fechou os olhos e recordou as planícies ondulantes de Bant, os campos dourados de cereais do Caminho do Guardião nos arredores de Meletis, em Theros. Não, não apenas imaginação — de alguma forma, ela estava lá, em ambos os lugares ao mesmo tempo. Mais longe, mais longe ela se estendeu, tanto que podia sentir-se escorregando — ela não era mais apenas Elspeth sozinha, ela se tornara tudo. Seus olhos se abriram abruptamente e ela se viu no coração de uma torrente de energia surgindo por cada parte de seu corpo.
"Agora traga tudo de volta para dentro de você", disse Jodah. "Enraíze-o o mais profundamente que puder até não conseguir mais contê-lo."
Elspeth forçou a tempestade para dentro de seu coração, para dentro de sua alma. A energia escaldante começou a despedaçá-la.
"Foco, Elspeth! Escolha uma coisa — a única coisa em sua vida que lhe dá força, lhe dá propósito. Canalize todo o seu ser nisso!"
Ajani. Parte dela queria considerá-lo morto e partido. Ao menos ele estaria em paz. Mas outra parte dela precisava dele aqui, precisava que houvesse uma chance de salvá-lo como Chandra insistia. Porque ele era o único — aquela única pessoa em sua vida que podia lhe dar esperança, lhe dar força. Lar é dever. Família são aqueles que você escolhe defender. Você sempre teve tudo de que precisava. Agora Elspeth entendia o que Giada estava tentando lhe dizer, what Teferi beseeched her to do that first night after arriving on Dominaria. Seu dever não era apenas proteger os outros; ela precisava permitir-se ser protegida por aqueles a quem amava. Sua família. Confiar neles. Assim como Ajani confiou nela para resgatá-lo.
Ela o faria. Ela o traria de volta. Ela acreditaria.
Uma coluna de resplendor jorrou dela, explodindo em direção ao céu, surgindo sobre Jodah em espirais cintilantes de poder. Ela estava conectada a ele, ao feitiço de Jaya, sua energia inflamando um turbilhão de luz brilhante e rodopiante ao redor de ambos. Ela e Jodah foram consumidos pelo clarão, tornando-se um com a tempestade. Unidos, eles forçaram-se a expandir-se mais largos e altos do que o behemoth phyrexiano, derretendo-o em escória e icor antes de vaporizá-lo em um redemoinho glorioso.
Então a luz desapareceu. Ela caiu de joelhos, mais uma vez Elspeth Tirel. O chão sob suas palmas estava quente e seco, rachado. Ela esticou o pescoço para cima, não vendo nenhum vestígio da besta phyrexiana gigante.
A chuva fresca e suave caiu sobre seu rosto.
Nomes nada mais são do que rótulos que nos confortam a pensar que temos conhecimento e, por extensão, controle. Nova Capenna? Velha Capenna? Não importa. Você deve entender, querida, que seus mestres no asilo também estavam com dor. Eles não eram "phyrexianos", tanto quanto eram seus vizinhos, suas famílias que encontraram a salvação no óleo, que desejaram renascer como membranas vorazes, vilosidades chicoteantes e flagelos agitados envoltos em metal perfeito.
Você não sabia disso, e nem o Garoto.
Lembra-se do Garoto? Oh, ele tinha um nome. Você nunca perguntou a ele; é tarde demais para saber qual era. Vocês dois bolaram um plano e tanto, tramado em meio aos delírios funestos de seus carcereiros. Vocês pensaram que poderiam se esconder entre os cadáveres, enfiarem-se em mantas de carne e entranhas e esperar até que aqueles restos fossem jogados nas pilhas de podridão fora de sua prisão. O que vocês não sabiam era que seus captores amavam aquele sangue. Que o mau cheiro das vísceras era um incenso enjoativo, obliterando suas memórias de flores silvestres frescas, pão assando, o sal do oceano. Seus nomes antigos, as coisas que amavam.
Foi assim que pegaram vocês: vocês se esconderam exatamente onde eles procurariam. Eles os acorrentaram com toda a intenção de enxertar tiras de sua carne em seus ossos. Graças à sua centelha de Planeswalker, você escapou, mas o Garoto não teve a mesma sorte.
Você pode imaginar como eles reagiram. Entenda que ele não estava sonhando quando seu destino o atingiu. O que fizeram, fizeram sorrindo, e depois, não restou Garoto algum.
Apenas Phyrexia.
"Elspeth!", ela ouviu Jodah gritar. Procurando ao redor, ela o encontrou estirado no chão, mal conseguindo se mover. "Não acredito que funcionou", disse ele, com a respiração pesada.
Elspeth puxou Jodah para cima, permitindo que ele se apoiasse nela, e juntos, compartilharam um momento de silêncio olhando de volta para a torre, seu suave brilho azul chamando-os de volta para casa.
"Você conseguiu", disse ele.
"Nós conseguimos", disse Elspeth, com o braço no ombro de Jodah. "Você, eu e Jaya."
"Eu gostaria que você pudesse tê-la conhecido. Ela teria gostado de você. Ou odiado. Meio que cara ou coroa, na verdade." Ele sorriu. "Eu sei que ela ficaria impressionada de qualquer maneira."
De repente, clarões azul-brancos brilhantes iluminaram o céu perto da torre, seguidos logo após por estrondos trovejantes. Por um momento, Elspeth pensou que um raio tivesse atingido a torre ou seus arredores. Mas ela não conseguia traçar nenhum caminho de volta para as nuvens. Não, as explosões vinham do nível do solo.
"A torre está sob ataque", disse Elspeth, com o estômago revirando. "Este exército, esta criatura — eles foram uma distração."
"Sim", Elspeth ouviu alguém dizer atrás dela. Virando-se, ela viu uma jovem vestindo um conjunto de túnicas como as usadas por Jodah e Teferi. Além dos tons de vermelho, azul e dourado, as vestes da mulher adicionavam uma variação importante: um motivo circular de mapa estelar estampado em sua couraça, bisseccionado por uma linha sólida — o selo de Phyrexia.
"Rona", disse Jodah. "Não posso dizer que é bom vê-la novamente, mas —"
Rona ergueu sua glaive e enviou uma explosão de relâmpago azul em Elspeth e Jodah, lançando-os para trás na lama. O mundo de Elspeth girou e desviou como um navio emborcando. Ela tateou em busca de sua espada e, encontrando o punho, levantou-se a tempo de ver Rona de pé sobre um Jodah fraco e indefeso.
"Isto é pelo problema que você me causou em Yavimaya", disse ela enquanto enterrava a ponta de sua glaive no abdômen dele, provocando um som áspero e nauseante da garganta de Jodah.
"Não!", gritou Elspeth. Ela levantou-se com dificuldade, a fadiga pesando sobre ela como um titã pressionando seus ombros. Embora Rona parecesse mais humana do que os inimigos que Elspeth enfrentara antes, ela era uma monstruosidade muito pior. Ela abrira mão voluntariamente de sua alma pela promessa de poder phyrexiana.
Elspeth recuou, certificando-se de manter o corpo de Jodah à vista. Ela mal conseguia ficar de pé. O feitiço de Jodah a deixara à beira de um colapso, incapaz de se recompor o suficiente para lançar feitiços ou caminhar entre planos. Tudo o que ela tinha no momento era sua espada, que mal conseguia levantar. Com uma rapidez sobrenatural, Rona saltou para frente, balançando sua glaive na seção média de Elspeth, um ataque que deveria ter sido fácil de aparar. Mas tudo o que Elspeth pôde fazer foi agitar seu braço do escudo para afastar a glaive. Rona avançou para uma segunda investida da qual Elspeth mal se esquivou.
"Eu não vou me render", disse Elspeth.
Rona sorriu radiante. "Bom." Ela estava brincando com Elspeth como um mestre da tortura provocaria um prisioneiro com a mais tênue esperança de liberdade. Coopere e tudo ficará bem. Elspeth avaliou a distância entre ela e Rona. Rona tinha alcance, junto com todas as outras vantagens neste duelo, exceto uma. Elspeth conhecia a dança.
Confie, ela disse a si mesma, e com isso, ergueu seu broquel o mais alto que pôde e agachou-se na posição da primeira guarda. Reunindo cada fiapo de força que lhe restava, ela guardou tudo na reserva, esperando por mais uma abertura.
Rona deu-a a ela. Ela deu um passo à frente friamente, desencadeando uma série de golpes destinados mais a intimidar Elspeth do que a desferir um golpe fatal. Ao final da exibição, Rona girou em uma investida ao nível da cabeça. Elspeth convocou seu vigor restante para bloquear o golpe de Rona com seu broquel, sabendo que o escudo não era páreo para um golpe direto. A ponta da lança perfurou o broquel, atravessando a carne e o osso do antebraço de Elspeth. Gritando de dor, Elspeth forçou o braço esquerdo para baixo — da quinta guarda para a segunda — arrancando a glaive das mãos de Rona e enterrando sua espada profundamente no ombro de Rona.
Ambas caíram, Rona em um amontoado e Elspeth de joelhos. Ela olhou para Jodah, deitado imóvel. Não é tarde demais, pensou ela, com a cabeça girando. Halo~ Com sua mão livre, procurou sua algibeira. Se restasse qualquer vida em Jodah, o Halo poderia salvá-lo.
"Tirel. Eu nunca esperei realmente ver você de novo."
Elspeth rangeu os dentes. Aquela voz — Tezzeret. Ela olhou para cima e o viu aproximando-se da escuridão. Ele ajoelhou-se entre Rona e ela, perto o suficiente para que ela pudesse envolver as mãos em seu pescoço — um último ato de desafio — mas seu corpo recusou-se a obedecer. Segurando o braço empalado dela, Tezzeret deslocou a glaive de Rona com um único puxão. Então, ele virou-se para Rona para verificar sua ferida escorrendo sangue e óleo negro brilhante.
"Ela ainda está viva. Pena. Da próxima vez, mire no pescoço."
"E você, Tezzeret?", disse Elspeth. Ela apertou seu braço ferido contra o peito. "Ainda nada além de um cão de colo patético."
Ela esperava que ele a atacasse, como presenciara em suas interações anteriores com ele em Nova Phyrexia. Mas, em vez disso, Tezzeret apenas balançou a cabeça, apontando de volta para as detonações intermitentes na torre. "Eu não tive tempo de desarmar aquele lado de suas defesas. Tsc, tsc. Bagunçado." Ele segurou o colarinho de Rona e levantou-se. "Quaisquer esforços em que seu grupo esteja engajado serão interrompidos e destruídos antes da manhã. Não há como evitar. Mas você não precisa compartilhar o destino deles. Sugiro que aproveite esta oportunidade para encontrar algum lugar remoto e desaparecer."
"Eu vou deter seus mestres phyrexianos. E então vou matar você."
"Hmm", disse ele, erguendo Rona sobre o ombro e pegando sua glaive. "Se estiver pensando em me atacar agora, eu a aconselharia a não fazer isso. Em seu estado debilitado, eu certamente venceria. Além disso, cuidar de seu companheiro agonizante é um uso melhor do tempo, não acha?"
"Por quê? Por que você está me poupando?"
"Pequenas rachaduras, Tirel", disse ele. "É assim que até o mais poderoso edifício começa a desmoronar." Ele inclinou a cabeça no que Elspeth só pôde supor ser um gesto distorcido de respeito. "Que esta seja a última vez que nossos caminhos se cruzam."
Então ele caminhou de volta para a escuridão.
Finais requintados são os mais belos. Então deixe esta missiva terminar com esplendor untuoso, com dentes e lâminas, músculos ondulantes e icor viscoso. É realmente uma visão, a sua Phyrexia. Uma terra onde pesadelos podem ter pesadelos. A grande cenobita — ela tem o mais doce de todos. Tais horrores para extrair de sua mente e tais visões para implantar, começando por você, a temível dama de branco que desafiou até a morte para ter sua vingança.
Há tantas coisas a dizer, querida, mas a mais apropriada é esta: Obrigado. Há um novo propósito para o meu trabalho, tudo por causa de você. Então, quando estiver sozinha no escuro, lembre-se de que há alguém entre os incontáveis planos que a tem em mente. Você sempre terá seu admirador mais dedicado por perto.
Sempre seu,
Ashiok
Capítulo 5: Êxodo
26 de outubro de 2022 • Reinhardt Suarez
Leia as raízes, conte o conto
Formas futuras em ervas ondulantes
Mais alta que a verdade é a esperança
—Saga de Rootwater
Antes daquela manhã encharcada pela chuva, Nissa havia passado um total de quinze minutos em Dominária — quinze minutos gritando com os amigos mais próximos que tinha. Chandra. Gideon. Ela já estava farta de ser manipulada por Liliana e farta de ver seus amigos concordando alegremente com isso. Não suporto ver outro plano destruído antes de tornar meu próprio lar íntegro novamente , disse-lhes Nissa. Sinto muito, mas minha vigília terminou.
Agora ela estava de volta, junto com Chandra. Dominária ainda não estava destruída, mas Nissa teve a sensação, sentada à mesa da sala de reuniões em frente a Kaya e Saheeli, ambas abatidas e exaustas, de que o plano estava acelerando em direção ao seu ponto de ruptura.
"As coisas estão acontecendo rápido", disse Chandra. "Sorin e Arlinn estão trabalhando juntos para reforçar as defesas de Innistrad. Samut se escondeu com Hazoret e a população de Amonkhet. Ao mesmo tempo, outros estão respondendo ao chamado de ajuda de Jace. Um cara chamado Tyvar chegou pouco antes de partirmos."
"Tyvar Kell", disse Kaya.
"Ah, você o conhece. Ele é alérgico a camisas ou algo assim?"
"Chandra, foco", disse Nissa.
"Certo", disse Chandra. "Quando tudo estiver pronto em Rávnica, Jace e companhia virão para cá para se encontrarem com Teferi e todos vocês. Então, as equipes de ataque partirão para Nova Phyrexia enquanto Liliana e eu esperamos aqui como reserva."
"Quanto tempo temos?", perguntou Saheeli, trocando um olhar preocupado com Kaya.
"Jace tem boas informações de que os mirrianos lançarão sua ofensiva muito em breve", disse Chandra. "Pode ser hoje ou amanhã. Segundo Vivien, Urabrask e os phyrexiamos rebeldes também estão quase prontos. Não sei quanto aos outros, mas eu estou pronta para um pouco de ação agora mesmo."
É claro que estava. Agir antes de pensar — esse era o jeito de Chandra.
Nissa, por outro lado, queria saber mais. Ela passara os últimos meses cumprindo suas obrigações com Zendikar. Os acontecimentos no Multiverso mais amplo não a preocupavam tanto quanto a cura de seu próprio plano. Recentemente, ela estivera perseguindo uma antiga besta debulhadora libertada involuntariamente por aventureiros imprudentes das ruínas do Enclave Celeste de Guul Draz. Ela estava em perseguição fervorosa à criatura faminta quando Chandra apareceu contando histórias de planos dos quais Nissa nunca ouvira falar.
"O que exatamente vocês estão fazendo em Dominária?", perguntou Nissa.
"Estamos ajudando Teferi a encontrar informações sobre como usar o silex", disse Saheeli.
"O silex." Chandra olhou fixamente para sua xícara vazia, com uma expressão sombria no rosto. "A coisa pela qual Jaya morreu." Jaya Ballard? Nissa passara dias em Rávnica com Chandra aprendendo tudo o que podia sobre quem e o que os phyrexiamos eram. Elas passaram tempo conversando, comendo juntas. Chandra nunca mencionara nada sobre a morte de Jaya.
"Estamos perto", disse Kaya, "mas precisamos de mais tempo."
"Vocês têm até Jace chegar."
Kaya cerrou a mandíbula. "Não é o suficiente." Kaya relatou os detalhes de seu tempo em Kaldheim, lar da Árvore do Mundo que conectava os vários reinos do plano, e de seu encontro com uma criatura phyrexiana lá. Então ela falou sobre o encontro com Vivien Reid, que lhes contara sobre a estratégia secreta de Elesh Norn — uma maneira de ligar os planos à Nova Phyrexia. A conclusão não foi difícil de deduzir depois disso. "Se os phyrexiamos criaram sua própria árvore, precisaremos de algo poderoso para destruí-la", explicou Kaya. "Não temos nada sem o silex."
"Nossa melhor chance de destruir os phyrexiamos é nos unirmos aos mirrianos", insistiu Chandra. "Não podemos deixar passar essa oportunidade."
"Estamos indo o mais rápido que podemos", disse Saheeli.
"Espere", disse Nissa. "Digamos que consigamos destruir a Árvore do Mundo. O que acontece com Nova Phyrexia?"
"Não tenho certeza", disse Kaya. "Se a árvore estiver tão profundamente enraizada quanto a de Kaldheim, não é impossível que o plano inteiro se vá quando a árvore se for."
Chandra teve uma opinião mais definitiva: "Ótimo."
"Como você pode dizer isso?", disse Nissa. "Os mirrianos estão lá lutando por seu lar!"
"Não vamos nos precipitar", disse Saheeli. "Não temos evidências de que o silex possa detonar um plano inteiro. Ele foi usado em Dominária há milênios, e o plano ainda existe. Temos que confiar em Teferi."
"Eu confio nele", disse Chandra. "Meu ponto é que destruir os phyrexiamos é o mais importante. Nenhum custo é alto demais."
Saheeli afastou sua cadeira da mesa e se levantou. "Eu já aceitei que as vidas daqueles que amo podem vir à custa de outros. Mas não vou ceder à sede de sangue."
"Eu não... Não foi isso que eu quis dizer."
"Então o que você quis dizer?", retorquiu Nissa. Ela imediatamente se arrependeu da rispidez com que as palavras saíram. Por que as coisas eram sempre tão difíceis entre elas, não importa o quanto se importassem uma com a outra?
Antes que Chandra pudesse responder à pergunta de Nissa, Teferi apareceu à porta. Ele estava abatido, parecendo um cadáver enquanto se apoiava no batente.
"Estou pronto", disse ele calmamente, lançando um olhar gentil, porém cansado, para Nissa.
Kaya encerrou a reunião. Ela e Saheeli acompanharam Teferi para fora da sala, deixando Chandra e Nissa sozinhas. Nissa conhecia Chandra bem o suficiente para saber que seu silêncio era uma barreira contendo seu vitríolo. Ela podia imaginar o que Chandra diria em seguida: Eles não me deixaram explicar! Eles não entendem! Por que não podem ser sensatos?
"Eu não...", disse Chandra, desviando o olhar de Nissa. "Isso provavelmente me faz soar como um monstro, mas... eu quero que todos eles morram. Todos eles. Qualquer coisa que tenha a ver com phyrexiamos ou Phyrexia. Eles não merecem nenhuma misericórdia."
"Você não é um monstro", disse Nissa. "Mas você também não é alguém que se deleita com a morte."
"Mas eu quero que eles sofram. Eles mataram Jaya! Você não entende isso?"
"Eu entendo", disse Nissa. "Mas, goste ou não, Ajani é um deles. Ele também será jogado ao matadouro com o resto?"
"Isso é injusto, e você sabe disso."
Chandra silenciou. Ela ficou sentada à mesa por um tempo, com as mãos cruzadas sobre o tampo à sua frente. Então, sem dizer uma única palavra, levantou-se e saiu da sala.
O ataque phyrexiano veio no meio da noite.
Apesar de seus números minguantes, as tropas phyrexianas que sobreviveram ao ataque de flanco de Elspeth e Jodah avançaram contra a linha de cerco, onde ou ficaram presas na barricada ou foram canalizadas para bolsões onde soldados metálicos igualmente implacáveis que defendiam a torre as despedaçavam. Para os poucos que conseguiram cruzar o limiar da torre, Nissa, Wrenn e um punhado de guardiões construtos estavam lá para garantir que não avançassem mais.
"Estou perdendo o controle!", gritou Nissa por cima do ombro. Do outro lado da sala, Wrenn lançou um feitiço, fazendo com que a extremidade da videira enrolada no tornozelo do soldado phyrexiano inchasse e endurecesse até que todo o seu pé fosse arrancado. O soldado tombou no chão, permitindo que uma estátua de argila golpeasse o phyrexiano com seus braços em forma de clava até que ele parasse de se mover. Mais de duas dúzias de phyrexiamos tiveram destinos semelhantes no salão da torre, seus corpos espalhados em vários estados de desmembramento. Parecia que a vitória dos defensores estava garantida.
"Nós os vencemos", disse ela, apoiando-se nos joelhos. "Wrenn, nós vencemos."
De repente, um pilar de luz queimou o céu do lado de fora da torre como um sol ascendente, rugindo ferozmente sobre os sons da batalha. Um momento depois, uma onda de vapor cobriu o vale, envolvendo inimigos e aliados da mesma forma. Nissa desviou-se do calor, mas Wrenn parecia imperturbável; ela e Sete estavam no meio do grande salão da torre, um soldado phyrexiano inerte dobrado ao meio aos pés de Sete.
Assim que o calor diminuiu, Nissa e Wrenn correram para além do pátio frontal, até a barricada. Membros phyrexianos pendiam de estacas ainda fumegantes. Óleo preto e de cheiro rançoso cobria os soldados metálicos, o brilho dourado fantasmagórico de seus olhos como fogos-fátuos pálidos flutuando na escuridão. E então o silêncio — depois que o clangor das armas e a cacofonia de gritos ecoando pelos corredores cavernosos da torre cessaram, restou apenas o tamborilar constante da chuva na terra.
"Elspeth e Jodah", disse Nissa. "Vou encontrá-los." Ela começou a descer os degraus, mas Wrenn fez Sete se mover e bloquear seu caminho.
"Nosso papel permanece o mesmo: guardar Teferi", disse Wrenn.
"Mas..." Mas nada . Wrenn tinha razão. Pelo que sabiam, não havia ninguém para ser encontrado. Aquela explosão não fora uma simples exibição de luz. Infelizmente, se Elspeth e Jodah estivessem lá fora, com toda a probabilidade teriam sido consumidos pela magia, suas vidas dadas para proteger a torre e todos em seu interior. Agora o dever de levar Teferi e o silex para Nova Phyrexia repousava sobre ela e Wrenn. "Tudo bem", disse ela, com a cabeça baixa em luto. "Vamos nos reunir com os outros na oficina."
Assim que começaram a se mover, explosões voltaram a abalar os corredores da torre. Nissa olhou para o pátio frontal, mas nada parecia diferente do momento anterior. Os soldados metálicos permaneciam como sentinelas silenciosas sobre o campo de batalha coberto de sangue. De onde vinha o barulho?
"De cima", disse Wrenn.
De cima e de todos os lados. Nissa olhou para a escada. "Deixe-me subir e ver. Fique aqui e garanta que nada passe." Wrenn deu o sinal verde, e Nissa subiu correndo até o segundo andar, para um amplo hangar aberto aos elementos. Jodah havia enviado a frota de tópteros daquele local, que agora estava vazio, exceto por alguns tópteros em mau estado.
Como abaixo, o mesmo acontecia acima no flanco ocidental da torre. Calma. Imobilidade. Não era assim no leste, em direção aos caminhos que levavam aos campos selvagens que se aproximavam da cidade de Argívia. As torres de vigia orientais haviam ganhado vida, disparando raios eletrostáticos para cima, contra as nuvens, criando uma falsa aurora que iluminava a noite com fitas de verde brilhante. Da névoa emergiu um batalhão de cavaleiros, com mais de cem combatentes e totalmente equipados com armaduras brancas idênticas. Acima deles voava o que, a princípio, Nissa pensou ser um anjo. Talvez tivesse sido um um dia. Não mais. Esta monstruosidade alada era composta por fios malhados de músculos vermelho-sangue, exceto por seu elmo, uma pirâmide colossal de osso descascado repousando sobre seus ombros.
Observando o exército que avançava, Nissa só conseguia pensar nos Sentinelas — os quatro originais — enfrentando os Eldrazi que ameaçavam despedaçar Zendikar. Havia camaradagem ali, um claro senso de fazer o que era certo. Um senso ingênuo — Nissa entendia isso agora. Ainda assim, ela ansiava pela confiança que Gideon podia nela instilar, pelo fervor que apenas Chandra podia despertar, equilibrado com a calma de Jace sob pressão. Mas nenhum deles estava lá. Jace estava em Rávnica preparando-se freneticamente. Chandra partira mais cedo naquele dia para se juntar a ele. E Gideon... Ele não viria.
Mas você está aqui , disse ela a si mesma. Ela tirou mais um momento para si e então correu de volta para Wrenn. "Outra onda de phyrexiamos!", gritou.
"Quantos?"
"Um exército inteiro", disse ela. "Se eles chegarem muito perto, não poderemos impedi-los de entrar na torre."
Wrenn empertigou-se. "Então nós os pararemos."
Nissa virou-se e liderou o caminho de volta, não diretamente para as fortificações orientais, mas para o pátio frontal. A melhor coisa para combater um exército era um exército próprio. Felizmente, ela ainda tinha o que parecia ser um sob seu comando.
"Levantem-se!", gritou Nissa, lembrando-se da palavra de controle que Elspeth usava para gerenciar o exército mecânico. O plano de Elspeth funcionara para preservar uma grande porcentagem da guarnição de defesa. Os soldados metálicos semelhantes a besouros somavam várias dúzias, e ela contou seis unidades de estátuas de argila ainda de pé. Eles bateram os pés para sinalizar sua atenção e a encararam. "Agrupar e marchar!", ordenou ela, fazendo sinal para que a seguissem pelo perímetro da torre para encontrar a força que chegava.
Como antes, os soldados metálicos marcharam em tempo perfeito, golpeando o solo encharcado da chuva do cinturão verde da torre até que se tornasse uma lama negra. Eles se alinharam no topo de uma mureta baixa na borda leste do complexo da torre. Esgueirando-se pelos espaços apertados entre os soldados, Nissa subiu à frente da mureta para observar a cena.
Os phyrexiamos haviam avançado o suficiente para que Nissa discernisse seus armamentos pavorosos: lâminas e escudos da cor de osso nu, com bordas vermelhas e fibrosas. A abominação angelical pairava acima dos soldados de infantaria, gesticulando para o que Nissa reconheceu como um complexo feitiço de proteção. Com certeza, sempre que o fogo das torres chegava perto das fileiras inimigas, os raios atingiam uma barreira invisível e se dissipavam inofensivamente.
Felizmente, elementais não seriam atrasados por tal barreira. Nissa estendeu sua consciência para a terra e o ar, convidando os espíritos do plano a habitarem corpos feitos de terra e pedra, vento e chuva. Correntes de ar começaram a se agitar. A terra entre os exércitos borbulhou e revirou-se. Defenda-se, Dominária!
Mas ao sentir a presença dos espíritos da natureza, ela experimentou algo que nunca sentira antes. Eles recuaram à sua presença. Agora é a hora de mostrar sua força! implorou Nissa. Eles a ouviram — ela podia sentir — mas seus apelos não foram respondidos.
Ela olhou para Wrenn. "Você sente isso? Minha magia..."
"Sim. As linhas de força estão emaranhadas. Intencionalmente, eu acredito."
O exército phyrexiano aproximava-se cada vez mais. Não havia mais tempo para esperar. O inimigo não podia ter permissão de alcançar as muretas — não haveria como impedi-los de se infiltrarem na torre naquele ponto. Se a natureza não atendesse ao seu chamado, Nissa teria que marchar para o campo de batalha com uma legião de máquinas. Mas por mais habilidosas que as tropas de Saheeli fossem no combate, eram cascas vazias em comparação com os inimigos que avançavam em sua direção. Para Nissa, naquele momento, os phyrexiamos eram a crista de uma onda destinada a sobrecarregar não apenas a torre, mas todos os bastiões de vida e esperança em todos os lugares, de Lorwyn a Innistrad e à sua amada Zendikar.
Com força esmagadora.
Com corrupção oculta.
Com desespero destruidor de almas.
Nissa desembainhou a espada fina e afilada escondida em seu cajado e ergueu-a no ar. "Avante!", ordenou. Os soldados mecânicos, seguidos pelas pesadas estátuas de argila, lideraram o caminho descendo a rampa e entrando no campo. "Mantenham suas posições! Defendam a torre!"
Arte de: Chris Cold
Os construtos formaram uma linha de cerco contra a qual os phyrexiamos investiram. Os exércitos colidiram com trovões nítidos e intermitentes. Bordas metálicas de ambos os lados chocaram-se contra armaduras, procurando pontos fracos para morder, rasgar e despedaçar o inimigo. Os construtos, é claro, não sentiam medo, mas os phyrexiamos — com seus rostos obscurecidos por elmos ou substituídos por osso liso e sem traços — também não recuavam. Pior, ao contrário das forças de armadura negra que atacaram mais cedo na noite, esta legião de armadura branca mostrava uma aparência de tática de batalha. Haviam acabado as investidas frenéticas que deixavam o inimigo vulnerável. Estes phyrexiamos estavam organizados em esquadrões de quatro ou cinco, trabalhando juntos para imobilizar os guerreiros mecânicos e atacar de posições de força.
As estátuas de argila não se saíram muito melhor. Depois que os primeiros phyrexiamos perderam suas armas na carne de terra das estátuas, eles começaram a focar em ataques rápidos e pontiagudos nos pontos mais fracos das estátuas — suas pernas. Duas já haviam sido derrubadas na lama por phyrexiamos esmagando os pés e tornozelos das estátuas com seus escudos pesados.
Wrenn tentou gerenciar o campo de batalha canalizando seu fogo interno em um labirinto ardente de corredores flamejantes e tortuosos, dividindo a linha phyrexiana em bolsões vulneráveis para os guerreiros construtos atacarem. Mas o estresse de manter seus feitiços enquanto mantinha sua posição contra mais e mais inimigos estava claramente cobrando seu preço. Um phyrexiano brandiu sua lâmina pesada sobre a cabeça de um construto, derrubando-o e abrindo um caminho para atacar Wrenn e Sete.
Nissa saltou para a frente e, deslizando por baixo do golpe do phyrexiano, golpeou com sua própria arma, apenas para vê-la ricochetear nas placas ósseas que protegiam o abdômen dele. De volta aos seus pés, ela esquivou-se por pouco de mais dois golpes pesados antes de o phyrexiano pressionar o ataque. Desta vez, ela esquivou-se de seu golpe vertical e arriscou lançar um feitiço simples no chão sob os pés dele. A terra solta contorceu-se, pequenas plantas e raízes despertando para sugar as pernas do phyrexiano para dentro do lodo. Dali, um grupo de soldados mecânicos acabou com ele.
Nissa olhou mais uma vez para cima. O phyrexiano voador mal se movera, contente em manter sua vigília acima da luta, tecendo feitiços de proteção para ajudar suas tropas a se defenderem e se recuperarem de ataques. A estratégia era sólida: desgastar os defensores da torre até que não restasse nenhum. Então tomar todos dentro da torre com facilidade. Mesmo sem suporte mágico, os números não favoreciam Nissa e seus aliados. Com ele? Nenhuma chance de vitória. Ela tinha que derrubar o general.
Wrenn. Nissa disparou em uma corrida direto para Wrenn, abaixando-se sob os galhos varredores de Sete. "Wrenn! Preciso da sua ajuda!"
"Estou um pouco ocupada no momento", disse Wrenn enquanto Sete derrubava um phyrexiano com um chute. "Mas estou ouvindo."
"O líder", disse ela, apontando para cima. "Vou derrubá-lo."
"Sua proposta?"
"Um pequeno presente de força meu para você. Então poderei escalar Sete e ir a partir daí."
Um sorriso raro apareceu no rosto de Wrenn. "Um plano aceitável."
Nissa pressionou as mãos no tronco de Sete, emprestando a força de seus próprios membros para os deles. Ao fazê-lo, ela acessou o inferno selvagem que Sete ajudava Wrenn a conter dentro de seu corpo. Nissa sentiu sua força vital misturar-se com as chamas, mas em vez de ser dominada, Nissa encontrou energia mágica renovada — uma linha de força própria. Ela canalizou esse poder recém-descoberto em seu feitiço, ordenando que Wrenn e Sete crescessem. Crescessem mais fortes. Mais altos. Com seu feitiço em pleno efeito, ela sentiu um dos galhos frondosos de Sete abraçá-la como se ela não fosse maior que um camundongo na mão de um ogro.
"Ele verá você vindo se você escalar", disse Wrenn. "Sete, faça-a voar."
Em um movimento fluido, Sete, agora em tamanho gigante, lançou Nissa para o céu, arremessando-a com tal força que a chuva ardia em seu rosto como picadas de alfinete. O phyrexiano alado contorceu-se no ar, seus movimentos desajeitados traindo sua surpresa com o ataque heterodoxo de Nissa. Embora ele tenha erguido um de seus braços de foice para golpeá-la, ela foi mais rápida e mais leve. Enlaçando um braço no pescoço da criatura, Nissa cravou sua espada profundamente em uma seção desprotegida no lado direito de seu corpo. A criatura balançou os braços descontroladamente para se livrar dela, mas Nissa segurou-se obstinadamente.
Incapaz de arremessá-la, o comandante phyrexiano parou de se debater, estendeu totalmente as asas e começou a subir em uma velocidade assustadora. Lá embaixo, o campo de batalha tornou-se uma espuma frenética de insetos rastejando uns sobre os outros, depois pontos, e então nada, enquanto ela e o phyrexiano cruzavam para a escuridão das nuvens de tempestade. O ar frio ardia em seus olhos, forçando-a a fechá-los.
Não! Ela não permitiria que o líder phyrexiano restabelecesse contato com suas tropas. Ele não ameaçaria mais nenhum de seus amigos, nem suas maquinações de pesadelo tocariam mais uma folha de grama em Dominária, Zendikar ou em qualquer outro lugar. Nissa apertou o braço em volta do pescoço do phyrexiano. Alcançando para baixo, ela arrancou sua espada da caixa torácica dele e então golpeou para cima, perfurando o emaranhado de cabos na base de sua asa repetidamente, a calidez pegajosa de seu sangue preto cobrindo sua mão. O phyrexiano arqueou as costas, tremendo freneticamente enquanto o encantamento de sua espada começava a fazer efeito. A cada estocada, ela implantara uma semente dentro do phyrexiano, e agora, na gélida noite dominariana, ela convocava as sementes a florescerem.
Brotos irromperam em uma sinfonia de carne rasgada e ossos estalando. Seu inimigo agitou os braços e as asas em vão; os brotos haviam se enrolado nos membros de Nissa, ajudando-a a resistir a qualquer tentativa de ser sacudida. O phyrexiano começou a cair, levando Nissa com ele.
Tudo o que Nissa podia fazer era segurar-se. Em poucos momentos, o campo de batalha voltou a ser visível, transformando-se de pontos de luz em besouros lutando contra dentes, para a agitação caótica de sangue e óleo. Com apenas um instante para decidir, Nissa ordenou que seus brotos a soltassem. Enquanto caía, ela tentou se recompor o suficiente para transplanar. Mas seus pensamentos fragmentaram-se, espalhados entre os espíritos recalcitrantes da natureza, seus amigos dentro da torre, o abismo deixado quando partira de Zendikar e, cada vez mais, sua própria morte iminente.
Nissa fechou os olhos e preparou-se para o impacto, apenas para sentir inesperadamente uma rede de folhas macias sob suas costas. Sete estendera seus galhos para pegá-la. Infelizmente, isso abriu seu flanco para o inimigo. Mãos frias, muito frias, estenderam-se para Nissa vindas de baixo e apertaram os dedos em torno de seus braços e pernas, arrancando-a para o chão. Ela lutou para se levantar, mas cada vez que progredia, o que pareciam mil membros blindados a arrastavam de volta para baixo.
Ajuda! Ajude-nos! gritou ela — não com a voz, pois o fôlego estava sendo expulso de seus pulmões, mas com a mente. Ela sentiu-se afundar no chão, passando pela terra e pelas raízes, passando pelo leito rochoso sobre o qual as montanhas repousavam, e ainda mais fundo, nas partes mais profundas do plano onde esperava encontrar sua essência — a Alma do Mundo.
Por que você não responde? gritou Nissa. Você não pode nos ouvir?
Apenas o silêncio seguiu-se. Nissa não conseguia entender. Em Zendikar, a Alma do Mundo estava tão perto dela quanto seu próprio fôlego. Ela comungava com ela. Confiava nela. Em Innistrad e Amonkhet, as Almas do Mundo eram hostis; em Rávnica estava oculta; mas em cada plano ela estava pelo menos lá . Aqui, em Dominária, era como se uma podridão tivesse infeccionado profundamente dentro do plano. Não, não uma podridão — um ódio nascido de feridas não curadas e traições nunca retificadas. Os espíritos da natureza que a haviam rejeitado anteriormente fizeram suas presenças conhecidas:
Você não é um dos filhos de Gaia , disseram em uníssono.
Gaia? Sim, esse era o nome que a Alma do Mundo escolhera para si mesma. Nissa podia sentir Gaia por perto, observando como ela respondia ao julgamento de seus agentes que detinham o domínio sobre as selvas intocadas de Dominária.
Há invasores em seu plano , implorou Nissa. Você deve nos ajudar a derrotá-los!
Os flagelados retornaram. Nós sabemos.
Visões invadiram a mente de Nissa de dezenas — centenas — de batalhas ocorrendo naquela mesma noite. Guerreiros maciços de pele cinzenta liderados por anjos de vitral lutando contra horrores phyrexiamos fervilhando dos esgotos das cidades. Senhores élficos adornados com pinturas de guerra montados em máquinas de guerra metálicas enquanto magos humanos em voo lançavam feitiços sobre feras de muitos chifres. Minotauros defendendo desesperadamente seus salões sagrados de pedra de monstruosidades biomecânicas, auxiliados por camponeses goblins que não mostravam medo. Seria este o nadir de Dominária, o tempo pouco antes de seu fim?
Você é uma intrometida que veio drenar a força de Gaia quando seus filhos precisam dela.
Eu sou uma protetora! disse Nissa. Veja por si mesma! Ela abriu sua mente totalmente, permitindo que todos vissem e sentissem Zendikar através dela. Suas memórias se repetiram como se ela fosse um espírito incorpóreo testemunhando todas as partes de sua vida. Desde seu primeiro encontro com a alma de Zendikar, até a derrota de hordas de Eldrazi, até a liberação do poder de cura do Núcleo Litoforma. Se algum de nossos lares deve ser salvo, deve começar aqui! Ajude-nos, e acabaremos com os phyrexiamos — de uma vez por todas!
Vocês são quebradores de juramentos . . .
Como ousam recriar nossa perdição . . .
O prateado prometeu levar o silex embora . . .
Nissa buscou uma saída da escuridão, mas não encontrou nenhuma. Qualquer promessa que Karn tenha feito a vocês não importa mais! Seus inimigos estão sobre vocês! Tão escuro. Silencioso, como uma tumba. Mas dentro deste vazio, Nissa encontrou clareza. Se esta fosse sua última noite como Nissa Revane, ela resolveu morrer lutando em nome de Zendikar. Não — em nome da vida em todos os planos.
Se você não vai emprestar sua ajuda, então devolva-me ao meu destino. Eu mesma o farei.
Foi então que ela ouviu — um estrondo fraco que se intensificou constantemente até se tornar um rugido que pressionou sua alma. Gaia a julgou , proclamaram os espíritos, e naquele momento, ela sentiu uma força estender-se para dentro dela e emergir através dela como uma mariposa de um crisálida. A mana do plano abriu-se para ela. Os braços e pernas de Nissa tornaram-se as raízes de carvalhos poderosos. Seu cabelo tornou-se o vento, afiado como espinhos. Seu corpo tornou-se o chão, repleto de animais, insetos e plantas. E então seu coração.
Seu coração tornou-se a ira de Gaia, uma raiva fervente que borbulhava e espumava como uma maré colérica lavando todo o vale. A energia vital encontrou novos receptáculos nos corpos dos caídos — tanto guerreiros mecânicos quanto phyrexiamos destroçados. Os pretensos destruidores de Gaia agora se remontavam, seus corpos de aço transmutados em cerne, óleo e pedras de poder convertidos em um sistema circulatório pelo qual fluía seiva rica em energia. Com uma graça misteriosa, a massa de guerreiros elementais embarcou em sua procissão rumo ao campo de batalha para lutar pela sobrevivência do plano.
Nissa sentiu que esta não era a primeira vez que a Alma do Mundo de Dominária tocava Phyrexia. Tornar-se um com o inimigo era convidá-lo para dentro de si, compreender suas verdadeiras motivações. As perguntas de Nissa sobre os phyrexiamos foram respondidas. Flashes de história mostraram-lhe como eles surgiram, suas tentativas de tomar Dominária para si e seus objetivos que corriam contra tudo o que era natural.
Tudo o que Nissa pôde fazer em resposta foi gritar.
Lentamente, a sensação começou a rastejar de volta para sua consciência, primeiro um formigamento em suas extremidades, depois, de uma só vez, explodindo em uma agonia avassaladora por todo o seu corpo. Tal angústia ela nunca sentira antes. Tal ódio ela nunca pensou ser possível emanar de seu coração. Seus olhos se abriram. Apenas uma fração de segundo parecia ter se passado desde que fora puxada para o chão, apêndices brancos como osso estendendo-se para agarrá-la.
Mas naquele momento, tudo havia mudado.
Ela lançou-se por instinto, ordenando que o chão sob seus pés se agitasse e golpeasse seus atacantes. Desta vez, os elementos curvaram-se imediatamente ao seu comando como se fossem extensões de seu próprio corpo. Gavinhas de terra irromperam para cima, afastando os phyrexiamos que a cercavam. Nissa levantou-se a tempo de testemunhar os protetores de Gaia descendo pelas muretas da torre. Eles inundaram o campo de batalha, engajando os phyrexiamos restantes em um choque titânico.
No caos, Nissa avistou Wrenn e Sete caminhando em sua direção, varrendo os phyrexiamos de seu caminho. Quando se aproximaram, Sete pegou Nissa com um galho e segurou-a enquanto corriam de volta para as muretas da torre.
"Um lamento desce das montanhas", disse Wrenn. "Devemos retornar a Teferi."
"Eu sei", disse Nissa. Olhando por entre os galhos de Sete, ela podia ver os guerreiros elementais mantendo os phyrexiamos de armadura de osso à distância como uma parede ondulante, cada inimigo caído sendo submetido à vontade de Gaia e erguido como um guerreiro para sua causa. Era tão glorioso quanto aterrorizante. Nissa entendia o sacrifício necessário, pois nem mesmo uma Alma do Mundo era infinita. Em outras partes do plano, os heróis de Dominária lutavam contra invasores phyrexiamos. A presença dos espíritos aqui significava que não estavam em outro lugar para ajudar outros. Milhares não veriam a manhã.
Quando alcançaram a mureta, ela estava estranhamente deserta. Imóvel. Sete colocou Nissa no chão e, juntas, ela e Wrenn observaram a luta no campo de batalha. Antes, Nissa sentira — o fluxo de vida misturando-se com o anseio phyrexiano pela destruição. Era um microcosmo de sua luta contra todos os phyrexiamos em todos os lugares.
"Nissa, não estamos sozinhas."
Nissa seguiu o olhar de Wrenn até a base da torre. Arrastando-se em sua direção estava o anjo phyrexiano, com as asas cortadas e a coluna estilhaçada, o punho da espada de Nissa ainda projetando-se de suas costas. Os brotos verdes haviam florescido em videiras envolvendo o corpo do general como uma nova pele. Com um vigor irresistível, Nissa deu um passo à frente, com a mão estendida. Ela dobrou os dedos, instando as videiras a apertarem.
"Seus mestres experimentam sensações através de você?", perguntou ela ao phyrexiano. "Eles sentem quando eu aperto? Quero que saibam o que vamos fazer com eles — com todos vocês. Não um fim simples, não." Ela apertou com mais força. Videiras enrolaram-se no pescoço do phyrexiano e começaram a torcer.
"Nissa, pare", disse Wrenn. "A sua não é uma canção de crueldade!"
Não, mas deve ser. Aquelas vozes na cabeça de Nissa. Os espíritos. Conhecemos este inimigo e, em seu coração, vemos que ele já reivindicou aqueles que você ama. Eles estão perdidos para sempre. A vitória sobre os flagelados exigirá que suas mãos carreguem o sangue de amigos e inimigos da mesma forma.
Com essas palavras finais, os espíritos partiram e, com eles, foi-se a raiva. Nissa cambaleou um passo à frente, um soluço em sua garganta libertado. Gaia lhe mostrara o que os phyrexiamos faziam se não fossem contidos — eles invadiam, consumiam, transformavam e então banqueteavam-se. Esse conhecimento não desapareceria; ela o veria em seus sonhos pelo resto de seus dias. Nissa olhou para o phyrexiano no chão à sua frente. Não importa o quão quebrado estivesse, correndo por seus membros estava o óleo cintilante, uma semente imunda da qual Phyrexia sempre poderia emergir. Talvez o mesmo fosse verdade para Ajani, para Karn se ele tivesse sido convertido, para quaisquer outros corrompidos pelos phyrexiamos. Quando chegasse o momento de fazer o que fosse necessário para proteger o Multiverso, ela teria que ser decisiva. Ela teria que ser a mão que se movia por aqueles que não podiam.
Nissa fechou os olhos e cerrou os dedos com força. As videiras obedeceram ao seu comando.
Quando Wrenn e Nissa chegaram à oficina de Saheeli, a parede de pedra ao redor da porta havia sido arrancada, empurrando a porta de metal e a barricada para o lado. Elas entraram na câmara. Fumaça preta, do tipo que ardia a cada respiração, permeava a sala. Através da névoa, Nissa pôde distinguir mais figuras do que as duas que esperava, todas cercando a Âncora Temporal.
Seu coração afundou com o pensamento de que phyrexiamos haviam passado pelas defesas. Nissa convocou o vento para afastar a fumaça e preparou-se para invocar os elementais de Gaia mais uma vez para esmagar seus inimigos. Mas quando a fumaça se dissipou, Nissa viu que pelo menos uma das figuras era alguém que conhecia.
"Nissa", disse Nahiri, com as mãos erguidas em súplica. "Acalme-se."
"Por que você está aqui?", disse Nissa, mantendo os ventos giratórios acima de suas cabeças.
"Porque eu pedi que ela estivesse", disse Jace, aparecendo. "Não podemos nos dar ao luxo de rejeitar nenhum aliado nesta luta. Espero que entenda." Suas palavras foram severas, mas sua expressão era de contrição. Nos dias antes de Nissa vir para Dominária, Jace a procurara para se encontrarem e conversarem — convites que ela deixara sem resposta. Ela sabia que não podia deixar Chandra ser a intermediária deles para sempre. Eles teriam que resolver suas diferenças eventualmente, mas agora havia assuntos mais importantes para tratar.
Nissa dispensou os ventos enquanto lançava um olhar para Nahiri para ver sua reação. A kor estava com o rosto tão pétreo como sempre. Mais perto da Âncora Temporal estavam Saheeli e Kaya, ambas avaliando danos extensos na máquina. Fios e circuitos transbordavam de cortes na estrutura metálica carbonizada da âncora, como entranhas de um cadáver. Destroços enchiam o meio, como se a âncora tivesse sido esmagada contra si mesma. "O que aconteceu?"
"A pedra de poder implodiu e sobrecarregou a âncora", disse Saheeli, removendo destroços da máquina. "Tentei mantê-la inteira, mas o esforço foi demais."
"E Teferi?", perguntou Jace. "Ele descobriu como fazer o silex funcionar?"
Kaya balançou a cabeça. "Sim, mas algumas coisas ainda não fazem sentido. Exigiu tudo o que eu tinha apenas para manter o contato. Uma confusão de palavras e imagens... Acho que entendo como ativar o silex, mas deveríamos perguntar diretamente a ele."
"Onde ele está?"
"Ali." Kaya apontou para a cápsula de estase no centro da âncora.
Nissa, Wrenn, Nahiri e Jace ajudaram Saheeli e Kaya a limpar o caminho para a cápsula de estase. Uma vez feito isso, Kaya foi a primeira a entrar.
"Teferi", disse ela, batendo na carcaça oca. "Você está bem?" Depois de não ouvir resposta, ela se aproximou e limpou a sujeira da pequena vigia na porta da cápsula. Colocando as mãos em concha ao redor do rosto, ela espiou para dentro. "Consigo vê-lo, mas está escuro... Espere — algo está errado."
"O quê?", disse Jace, abrindo caminho para a frente. Nissa seguiu logo atrás e viu ao mesmo tempo que Jace. Teferi estava lá dentro, com os olhos fechados, uma expressão de angústia no rosto. Ele parecia tão pálido e doente. Não, não era isso. Ele estava desaparecendo diante de seus olhos. Ela e Jace alcançaram o trinco da porta ao mesmo tempo, apenas para Wrenn gritar para que parassem.
"O acorde de Teferi ainda está preso a este dispositivo", disse Wrenn. "Ele reverbera com sua canção. Vocês não devem perturbá-lo."
Jace recuou e concentrou-se, estendendo sua mente para a de Teferi. "Wrenn tem razão. Ele ainda está lá, mas esticado, como se estivesse em lugares distantes. Ou tempos diferentes."
Saheeli começou a andar de um lado para o outro, falando para ninguém em particular. "Eu poderia tentar reconstruir a âncora novamente. Talvez reverter os sistemas para trazê-lo para a frente através do fluxo temporal." Ela parou e olhou para Jace. "Quanto tempo nos resta?"
"Nenhum tempo", disse Jace com uma carranca. "Kaya, sem Teferi —"
"Eu posso fazer isso", retorquiu Kaya. "Eu farei o silex funcionar."
"Não podemos simplesmente deixá-lo", protestou Nissa. "Os phyrexiamos estão por todo este plano. Eles vão voltar aqui."
"O ataque mirriano está quase começando", disse Nahiri. "É por isso que estamos aqui agora — para reunir vocês e partir para Nova Phyrexia."
"Não podemos deixá-lo morrer sozinho", disse Nissa.
"Não sozinho", gritou uma voz da porta. Apoiado no batente quebrado estava Jodah, fazendo careta enquanto segurava o abdômen. "E não para morrer. Se eu deixar isso acontecer, ele nunca me deixaria ouvir o fim da história."
Um momento depois, Elspeth apareceu atrás dele e, passando o braço dele sobre seu ombro, apoiou-o enquanto ambos entravam na sala cambaleando. Nissa não tinha ideia de como haviam sobrevivido àquela explosão, mas era aparente que mal haviam conseguido. Guiando Jodah até um assento em uma das mesas de trabalho de Saheeli, Elspeth sentou-o e colocou um pequeno frasco em sua mão. Então ela caminhou até o meio da sala.
"Meu nome é Elspeth Tirel", disse ela, estendendo a mão para Jace.
"Eu sei." Jace pegou a mão dela, com um brilho no olhar que Nissa reconheceu. Ele sentira a mente de Elspeth muito antes de ela aparecer. "Jace Beleren."
"Vocês vão para Nova Phyrexia."
"Sim. Assim que terminarmos aqui."
"Então eu vou com vocês. Vocês precisarão de alguém que conheça o terreno."
"E seu companheiro?", disse Jace, observando Jodah com uma expressão que Nissa só poderia descrever como desconforto. "Eu... eu não posso —"
"Você acha que é o primeiro mago mental com quem lido, Beleren?", disse Jodah com um sorriso carregado de veneno. "Você não é o primeiro, nem o melhor. Mas dê a si mesmo uns cem anos e talvez você chegue lá." Seus olhos voltaram-se para a cápsula que abrigava Teferi, o sorriso desaparecendo de seu rosto. "Eu sou Jodah, Arquimago de Dominária, e agora meu objetivo é ajudar meu amigo. Vou trabalhar para libertar Teferi enquanto vocês partem para o lugar mais horrível do Multiverso. Parece bom?"
"Eu não quis ofendê-lo."
"Não se preocupe em ser educado", disse Jodah. "Preocupe-se em ser cuidadoso, pelo bem de seus companheiros."
"Eu permanecerei aqui também", disse Wrenn. "Meus assuntos com Teferi não estão concluídos."
Logo, outros começaram a transplanar. Vraska em uma armadura verde e preta condizente com a rainha Golgari; A Peregrina, elegante e feroz, acompanhada por um jovem de cabeça raspada que ela apresentou como Kaito Shizuki; Tyvar, ainda sem camisa; e finalmente, um homem grisalho e distante, com as têmporas grisalhas e a mandíbula cerrada enquanto observava o ambiente coberto de destroços.
"Lukka, esta é Nissa Revane."
"Hmm", foi tudo o que Lukka disse, prestando-lhe a mínima atenção.
"E Chandra?", perguntou Nissa a Jace. Chandra partira de Dominária mais cedo naquele dia com a promessa de retornar. Onde ela estava?
"Kaladesh", respondeu Jace. "Para visitar a mãe antes de voltar para cá."
Nissa assentiu. Para esperar com Wrenn, Liliana e os outros. Para ver se eles voltariam. Era compreensível. Ainda assim, Nissa esperava ver Chandra novamente antes de marchar para o inferno, nem que fosse apenas para resolver as coisas após a conversa acalorada daquela manhã. Para dizer a ela que ela tinha razão. Para dizer que ela se importava. Mas isso teria que esperar, como seus assuntos com Jace. Suspenso dentro de uma pausa.
Todos fizeram seus preparativos finais antes de partirem. Saheeli prometeu transmitir as saudações calorosas de Nissa a Pia e desfrutar de uma bebida forte em memória de Yahenni. Wrenn e Jodah conferenciaram entre si sobre os próximos passos para trazer Teferi de volta. Kaya traçou o dedo pela superfície do silex, estudando seus símbolos, antes de embrulhá-lo cuidadosamente para a jornada que viria. Elspeth apresentou-se aos outros Planeswalkers, informando-os sobre o que poderiam esperar em Nova Phyrexia. Jace teceu um feitiço estabelecendo um elo telepático entre todos os membros da equipe de ataque. Dessa forma, poderiam localizar uns aos outros, mesmo à distância.
Nissa afastou-se de todos, preferindo vagar entre os destroços da Âncora Temporal. Os Sentinelas haviam se reunido mais uma vez. Em Rávnica — a última vez que os quatro membros originais estiveram juntos — eles renovaram seus juramentos ao Multiverso, uns aos outros. Desta vez, porém, era diferente. Os cismas silenciosos entre ela e Jace, entre ela e Chandra, estavam expostos, como feridas reabertas. Eles não seriam curados por uma mera recitação de frases familiares. Mas não precisavam ser.
Nissa observou todos os outros na sala, amigos e estranhos de múltiplos planos reunidos assim como as pessoas díspares de Dominária haviam se unido, superando suas divisões e forjando uma frente unida. Havia algo belo nisso. Algo digno. Algo vital que Nissa não havia considerado. A luta contra os phyrexiamos não era simplesmente repelir os planos doentios decretados por um megalomaníaco singular como Nicol Bolas, nem era uma tarefa para os Planeswalkers realizarem sozinhos. Todos os seres que esperavam por qualquer tipo de futuro enfrentavam uma escolha: permitir que os phyrexiamos transformassem cada plano nos desertos sombrios e carbonizados que Nissa testemunhara através dos olhos de Gaia, ou lutar ao lado de outros que outrora poderiam ter sido inimigos.
Honrando suas diferenças. Forjando novos laços que prevaleceriam e perdurariam.
Jace anunciou que chegara a hora de partir, e todos os que iam para Nova Phyrexia reuniram-se ao redor dele. Nissa caminhou em direção ao centro da sala para se juntar a eles, parando momentaneamente ao notar algo pequeno movendo-se entre os destroços. Ajoelhando-se, ela afastou as cinzas e a sucata para descobrir um pequeno pássaro artefato, certamente uma das criações de Saheeli. Ele tinha sua habilidade meticulosa salpicada com um pouco de ludicidade. O pássaro saltou para o seu dedo, e Nissa ergueu-o para olhar mais de perto. Ele esticou o pescoço, olhou Nissa diretamente nos olhos e soltou um tom metálico minúsculo como o tinir do orvalho matinal pingando em um lago imóvel.
"Pela vida de cada plano", sussurrou ela, "Todos nós manteremos a vigília."
Arte de: Rovina Cai
== Epílogo
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Teferi acordou em uma praia em um dia quente. A areia era fina e compacta, úmida, apenas começando a secar agora. Ele respirou contra a areia, piscando enquanto os grãos finos irritavam seus olhos.
Um pequeno caranguejo caminhou sobre sua mão, parou diante dele e soltou bolhas. Ele saiu correndo.
Ele sentiu-o caminhar sobre sua mão.
Ele sentiu.
Teferi levantou-se de um salto, sacudindo a areia do corpo. Ele não era mais um espírito. Ele estava inteiro, mas não estava na Âncora Temporal. Ele sentia-se...
Bem. Descansado. Confuso, como se tivesse acordado de um cochilo. Ele olhou em volta, observando a costa onde se encontrava.
O mar estendia-se até o horizonte, azul-celeste e cintilante sob o sol do meio-dia.
Em terra firme, a areia branca e fina subia pela margem até encontrar a grama de praia verde e as dunas. Pegadas antigas mostravam que as pessoas costumavam caminhar por ali, embora Teferi estivesse sozinho no momento. A costa baixa e plácida curvava-se para ambos os lados das dunas. À esquerda, a costa estendia-se por cerca de um quilômetro antes de subir em um penhasco rochoso e vertical. Árvores costeiras agarravam-se ao topo do penhasco, uma cobertura verde fustigada pelo vento que coletava névoa e dançava ao longe. À direita de Teferi, a praia rolava para a distância nebulosa.
Pássaros costeiros pairavam no céu, aproveitando a brisa constante do oceano.
"Kaya", disse Teferi. Ele franziu a testa. Sentiu sua voz vibrar na garganta, ouviu-a com os ouvidos sob o rugido suave do vento costeiro. Não havia conexão; ele apenas pronunciara o nome dela em voz alta.
A gravidade de sua situação pulsou através dele, carregada no som do fluxo de seu sangue mais uma vez por seu corpo físico.
Se ele não pudesse se conectar a Kaya, não poderia se conectar à Âncora Temporal. Se não pudesse se conectar à Âncora, então não poderia voltar para casa. Teferi só podia esperar que Kaya tivesse obtido o que precisava de sua conversa com Urza. Ele se lembrava de sentir a presença dela lá, ou imaginara essa memória? Ele já lutava para lembrar, já começava a esquecer. O rio, consumindo o lago.
O que ele havia esquecido? O que ele fez?
Ele apenas esperava que Kaya tivesse conseguido o que precisavam. Se Kaya não pudesse se lembrar do que ele perdeu, então —
"Não", disse Teferi, falando apenas para si mesmo e para os pássaros costeiros.
Este não era o momento para pânico; este era apenas um problema, apenas mais um obstáculo a ser superado. Ele olhou para cima na praia, em direção às pegadas antigas na areia. Havia pessoas ali. Se havia pessoas, havia esperança.
Teferi deu as costas ao oceano e começou a caminhar terra adentro.
Episódio 5: Tão Cruel Quanto Necessário
26 de outubro de 2023 • Miguel Lopez & Jeff Grubb
4562 AR
Teferi estava deitado sem camisa em um caixão de metal frio, contando sua respiração. Quanto tempo ele tinha antes da transmissão? Um minuto no máximo, embora parecesse uma eternidade.
Duas batidas rápidas na tampa do caixão. Kaya, perguntando se ele estava pronto.
Havia sido um mês e alguns dias de testes, de aventurar-se de volta uma hora, um dia, uma semana por vez, garantindo que nada mudasse, que as frases secretas que Kaya e Saheeli escreveram e plantaram dias antes fossem relatadas com precisão de volta ao presente; um mês disso e Kaya ainda perguntava se ele estava pronto. Se ele estava bem. Teferi sorriu dentro do caixão, um sorriso suave e triste. Esses novos caminhantes eram diferentes daqueles com quem ele havia crescido. Mais humanos — mesmo que não fossem humanos.
Teferi bateu duas vezes no interior da tampa. Ele estava pronto.
Um brilho roxo tênue se espalhou diante dele, iluminando sua visão com tons ultravioleta e matizes mais profundos. Uma leveza formigou as pontas de seus dedos, os dedos de seus pés.
Um pensamento reconfortante, caso ele não retornasse: Kaya lideraria todos eles. Ela e Elspeth, e Jace também. Boas mãos. Teferi expirou e tentou se acomodar. Ele pensou em Wrenn e suas canções.
O metal nunca parecia aquecer, não importa quanto tempo ele ficasse deitado nele. Quanto tempo A Guerra das Antiguidades dizia que Tawnos ficou em seu caixão? Cinco anos?
"Você pode perguntar a ele", disse Kaya. Sua voz era fraca, sibilante em sua mente. Ele não conseguia ouvi-la — ela falava através dele, por ele. Nesse estágio intermediário entre o corpóreo e o insubstancial, havia cada vez menos distinção entre os dois.
Teferi riu, Kaya riu. Eles não conseguiam se conter — o nervosismo, a fadiga. Kaya era sua médium; ela já estava em sua cabeça. Mais precisamente, ele estava na dela.
"Lembre-se", sussurrou Kaya. "Concentre-se no céu. Encontre a escuridão mais profunda."
Teferi obedeceu. O zumbido da Âncora Temporal subiu mais um degrau.
"O tempo é uma tapeçaria, e você é uma agulha."
Perfurante. Uivante.
O caixão começou a esquentar. A respiração de Teferi ficou mais rápida. Ele não conseguia ouvir nada além dos tons estratificados da âncora subindo. Ele ouviu Kaya e Saheeli gritando uma com a outra através da cacofonia, a voz de Kaya ecoando em sua própria mente.
He nunca se acostumava com essa parte. Ele odiava este momento, este rasgar de sua centelha e alma de seu corpo —
"Vá."
Arte de: Kekai Kotaki
Ele sentiu seu corpo esvair-se,
e com ele o metal frio
do caixão simulado.
A missão não era o problema. Eles tinham seu alvo identificado, e sabiam onde procurar por respostas. Eles tinham poder, tinham armas, tinham conhecimento e tinham aliados. Crucialmente, eles tinham um novo sílex.
O problema era que eles não sabiam como usar a maldita coisa.
Saheeli havia construído uma réplica essencialmente perfeita a partir dos planos e notas de Karn, mas por todo o seu brilhantismo ela permanecia apenas uma engenheira. O mistério da ativação do sílex não era mecânico — era mágico, um feitiço enterrado na história, e a história não era confiável.
Para constar:
O sílex golgotiano fora primeiro criado ou descoberto por Feldon, um estudioso de línguas e geleiras antigas, algumas décadas antes da Guerra dos Irmãos. Da mesma forma, fora criado por Ashnod, esculpido na calota craniana do qadir que seu mestre, Mishra, substituiu. Além disso, fora retirado do poço de icor mais profundo da Antiga Phyrexia por Gix, um demônio que se arrastou para Dominária a partir de sonhos de aço e óleo. Além disso, o sílex fora cinzelado do dente de um gigante e guardado pelos kobolds de Kher; bem como era uma das lágrimas endurecidas de Tal, a coroa congelada por feitiço de uma estrela cadente, o coração derretido de uma montanha martelado em forma pelos anões sardianos, e assim por diante, e assim por diante.
Os mitos do início daquele antigo destruidor de mundos preenchiam resmas, e não havia como dizer qual deles era verdadeiro. Da mesma forma, para o fim do sílex.
Karn acreditava que o seu era o verdadeiro, mas as histórias que Teferi desenterrara falavam do sílex sendo destruído por Urza, ou estilhaçado por Jared Carthalion, ou consumido por um dragão grande e morto há muito tempo, ou jogado em um lago como tributo a algum deus preso no gelo.
Segundo os cálculos de Teferi, havia quatro ou cinco sílexes que valiam a pena investigar, e histórias contraditórias para todos eles: assim, a âncora, a agulha e a tapeçaria.
"Então, como o encontramos?" Saheeli perguntou. Ela tinha um modo direto, focado em soluções, que Teferi apreciava em uma crise.
Teferi olhou para os papéis, pergaminhos, manuscritos, gravuras e tomos antigos espalhados diante dele. Eles cobriam a antiga mesa de desenho, uma camada de história englobando milhares de anos de lendas dominarianas. Todos eles eram inúteis, pensou ele, exceto por um.
Teferi esticou o braço e empurrou as histórias de lado, derrubando algumas no chão enquanto procurava. Ele o lera e descartara logo cedo — não por falta de habilidade, mas por falta de especificidades.
Saheeli não disse nada. Ela arqueou uma sobrancelha e observou o mago do tempo lançar textos valiosos em cantos mofados até que ele se levantou, triunfante, segurando um manuscrito marcado pelo mofo.
"A Guerra das Antiguidades", disse Teferi. Ele bateu os papéis na mesa e os abriu. "Aqui", disse ele, fincando um dedo no épico mofado. "A esposa de Urza, Kayla bin-Kroog, escreveu este épico narrando a história da guerra que ela mesma testemunhou. Existem muitas versões e traduções, mas todas terminam da mesma maneira: Urza ativou o sílex em Argoth e encerrou a guerra." Teferi olhou para Saheeli. "Nós vamos para cá — a última batalha da Guerra dos Irmãos."
"Bom o suficiente." Saheeli assentiu. "Vou começar a trabalhar."
Arte de: Kekai Kotaki
Ele a sentiu ali com ele
Ele era a agulha dela através do tempo,
um espírito que ecoava, ecoava,
Ecoava.
Urza, este caixão, o sílex, os phyrexianos — fios suficientes para Teferi ter certeza de que havia alguma arquitetura cósmica maior, alguma lógica animando este momento que nem ele poderia esperar entender. O ritmo desconhecido do destino movendo não apenas Teferi, mas todos eles em uma grande orquestração através da história. Tudo o que Teferi podia fazer era olhar para trás através de seu caminho sulcado e esperar que algo em seu rastro desse uma pista do que estava por vir.
Teferi manteve essa preocupação em segredo. Não seria tranquilizador para seus amigos e aliados ver o consumado cronomante tão reduzido. Saber que ele era um capitão de olhos vendados ao leme, apenas um marinheiro que nunca estivera no mar.
À noite, ele ficava sozinho em seu quarto perto do topo da torre do antigo Urza, olhando para o chão gasto, incapaz de dormir.
Teferi estava tão perdido quanto o resto deles.
A escuridão era absoluta,
Ele flutuava, um
Sozinho?
A cabeça de Teferi doía. Com toda essa jornada temporal, ele não dormia bem há semanas. Ou talvez dormisse — talvez estivesse dormindo todo esse tempo. Ele não se lembrava.
No caixão, Teferi usava uma venda nos olhos e um conjunto simples de roupas de baixo. Uma bandagem envolvia sua seção média. Embora já tivesse passado algum tempo e Elspeth tivesse imposto as mãos e tratado sua ferida com Halo, a criatura phyrexiana o ferira profundamente. Ele sentia sua dor quando respirava, embora isso, também, ele guardasse para si. Quer a phyrexis estivesse corroendo sua medula ou os phyrexianos ameaçassem as portas barricadas desta câmara, a aproximação da morte era constante e imparável. A menos que —
Ecos. Tempo. A história se repetindo, com variações. Teferi não sabia se a criatura que o abrira deixara óleo cintilante nele. Ele não sabia se Elspeth, Wrenn, Jodah e os outros falhariam em contê-los agora. Tudo o que ele podia fazer era cumprir seu papel.
Teferi controlou sua respiração. Ele não sabia quando era o agora.
Ele havia morrido? Ou havia mais alguém na escuridão com ele?
Conte as batidas
Um, dois, três, quatro,
O que o estava demorando tanto —
Tudo o que Teferi aprendera com a viagem no tempo era a piada fácil e verdadeira: só era possível ir para frente, uma vez, e apenas no ritmo da vida.
Urza quebrou este axioma. Teferi estivera lá e sabia que custara quase tudo. Desde seu próprio contato com o tempo, ele se mantivera afastado de violar essa lei. Manipular o tempo era lançar fagulhas em um oceano de grama seca pela seca: a conflagração era quase certa. A única coisa deixada ao acaso era a força do fogo que se seguiria.
But quando o campo já estava queimando? Quando o fogo já havia engolido tudo?
para ambos
a agulha e seu fio, brilhando —
Uma vez colocado em movimento, você não pode pará-lo
Prata.
A prata podia escapar da lei férrea do tempo. Urza descobriu que a prata podia viajar fisicamente de volta no tempo, criou Karn e, Teferi supunha, deu início a todo este caso.
Viagem física não era o que Teferi e os outros precisavam ou desejavam. A viagem física seria o mesmo que ficar na conflagração e se banhar com óleo de lamparina. Não, eles não precisavam voltar eles mesmos — eles só precisavam ver o que ocorreu.
Saheeli havia decifrado o problema. Esqueça a prata; se você está indo para uma conflagração, vá como uma fagulha. Ao extrair o espírito de alguém e lançá-lo de volta, a pessoa seria incapaz de interagir com o passado enquanto permaneceria capaz de observar — o lado oposto também deve ser verdadeiro, ou pelo menos não falso.
No papel, isso fazia sentido.
Assim como o plano de Urza, Teferi lembrou a si mesmo — e como aquilo terminou? Tolária em chamas, fendas rasgadas no tempo, aquela demora interminável. Se não houvesse uma ameaça tão grande a ponto de justificar este esforço, Teferi nunca teria acordado em empreender esta expedição.
Se não houvesse uma ameaça tão grande, Urza nunca —
Sim, sim, pensou Teferi. Claro.
E no fim? O que
ambos diriam de sua atemporalidade?
Era como cair, como dançar.
85 AR
Teferi chegou em uma sala escura em uma cidade inundada que ele mais tarde saberia ser Kroog.
Lá, ele observou um homem brutal enlouquecer e gritar sobre fantasmas e assassinos. Isso era preocupante: ninguém deveria ser capaz de vê-lo. Nenhum dos testes que realizaram indicou que alguém poderia vê-lo como um espírito.
Teferi partiu; de qualquer forma, este não era o momento que ele estava procurando.
28 AR
Teferi estava em um beco escuro sob um céu em chamas. Ele estava de volta a Kroog. Ele a reconheceu imediatamente pelas torres: durante sua primeira visita elas eram ruínas desmoronadas. Agora, elas se erguiam orgulhosas acima de uma cidade sitiada. Os sinos trovejavam acima de gritos crescentes.
Os mortos estavam por toda parte.
Esta não era a Última Batalha, mas Teferi demorou-se por um momento. Um soldado, um menino no que Teferi mais tarde saberia ser um uniforme Fallaji, estendeu a mão para ele. Ele dizia algo repetidamente, uma palavra plangente que, embora Teferi dissesse a si mesmo que não entendia, ele sabia que entendia.
"Pai", o menino arquejou. O menino morreu.
Teferi permaneceu parado, com o queixo cerrado. Seu corpo de volta no caixão estremeceu, como alguém que está sonhando.
"Ainda não", ele sussurrou.
Kaya, que via tudo o que Teferi via, nunca falou sobre este momento para ninguém.
44 AR
Teferi caminhou por um vale de necrotério em algum lugar a sudeste de Tomakul. Esta era a mesma guerra que ele vira dias antes, agora décadas depois. Metastatizada até seu ápice mecanizado.
Trincheiras longas e profundas estriavam a terra. Se Teferi pudesse voar acima dela, ele olharia para baixo em um mundo ondulando com cicatrizes lamacentas. Cadáveres de máquinas e humanos eram densos como plantações no campo de um fazendeiro, estendidos sobre trincheiras e arame farpado, retorcidos e quebrados. Entre eles marchavam colunas de soldados carregados de mochilas sob casacos escorregadios pela chuva. Estes eram exércitos de homens mais mortos do que vivos, tão espectrais na alma quanto Teferi era no corpo.
Arte de: Sam Burley
Assim que os exércitos passaram, carniceiros perseguiram os campos dos mortos, colhendo os corpos que consideravam úteis. Teferi observou enquanto figuras vestidas de preto e trêmulas carregavam carroças rudes e com rodas com cadáveres humanos e de máquinas, puxando-os em direção a Tomakul, até que um deles o viu.
Teferi partiu, armando-se de coragem. Se este campo esquecido lhe parecera um círculo do inferno, então que terrores a Última Batalha reservava?
4562 AR
Teferi, Kaya e Saheeli estavam sentados ao redor do caixão aberto, Teferi comendo enquanto Kaya e Saheeli bebiam café. Era algum momento horrível entre a noite e a manhã. Nenhum deles dormia mais.
Lá fora estava quieto. Kaya disse a Teferi que Elspeth estivera lá uma hora ou duas antes de ele emergir. Ela perguntara sobre seu progresso e dissera a eles que os phyrexianos estavam perto.
"O que significa 'perto'?" Saheeli perguntara a ela.
"Tranquem a porta quando eu sair", Elspeth respondera. Ela estivera na linha com os outros Caminhantes de Planos, e sua voz estava rouca de tanto gritar sobre os sons do combate.
O tempo estava se esgotando. Sucesso ou fracasso, eles estavam presos lá dentro até o fim.
"Eu o encontrei", disse Teferi, quebrando o silêncio.
"Quando?" Kaya perguntou.
"Quando eu estava voltando", disse Teferi. "Eu o vi, como uma cicatriz. Parte da tapeçaria borrada, como tinta derramada em uma página. Tempo borrado. Eu ainda não fui a esse."
Kaya assentiu. Ela não precisava de uma explicação.
"A âncora pode não ser capaz de aguentar outra jornada", disse Saheeli. Sua voz era a mais suave dos três, mas era a que melhor ressoava nesta sala fria e abobadada.
"O que acontece se a âncora falhar enquanto ele estiver lá dentro?" Kaya perguntou.
"Eu não sei", admitiu Saheeli. "Eu diria que ele morre. O corpo dele morre, pelo menos. A centelha dele", ela acenou com a mão, os dedos dançando em direção ao teto. "Nada de bom."
"E ela?" Teferi disse, acenando em direção a Kaya. "Ela é minha médium — ela está lá atrás comigo. O que aconteceria com ela?"
"Teferi, eu apenas construí a âncora", disse Saheeli. "Sou uma engenheira. Eu sei como ela poderia falhar. A pedra de poder da âncora poderia explodir, ou a ponte temporal entraria em colapso. O caixão superaqueceria e implodiria." Saheeli deu um gole em seu café. "Eu sei como as máquinas quebram", disse ela, "não o que acontece com uma alma quando ela é cortada de seu corpo."
Eles deixaram as palavras de Saheeli serem as últimas sobre o assunto. Terminaram seu café e pequenas comidas. Sem dizer uma palavra, Teferi deslizou de volta para o caixão e colocou o pano de volta sobre os olhos.
"Pronta?" Kaya perguntou a Saheeli.
"Pronta", concordou Saheeli.
"Teferi?"
"Vamos", disse Teferi. "Vejo vocês todos em pouco tempo."
Kaya fechou a tampa do caixão. Na escuridão, Teferi esvaiu-se.
63 AR
Urza estava sentado de pernas cruzadas com a tigela em seu colo. As runas dentro da tigela espiralavam em direção ao centro. O sangue do ferimento jorrando em sua testa gotejava na tigela e preenchia as runas esculpidas com carmesim.
Nos dias atuais, Kaya sussurrava seu diálogo com Teferi, relatando tudo o que ele via. Sua voz tinha uma ressonância mais profunda, uma sobreposição que colocava a voz de Teferi sob a sua própria. Saheeli, embora estivesse ocupada operando a âncora, não pôde deixar de ouvir.
"O sangue do corte na testa de Urza está caindo na tigela, preenchendo as runas. Ele está sentado de pernas cruzadas com a tigela no colo", murmurou Kaya. Ela balançava, suando, com as mãos colocadas sobre o caixão.
A máquina de Mishra havia se recuperado da avalanche e agora avançava colina acima, sua cabeça de dragão gritando. Urza olhou para cima e viu o rosto de seu irmão, metade arrancado do crânio metálico por baixo, e chorou por ele.
Arte de: Chris Rahn
"O irmão dele está perto dele. Pode ser desencadeado por algum tipo de ressonância simpática entre os dois. Talvez exija mais de uma pessoa focada, algum estado emocional elevado — ou poderia ser a proximidade da tecnologia phyrexiana", disse Kaya.
"O que mais?" Kaya perguntou.
"Lágrimas. Muitas lágrimas. Urza nunca chorava. Ele é tão humano, aqui", ela respondeu.
A máquina de Mishra atingira o topo da colina agora, e sua cabeça de serpente pairava bem acima deles. Mishra estava sorrindo, o sorriso metade carne e metade aço. Era o sorriso de um homem triunfante.
Mishra estava gritando algo.
Um clarão na base da tigela —
Um clarão na base da tigela —
Um clarão na base —
Um clarão — "PARE!"
4562 AR
Teferi escorregou de volta para o presente.
Ele mal conseguiu sair do caixão antes de ansiar, tossindo uma mistura rala de água e biscoitos salgados no chão de pedra frio da câmara. Ele tremia, a ferida em seu flanco doendo. Atrás da venda que usava contra o brilho do mundo real, um caleidoscópio de cores girava.
"Eu quase consegui", mentiu ele enquanto Kaya o ajudava a sair do caixão. "Acho que tem a ver com o sangue, ou talvez com a profundidade dos sulcos. Saheeli", gritou Teferi. "O seu sílex tem espirais? As runas?"
"Claro que tem", gritou Saheeli de volta da base da âncora, onde estava ocupada fazendo pequenos ajustes e reparos.
Kaya pressionou uma toalha fria na testa de Teferi. "Escute", disse ela, firmando-o enquanto ele balançava. "O que estamos vendo lá atrás — ao que seu espírito está exposto — é brutal."
"Temos tempo para descansar?" perguntou Teferi.
"Coma", disse Kaya, ignorando a pergunta.
Teferi comeu uma pequena quantidade, tanto quanto seu estômago conseguia aguentar. Tomou um gole de água e depois subiu de volta no caixão. O som da luta do lado de fora da câmara passou sem comentários.
"Depressa", disse Kaya. "Por favor. Isso também é difícil para mim." Seu comportamento habitual, sua atitude despreocupada, havia desaparecido.
Kaya estava certa e Teferi sabia disso. Como sua médium, ela bem poderia estar lá com ele toda vez que ele voltava no tempo.
"Dê-me o máximo de tempo que puder", disse Teferi.
Kaya olhou para a barricada que haviam empilhado contra a porta da câmara, depois voltou para Teferi. "A última", disse ela. Ela fechou a tampa do caixão e bateu as trancas.
No silêncio do caixão de estase, Teferi sentia que poderia estar em qualquer lugar. Estava quente agora, confortável, e cheirava ao seu suor. Ele expirou e esperou que Kaya fizesse seu trabalho.
Dois toques suaves na tampa do caixão — as mãos dela. Um redemoinho roxo, espalhando-se como fogo silencioso pela tampa interna, brilhante através de sua venda.
Seu corpo desapareceu. Ele estava em qualquer lugar.
Uma divisão entre o tempo real — isto é, o que Teferi considerava o presente, que ele não conseguia ver além — e naquela época . Com a ajuda da Âncora Temporal de Saheeli e a extração e mediunidade de Kaya, era uma tarefa fácil o suficiente para Teferi caminhar entre o tempo real e naquela época; a dificuldade era a fadiga e a navegação. Ele podia voltar a qualquer ponto de que se lembrasse, mas precisava descobrir o momento primeiro. A viagem o deixava exausto e fraco.
Teferi, o melhor que pôde, deixou seus medos de lado. Ele tentou deixar que a tarefa em mãos os substituísse. Um mês de busca meticulosa, e ele finalmente encontrou o momento de que precisava quando era mais desesperador. Os Phyrexianos estavam, literalmente, à porta.
Sozinho, Teferi ficou sob um firmamento que sua mente lhe dizia ser um céu noturno e o vasculhou em busca da nebulosa escura que ele sabia ser a Guerra dos Irmãos. Ele a encontrou e deu um passo para dentro, seu espírito cruzando milênios com um pensamento. Dentro daquele espaço havia uma escuridão múltipla, um nada padronizado com texturas que Teferi mal começara a compreender.
Ele encontrou a curiosa, a mancha estígia que esperava ser a Última Batalha, e — como uma agulha mergulhando no pano — mergulhou nela.
Um céu negro. Uma praia fustigada pela chuva. Ruínas metálicas tiquetaqueando e se contorcendo, ainda se arrastando em direção aos seus inimigos. Dois construtos titânicos desmoronados um sobre o outro sobre a vegetação antiga queimando intensamente. Atrás dele, ondas com manchas de óleo quebravam e rugiam, arrastando corpos mortos para cima e para baixo na areia manchada.
Argoth. A Última Batalha. Momentos antes do fim do mundo, novamente.
Arte de: Chris Cold
63 AR
A máquina de Mishra tinha alcançado o topo da colina agora, e sua cabeça de serpente pairava bem acima deles. Mishra estava sorrindo, o sorriso metade carne e metade aço. Era o sorriso de um homem triunfante.
Mishra estava gritando algo.
Um clarão na base da bacia —
Tudo parou.
Isso não era inteiramente exato. Tudo desacelerou. Com um gesto, Teferi dividiu a progressão do tempo por metades até um número infinito. O tempo, tanto quanto Teferi podia observar, congelou.
O comando sobre o tempo era um poder formidável. Divino. Teferi sabia que era ruinoso, por isso era um praticante cuidadoso. Ele pensara que a resposta residia na observação, em tomar um cuidado especial com este momento para notar cada detalhe dos movimentos, emoções e palavras de Urza. Havia tanto que ele não sabia, por isso tentou observar e relatar cada coisa — até mesmo a chuva, caso fosse um componente do feitiço.
Todo o seu cuidado o recompensou com nada. Nada do que ele viu sequer aqueceu a bacia do sílex fac-símile de Saheeli. Ele tinha que encontrar alguma maneira de dar um passo além.
Teferi pensou em uma maneira. Era um risco. Isso já não era um risco? Tudo poderia dar errado, sim, mas em seu tempo tudo já estava dando errado: Karn se fora, os Phyrexianos estavam em Dominária novamente, Jaya estava morta, seu último reduto estava prestes a cair. Qual era o pior que poderia acontecer? Pensou Teferi. O fim do Multiverso?
As circunstâncias o empurravam a ser imprudente. Aquele corte infinito pela metade que o protegia também o distanciava; ele precisava alinhar seu tempo com o de Urza.
Era um risco terrível. Teferi ponderou o que sabia: Urza não morreu quando o sílex detonou. Ninguém sabia como ele voltou ou quando, mas Teferi o conheceu quando era jovem. Ele havia estudado com ele na Academia Tolariana. No entanto, só porque Urza viveu, não significava que Teferi — mesmo como um espírito — poderia resistir à explosão do sílex. Aquele artefato era mais do que apenas uma bomba: o Fragmento de Doze Mundos, a Era do Gelo, cada evento importante nos últimos quatro milênios — tudo veio depois deste momento. Sua família veio depois deste momento. Se Teferi pudesse ter respirado fundo, ele o teria feito. Um pensamento, enquanto ele agia: a existência não é garantida.
Teferi parou de reter o tempo.
O Multiverso se rasgou.
Tudo veio depois.
Arte de: Joseph Meehan
??????
O que restava de Urza sentava-se de pernas cruzadas sobre uma raspagem de terra de Argoth. O sílex estava equilibrado em seu colo, sua bacia preenchida com uma luz branca e purificadora, congelada em pleno desabrochar.
Teferi estava a uma curta distância, um espírito em tons suaves. Ele podia ver pouco de Urza atrás da luz emitida pelo sílex, mas o suficiente para distinguir a silhueta do Planeswalker dentro da detonação.
Juntos, os dois estavam sozinhos em um vazio empíreo. O chão sob eles era um pequeno pedaço de Argoth, e depois o nada absoluto em todas as direções. Para Teferi, parecia que estavam dentro do ventre de uma nuvem.
Urza. Quanto tempo fazia desde que Teferi o vira pela última vez? Quantas vidas, quantas existências? Teferi caminhou até Urza e sentou-se em frente ao sílex. Ele limpou a garganta.
"Preciso lhe contar algumas coisas sobre o futuro", disse Teferi a Urza. "O seu futuro, o meu presente. Diz respeito a tudo."
Urza olhou para cima, seu rosto um crânio em carne viva e sorridente. "O quê?" disse ele, sua voz não queimada.
"Não serão coisas boas", enfatizou Teferi.
"Curioso", disse Urza. Ele olhou para o sílex, para a luz rastejando de um ponto iluminado no nadir da bacia, depois para o espaço que os cercava. "Não se espera notícias felizes em um vazio sem forma", murmurou ele. "Isso é o pós-vida?"
"Não", disse Teferi. "Espero que não."
"Bem, então", disse Urza. "Quem é você?"
"Em um momento — preciso pedir sua ajuda."
"Você disse que é do meu futuro", disse Urza, ignorando a insistência de Teferi. "Que precisa da minha ajuda. Como sabe se você falar comigo mudará alguma coisa?" Urza gesticulou para a vastidão da eternidade. "Ou pior — talvez mude tudo."
Teferi hesitou. "Não tenho certeza", disse ele. "Tivemos que arriscar."
"Nós", disse Urza. Uma pergunta, posta como um comentário. "Ou o que você vai me dizer importa muito, ou não importa nada."
"Parece que sim", murmurou Teferi. Os dois homens ficaram em silêncio. Olharam mais uma vez para o sílex, aquela coisa ruinosa.
"Você deve saber primeiro que você é um grande homem agora", disse Teferi. "Mas você não é nada parecido com o que se tornará." Ele tocou a borda do sílex. O núcleo sólido da luz, tenso como água transbordando na borda da bacia agora, oscilou. Aquela luz era a perdição, pensou Teferi. Ele estava olhando para o fim de uma era e o amanhecer de outra.
"E o que seria isso?" perguntou Urza. Ele embalava a bacia em seu colo. A maior parte dele fora queimada pela detonação do sílex, mas ele não parecia estar com dor. Carne enegrecida descascava para expor osso purificado, e onde não havia nada, havia uma luz mais brilhante — uma centelha, coalescendo.
Sua centelha. Neste momento, Urza estava se tornando o que se tornaria.
"Alguns provavelmente chamariam você de deus." Teferi pensou em seus tempos de escola. "Outros chamariam você de maldição. Eu chamei você de meu mestre; a maioria o conhece como 'Planeswalker'."
Urza não conseguia mais sorrir — seu crânio havia enegrecido e esfarelado, seus ombros e costelas reduzidos a cinzas. E, no entanto, sua voz era forte como quando ele estava inteiro.
"Não há nada que eu possa fazer para mudar isso, há?" perguntou Urza. Ele parecia exausto, não queixoso. Fatigado como um homem que passara décadas sem dormir.
"Se estou aqui agora", sussurrou Teferi, "não acho que haja nada que você ou eu possamos fazer para mudar o que acontecerá. O tempo não passa como o ponteiro de um relógio: ele já está acontecendo."
"Então o que é isso", disse Urza, gesticulando para o vazio sem forma que os cercava. Ele se levantou, cambaleando, o torso inteiro desmoronando em pedaços cinzentos de cinza.
"Permita-me dar uma aula por um momento?" perguntou Teferi.
"Tome todo o tempo que precisar", disse Urza, um rosnado sarcástico surgindo em sua voz.
Teferi, ainda sentado, recostou-se, descansando como se faz em um campo de grama macia, como se estivesse absorvendo o sol. "Existem muitas metáforas para o tempo", começou Teferi. "Todas elas são verdadeiras, até certo ponto. Juntas, formam um mosaico de compreensão." Teferi observou enquanto Urza caminhava até a borda do terreno. Se ele ainda tivesse feições, Teferi supôs que ele estaria olhando para o vazio.
"Tem algo lá fora", sussurrou Urza. "Depressa."
"As pessoas dizem que o tempo flui como um rio", disse Teferi. "Mas isso apenas imagina o tempo movendo-se para frente ."
Apesar de sua evidente frustração, Urza estava curioso. Ele ouviu enquanto Teferi falava.
"Isso não está totalmente errado nem totalmente certo. É apenas limitado pela nossa perspectiva. Dos humanos, quero dizer. Temos um único ângulo para o prisma da existência: só vemos o tempo indo em uma direção, então imaginar o tempo como um rio não está errado. E como todos somos parte disso", Teferi acenou com a mão para o vazio ao redor deles, "nossa metáfora contém algo da verdade. Rios são agentes da passagem do tempo. Eles existem em uma escala maior do que nós. Eles também guardam mistérios: Se caminhássemos ao longo de qualquer rio — o Mardun, talvez — encontraríamos lugares onde ele cai em redemoinhos e correntes, dispara em pequenos ramos que não levam a lugar nenhum, ou se junta a outros rios, ou é cortado em seus próprios lagos. Esses lagos são lugares onde o rio para; se o tempo é um rio, então esses lagos são momentos onde o tempo para." Teferi disse: "Acho que estamos em um desses agora."
Após uma pausa, Urza finalmente falou. "Por quê?"
Teferi sorriu e balançou a cabeça. "Não faço ideia. Corri um risco baseado no que eu sabia ser verdade — estou tão surpreso de estar aqui quanto você."
"Você diz que no futuro eu me torno um mestre?"
"Muitos milhares de anos a partir de agora", disse Teferi.
Urza mofou. "Minha pedagogia precisa de melhorias", disse ele. Rabugento, mas não rude. Teferi conhecia o Urza de sua própria juventude em Tolária o suficiente para saber que o velho teimoso aprovava sua decisão. "Então, o que vem a seguir?" disse Urza. "O que eu preciso saber para poder lhe dizer o que você precisa saber?"
"Você vai encontrar mais deles", disse Teferi. Ele não precisava explicar; Urza entendia quem eram "eles". Seu irmão e o demônio de Koilos.
"Você vai passar a vida tentando lutar contra os Phyrexianos. Primeiro pelo que fizeram ao seu irmão, e depois pelo que farão a você."
"É assim que essa coisa se chama?" murmurou Urza. "Uma raça inteira deles~" Ele era insubstancial demais para expressar emoções, mas Teferi viu a luz rastejando nas bordas brutas onde o corpo de Urza estivera antes, entrelaçando-se através do vazio queimado. Nas órbitas vazias onde seus olhos estiveram uma vez, uma nova luz começou a brilhar: uma vermelha e uma verde.
Urza estava sendo refeito. Costurado em algo diferente.
Planeswalker.
"Vocês perdem", disse Teferi. "Os Phyrexianos vencem. Você luta contra eles por milênios, mas eles sempre vencem. Você descobre que existem mais mundos do que um, mais do que até você pode contar. Cada um ocupa um plano de existência e, juntos, estão ligados em um espaço chamado Multiverso. Você viaja por esses planos por séculos e descobre que existem outros que também podem viajar por eles. Eventualmente, você estabelece uma escola — é onde nos conhecemos pela primeira vez, nesta escola — e você tenta desvendar os mistérios do tempo. Você consegue, mas descobre que não pode voltar."
"Então como você conseguiu?"
"Com grande dificuldade", disse Teferi com um sorriso cansado.
A pele preencheu o andaime tecido de luz de Urza, crua e jovem, sangrando para preencher suas feições como um pêssego esmagado em um lençol branco. Seus lábios se reformaram a tempo de ele franzir a testa.
"Vá direto ao ponto", disse Urza. "Apesar de tudo, eu não detenho os Phyrexianos. Você está aqui tendo viajado pelo tempo de uma forma que eu não consegui. Por quê?"
Teferi podia ouvir a dor na voz de seu antigo instrutor. Aqui estava ele, preso no momento de sua morte com um homem desesperado do futuro que lhe dizia que sua guerra não terminava ali. Que seu ato final não lhe concedia paz alguma, mas apenas abria uma porta que continha uma guerra ainda maior, uma cujo rastro de ruína era inevitável, uma que se estenderia por milhares de anos e ceifaria inúmeras vidas. Se fosse um homem mais gentil, Teferi teria parado de falar. Ele não teria contado a verdade a Urza.
Sou eu tão cruel quanto ele? perguntou-se Teferi. Tão necessário? O tempo dirá.
"Os Phyrexianos voltaram", disse Teferi. "No meu tempo, eles ameaçam todo o Multiverso. Enquanto falamos, meu corpo jaz em sua torre, cercado por outros Planeswalkers como nós. Os Phyrexianos estão atacando; eles estão tentando nos impedir de aprender como detê-los antes que sua invasão possa começar."
Urza estava quase inteiro. "Por que não voltar para quando eu — quando nós — derrotamos os Phyrexianos pela primeira vez?" perguntou ele. "O que aconteceu então que é tanto pior do que agora?"
"Não", disse Teferi. Ele pensou em Zhalfir. Em Shiv. Na Guerra das Miragens. No tempo dilacerado e na fúria de Urza. "Então não. Nunca."
"Então por que agora?"
"O sílex", disse Teferi. "No nosso tempo, temos um fac-símile deste. Saheeli — uma mulher brilhante de um plano que você pensaria ser o paraíso — ela recriou este mesmo dispositivo: tudo o que precisamos saber é como ativá-lo."
"Você vai usá-lo contra os Phyrexianos?"
"Sim."
"E isso acabará com isso?"
"Sim."
Urza assentiu. "Dê-me um pouco de espaço", disse ele, sinalizando para Teferi se afastar. Urza aproximou-se do sílex e parou sobre ele. A luz obliterante logo cresceria para eclipsar o sol poente. Ele se sentou. Segurou a borda da bacia e levantou-a de volta para o colo. Mais uma vez, seu corpo começou a arder, descascando em cinzas — desta vez revelando o entrelaçado de luz por baixo.
Teferi lembrou-se de como era o poder antes da Emenda. O corpo era apenas um receptáculo: a centelha era maior.
"Eu o segurei assim", disse Urza. Ele estava contemplativo. Sua voz falhou por um momento enquanto a parte superior de seu corpo ardia novamente — e, no entanto, embora a luz que emanava do sílex fosse avassaladora, Teferi ainda podia ver a silhueta de Urza dentro dela, uma luz de algum modo mais brilhante. Um ser recusando a morte.
"Deixei o sangue do corte que meu irmão me deu cair nele", disse Urza. "Senti o peso de Terisiare em meu coração", ele pensou por um momento. "Eu podia ouvir o mundo inteiro clamando — não precisei ler as runas aqui para entender o que significavam." Ele traçou um dedo solar pela barriga da bacia. "Houve uma mulher durante a guerra — Hurkyl, do Colégio de Lat-Nam." Urza falou em voz alta, mas não para Teferi.
Teferi ouviu — qualquer coisa que Urza dissesse poderia ser a chave.
"Diziam que ela podia usar magia", Urza balançou a cabeça. "Eu não acreditava nas histórias, mas estava errado. A meditação de Hurkyl era real: um método pelo qual alguém poderia se tornar um conduto para a~ alma da terra: amor, dor, alegria, medo, emoção e memória. Tudo isso, canalizado através de um único ponto. Através de uma única pessoa, que poderia atrair esse poder através de si e projetá-lo no mundo. Foi a isso que recorri quando usei o sílex. Eu não tinha mais nada, e quando segurei isso em minhas mãos, derramei tudo nele. Então tudo acabou." Urza olhou para Teferi. "Assim que o segurei, soube o que fazer. Isso é tudo o que posso lhe dizer."
Teferi compreendeu. Com horror, ele compreendeu. Não havia nenhum feitiço desconhecido a ser descoberto, nenhum mecanismo secreto pelo qual Urza ativou seu sílex. As meditações de Hurkyl estavam bem documentadas. As gravuras rúnicas no sílex haviam sido moldadas e remoldadas, gravadas em réplica perfeita na cópia de Saheeli. Tudo era conhecido e compreendido. Eles tinham tudo o que precisavam, exceto a pessoa. O gatilho para detonar o sílex não era um feitiço ou um artefato — era uma pessoa.
"Acho que nosso tempo acabou", disse Urza, apontando para o vazio acima da cabeça de Teferi.
Eles olharam para cima, em direção à distância empírea. Rachaduras se espalhavam pela infinitude, silenciosas e infiltrantes. Contra o espaço em branco insondável, dedos escuros e incontáveis começaram a sondar. Sombras, pressionando contra este enclave. Eles estavam abusando da hospitalidade. Algo estava vindo atrás deles.
"Eu me lembrarei disso?" perguntou Urza.
"Não, acho que não", respondeu Teferi. "Nosso lago — ele apenas se torna parte do rio novamente."
"Eu imaginei." Urza levantou-se. "Milhares de anos disso", sussurrou ele. "Deuses, não estou pronto."
"Você está", disse Teferi. "Você tem que estar."
Urza olhou para Teferi, seus olhos brilhando com facetas de rubi e esmeralda. "Você nunca me disse", disse ele. "Qual é o seu n—"
O vazio quebrou.
A escuridão invadiu.
Arte de: Liiga Smilshkalne
64 AR
E houve silêncio em Terisiare.
69 AR
O que antes fora um litoral verdejante estava agora inundado de detritos. Os destroços de grandes árvores e as rochas enormes foram levados quilômetros para dentro da costa, criando uma região devastada ao longo da praia, desprovida de vida.
Entre os destroços havia uma grande caixa de metal, com dois metros de comprimento, um metro de largura e altura. Ela resistira à destruição e viera descansar entre os outros restos espalhados do que fora Argoth.
Urza parou ao lado da caixa e pressionou a mão contra a tampa.
Arte de: Slawomir Maniak
O topo da caixa deslizou sobre seus rodízios, revelando a forma adormecida de seu ex-aprendiz. Tawnos respirou fundo, depois sentou-se bruscamente, ofegante. Seu rosto estava pálido e ele estava coberto de pele morta que descascara, mas não tinha para onde ir dentro de seu confinamento.
Urza esperou que Tawnos recuperasse a compostura, permanecendo paciente como uma estátua. Tawnos respirou fundo, segurou o fôlego e depois respirou pela segunda vez. Em seguida, olhou ao redor para a devastação que os cercava.
"Acabou", disse Urza, sentando-se na borda da caixa.
Tawnos engoliu em seco e olhou em volta. "Este foi o esconderijo mais seguro que consegui pensar", disse ele. Urza não respondeu. Tawnos disse: "Seu irmão?"
"Morto", disse Urza. "Eu~" Ele balançou a cabeça. "O demônio, o Phyrexiano, matou meu irmão há muito tempo. Eu nunca percebi."
"Onde estamos?" perguntou Tawnos.
Urza olhou em volta e suspirou profundamente. "A costa sul de Yotia."
Tawnos piscou. "Mudou."
"O mundo mudou", disse Urza, "por causa do que fizemos. Por causa do que eu fiz."
Tawnos saiu da caixa e Urza o ajudou. Tawnos sentia-se fraco por causa de seu encarceramento e esfregou os braços e as pernas, tanto para sacudir a pele morta quanto para restaurar a circulação. Estava frio naquela praia, mais frio do que Tawnos lembrava de sua juventude.
"Preciso de uma última tarefa sua, meu antigo aluno", disse Urza.
"Diga", disse Tawnos.
"Quero que você vá para o oeste. Encontre os restos da União, os eruditos das torres de marfim. Conte a eles o que aconteceu aqui. Conte a eles o que fizemos e o que falhamos em fazer. Certifique-se de que eles não façam o mesmo. Confio em você para fazer isso."
Tawnos olhou para o homem mais velho, mas pareceu-lhe que Urza não era mais velho. Seu cabelo estava loiro novamente e seus ombros eretos. Mas seus olhos eram velhos além dos anos e sofridos além da dor mortal.
"Você sempre pode confiar em mim", disse Tawnos. "Para onde você vai?"
Urza afastou-se de seu antigo pupilo. "Longe", disse ele após um curto silêncio. "Eu vou~ embora."
"Parece que poderíamos usar sua ajuda aqui", disse Tawnos. Urza fez um som que Tawnos pensou ser uma risada nervosa. "Não acho que a terra sobreviveria a mais da minha ajuda. Preciso~ preciso ir embora. E pensar sozinho. Onde não prejudicarei os outros."
Tawnos assentiu e disse: "Não sei se existe algum lugar tão longe assim."
Urza balançou a cabeça e disse: "Existem lugares muito além da terra de Terisiare, muito além do mundo de Dominária. Quando derramei minhas memórias no sílex, eu os vi. Vejo muitas coisas que nunca vira antes."
Ele voltou-se para Tawnos, e o Mestre Erudito viu os olhos de Urza. Não eram mais olhos humanos, mas sim duas pedras preciosas, irradiando uma cascata de tons multicoloridos: verde, branco, vermelho, preto e azul.
Pedra do Poder e Pedra da Fraqueza, reunidas finalmente, dentro do irmão sobrevivente.
Arte de: Ryan Pancoast
A imagem foi apenas por um instante; depois os olhos de Urza voltaram ao normal. Urza sorriu. "Eu devo ir embora", repetiu ele.
Tawnos assentiu lentamente, e o homem com olhos cristalinos humanos levantou-se. "Você foi um aluno por muito tempo", disse Urza. "Agora vá ser um professor."
Enquanto falava, Urza começou a desaparecer de vista. Lentamente a cor esvaiu-se dele, deixando apenas contornos; então eles também desapareceram. "Ensine-os sobre nossos triunfos e nossos erros", disse uma voz distante. "E diga a Kayla para não se lembrar de mim~"
"Como você foi, mas como tentou ser", completou Tawnos, mas ele falava para o espaço vazio. Urza passara do mundo para mundos maiores que apenas seus olhos cristalinos podiam ver.
Tawnos olhou ao redor, mas não havia sinal de vida. Ele partiu para o interior, esperando passar pelo pior da devastação antes de ter que viajar para o oeste. Não reconheceu nenhum marco familiar e teve a sensação de que não reconheceria por um longo tempo. Tawnos perguntou-se quão terrível a devastação realmente era.
E enquanto Tawnos caminhava para o interior, foi saudado pelos primeiros flocos de neve flutuando em um vento gelado.